Paulo Teixeira*
Ao celebrar seus 78 anos em 2026, a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), reafirma uma convicção central da fé cristã: a palavra de Deus nunca se cala. Ao longo da história, a Palavra sempre encontrou caminhos para alcançar as pessoas. Muitos desses caminhos passaram, e continuam passando, pela tecnologia. É nesse contexto que a SBB expressa sua missão: semear a Palavra que transforma vidas, utilizando todos os meios possíveis para que isso aconteça.
Desde os tempos bíblicos, Deus utiliza os meios disponíveis para comunicar sua Palavra. Antes da escrita, a fé era transmitida pela oralidade, na repetição fiel das histórias e promessas. A oralidade e a contação de histórias eram a tecnologia daquele tempo. À época de Moisés, surgiu o registro escrito, e Deus aproveitou esta modalidade para registrar a sua vontade. Mais tarde, cartas escritas à mão percorriam estradas e rotas marítimas do Império durante a pax romana, levando o evangelho a diferentes localidades e grupos. E a cópia manual da palavra de Deus, árdua e demorada (de 4 a 6 anos), exemplar por exemplar, continuou transmitindo a mensagem sagrada de geração em geração. A história da salvação, portanto, caminha lado a lado com os recursos comunicacionais e tecnológicos de cada época.
Um dos momentos mais emblemáticos dessa relação entre Bíblia e tecnologia ocorreu na Reforma Protestante. A invenção da imprensa por Johannes Gutenberg, por volta de 1455, abriu caminho para que Martinho Lutero, algumas décadas mais tarde, levasse as Escrituras aos alemães na língua que eles compreendiam. Impressos na invenção de Gutenberg, primeiro o Novo Testamento (1522) e depois a Bíblia completa (1534), os textos se espalharam rapidamente pelos principados e comarcas alemãs. O acesso à Bíblia deixava de ser privilégio de poucos que sabiam ler e dominavam o latim e passou a alcançar lares, famílias e comunidades inteiras na língua do coração daquelas pessoas. A tecnologia, nesse contexto, foi instrumento de Deus para acelerar e ampliar o alcance da sua Palavra.
Hoje vivemos uma nova etapa dessa mesma história. A missão da SBB permanece: traduzir, produzir e distribuir a Bíblia — semeando a Palavra que transforma vidas. Mas os meios se multiplicaram. Além da impressão — que segue relevante e necessária —, a Bíblia está presente em aplicativos, plataformas digitais, áudio, vídeo, braile e diversos outros formatos acessíveis.
Os números ajudam a dimensionar esse momento. Em anos recentes, a fraternidade das Sociedades Bíblicas Unidas, da qual a SBB faz parte, tem distribuído cerca de 150 milhões de Escrituras impressas anualmente no mundo, incluindo dezenas de milhões de bíblias completas. Ao mesmo tempo, o ambiente digital apresenta crescimento expressivo. O App da Bíblia YouVersion, que dá acesso gratuito às traduções bíblicas da SBB, celebrou em 2025 1 bilhão de downloads desde o seu lançamento em 2008. E apenas neste App foram lidos e/ou ouvidos mais de 6 bilhões de capítulos da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e da Nova Almeida Atualizada (NAA). E o impresso e o digital vão convivendo simultaneamente em nosso país e no mundo, superando a hipótese, levantada nos anos 2000, de que o livro impresso acabaria, sendo substituído pelo digital. Isso não ocorreu com a Bíblia, e a tendência é de que não venha a ocorrer. Em 2024, o Centro de Produção da Bíblia da SBB alcançou a marca de 200 milhões de bíblias e novos testamentos impressos em 29 anos de existência, e a produção, graças a Deus, só faz crescer.
O Brasil tem papel de destaque nesse cenário. O país figura entre os maiores distribuidores de bíblias impressas e também entre os que mais acessam as Escrituras em ambientes digitais. Esses dados revelam não apenas alcance, mas também interesse e engajamento com a Palavra.
Além da distribuição, há avanços importantes na tradução bíblica. Hoje, bilhões de pessoas já têm acesso à Bíblia completa em sua própria língua, fruto de um esforço global contínuo das Sociedades Bíblicas Unidas e de outras missões tradutoras. Novas traduções em línguas minoritárias e em línguas de sinais seguem alcançando comunidades que, até pouco tempo atrás, não tinham acesso às Escrituras.
Nesse contexto, novas tecnologias, como a inteligência artificial, passam a integrar o processo missionário. Elas auxiliam na elaboração de primeiros rascunhos, na análise linguística e na verificação de traduções. No entanto, é fundamental manter o discernimento: a tecnologia é ferramenta, não autoridade. O cuidado com o texto bíblico, a fidelidade teológica e a sensibilidade cultural continuam sendo responsabilidade humana. O tradutor ou consultor de tradução é quem pilota a tecnologia, e não o contrário.
Esse discernimento também se aplica ao uso cotidiano da tecnologia. As redes sociais se tornaram um verdadeiro areópago digital (leia Atos 17 e você vai entender), onde o testemunho cristão é constantemente observado. Compartilhar a Bíblia nesses espaços exige fidelidade ao texto, respeito ao contexto e coerência de vida. Não basta citar versículos; é preciso viver aquilo que se posta e anuncia.
Diante de tudo isso, uma verdade permanece inalterada: a inspiração da Bíblia não está no formato, mas no conteúdo. Seja impressa, em áudio, em vídeo, em braile ou em uma tela, a Bíblia continua sendo a palavra de Deus. As formas mudam — e sempre mudaram —, mas a mensagem permanece a mesma.
O desafio da igreja hoje não é escolher entre o antigo e o novo, mas discernir o tempo. Somos chamados a usar, com sabedoria, os meios disponíveis, sem perder de vista o conteúdo eterno. Uma geração fiel não é aquela que rejeita a tecnologia, nem a que se submete a ela, mas a que a coloca a serviço daquilo que permanece para sempre: a palavra do Senhor, que transforma vidas com a mensagem de Cristo Jesus.
Saiba mais sobre o trabalho da Sociedade Bíblica do Brasil em www.sbb.org.br
* Paulo Teixeira é pastor da IELB, servindo na CEL Redentor de São Paulo, SP, desde 1996. Atua na SBB desde 1994, onde serviu na área de Tradução e Publicações na SBB e nas Sociedades Bíblicas Unidas por 31 anos. Atualmente é Diretor de Desenvolvimento Institucional e Arrecadação da SBB, e também coordenador da Aliança Pró-Tradução da Bíblia (APTB), uma das alianças estratégicas da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB). Paulo é casado com Ivonelde e pai de Paulo Nathan.
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