Pastor Iderval Strelhow
Congregação Redentor
São Paulo, SP
Jesus diz: “Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: ‘Não mate’” (Mt 5.21). Primeiro parece um mandamento bastante simples: não tirar a vida de outra pessoa. Mas Jesus vai muito mais fundo. Ele não está substituindo o mandamento de Deus por uma nova lei; mas mostra a profundidade que o mandamento sempre teve. O problema não se limita ao ato externo do homicídio, mas compreende o que acontece no coração: ira, desprezo, insultos e atitudes que destroem o relacionamento com o próximo.
Mestres da época de Jesus reduziram o mandamento a uma questão meramente civil: quem assassinasse alguém seria levado a julgamento. Assim, alguém podia pensar: “Nunca matei ninguém; então, cumpri o mandamento.” Mas Jesus revela que Deus olha o coração. A ira, o desprezo e palavras que ferem também atentam contra a vida do próximo.
É justamente aqui que Lutero nos ajuda a compreender o sentido positivo do Quinto Mandamento. Na explicação do “Não matarás”, ele ensina que devemos temer e amar a Deus de modo que não machuquemos ou prejudiquemos o nosso próximo, mas o ajudemos e amparemos em todas as suas necessidades físicas.
Perceba a profundidade disso: não matar é mais do que não tirar uma vida. É cuidar da vida que Deus deu a nós e ao nosso próximo. Não basta deixar de fazer o mal; o mandamento também nos chama a fazer o bem.
Isso conecta o Mandamento com o Setembro Amarelo. A campanha de prevenção ao suicídio nos lembra das pessoas em profundo sofrimento que precisam de alguém que perceba sua dor, converse com elas, as escute sem julgamentos e as ajude a obter atendimento adequado. O Ministério da Saúde destaca a importância de reconhecer sinais de alerta, conversar, ouvir, oferecer apoio e incentivar a busca de ajuda profissional.
Isso encontra uma bela correspondência com o Quinto Mandamento. Ajudar alguém que está sofrendo é uma maneira concreta de cuidar da vida do próximo. Às vezes, cumprir esse mandamento significa telefonar para alguém que está sozinho. Significa perguntar sinceramente: “Como você está?” e ter tempo para ouvir a resposta. Significa não ridicularizar a dor de alguém, não dizer que é falta de fé, não minimizar seu sofrimento. Significa acompanhar a pessoa até que ela receba a ajuda necessária.
A igreja também pode ser esse lugar de acolhimento. Não deve ser um ambiente onde uma pessoa esconda sua dor por medo de ser julgada. Deve ser um espaço em que pecadores e pessoas feridas possam ouvir: “Você não está sozinho. Estamos aqui para caminhar com você.”
Mas precisamos ir ainda mais fundo. O Evangelho não pode ser reduzido a “procure ajuda”. Há uma ajuda que somente Cristo pode oferecer. O problema mais profundo do ser humano não é apenas a tristeza, a solidão, a ansiedade ou qualquer outra aflição; é o pecado que nos separa de Deus. E, diante desse problema, nenhum ser humano pode salvar a si mesmo.
Aqui entra a Lei de maneira muito séria. Jesus mostra que somos culpados quando alimentamos ira, desprezo e palavras que ferem. Quantas vezes nossas palavras fizeram alguém se sentir pequeno, inútil ou rejeitado? Quantas vezes deixamos de perceber a dor do outro por estarmos ocupados demais com nossos problemas? Nosso pecado nos atormenta, mas a Lei não é a última palavra.
A ÚLTIMA PALAVRA É CRISTO
Jesus não apenas ensinou perfeitamente o Quinto Mandamento; ele cumpriu perfeitamente aquilo que nós não conseguimos cumprir. Ele amou os que o odiavam, suportou insultos, não respondeu ao mal com mal e, na cruz, entregou sua vida pelos pecadores. Ele morreu justamente por pessoas que continuamente falharam em amar e cuidar do próximo.
Na cruz, vemos a expressão máxima do amor de Cristo pela vida humana. Jesus entregou a própria vida para nos dar vida. Ele morreu para destruir a morte. Ressuscitou para nos dar a esperança de que a morte não pode vencer. Por isso, a igreja pode falar sobre prevenção do suicídio sem medo, mas também sem transformar a fé cristã em uma fórmula simplista. Não dizemos a alguém em sofrimento: “É só ter mais fé.” Dizemos: “Você não precisa enfrentar isso sozinho. Estamos aqui. Vamos procurar ajuda. E, acima de tudo, Cristo está com você.”
Também é preciso afirmar que a igreja não deve tratar uma pessoa que tentou ou morreu por suicídio com condenação simplista. O suicídio é uma tragédia e está em conflito com o dom da vida que Deus nos deu, mas não nos cabe declarar o destino eterno de uma pessoa com base apenas na maneira como ela morreu. O juízo pertence a Deus. À igreja cabe anunciar Cristo, consolar enlutados, acolher quem sofre e defender a vida.
Assim, o Setembro Amarelo é oportunidade para a igreja recordar este princípio cristão: Deus nos colocou uns na vida dos outros para cuidarmos uns dos outros. O Quinto Mandamento nos chama a proteger a vida; Jesus nos chama a amar o próximo; e o Evangelho nos mostra que, antes de tudo, fomos nós que recebemos cuidado e salvação das mãos de Cristo.
CONCLUSÃO
Alguém próximo de nós pode estar atravessando tempestades que não enxergamos. Por isso, neste mês e durante todo o ano, sejamos igreja que percebe, escuta, acolhe e ajuda. Quando necessário, encaminhemos a pessoa aos profissionais e serviços de saúde; isso é expressão do amor ao próximo. A prevenção exige presença, escuta e ação, e não julgamento.
Acima de tudo, apontemos para Jesus. Ele é o Senhor da vida, e não despreza o pecador ferido. Ele veio ao nosso encontro. Na cruz, carregou nosso pecado, culpa e morte; na ressurreição, deu-nos a esperança da vida eterna. Por isso, podemos dizer ao irmão que sofre: “Sua vida tem valor diante de Deus. Você não está sozinho. Queremos caminhar com você. E Jesus Cristo está com você.” Reconciliados com Deus por Cristo, somos chamados a cuidar da vida que Deus confiou a nós e ao nosso próximo.
“Não matarás” não é apenas não tirar a vida. Em Cristo, aprendemos a proteger, ajudar, amparar e cuidar da nossa vida e da vida do próximo. E quando nossa força não é suficiente, corramos para Cristo, que morreu e ressuscitou para que tenhamos vida, e vida em abundância (Jo 10.10).
ORAÇÃO
Senhor, nosso Deus e Pai, te agradecemos porque, em Jesus Cristo, nos mostraste o verdadeiro valor da vida. Perdoa-nos quando, por nossas palavras, atitudes ou omissões, ferimos ou deixamos de cuidar de nós e do nosso próximo. Dá-nos um coração misericordioso para perceber a dor daqueles que sofrem, disposição para ouvir, coragem para ajudar e sabedoria para encaminhar quem precisa de auxílio.
Senhor Jesus, tu que entregaste tua vida na cruz para nos salvar e ressuscitaste para nos dar a esperança da vida eterna, permanece conosco em nossas angústias e fortalece os que estão cansados, abatidos e sem esperança. Usa-nos como instrumentos do teu amor para cuidar da vida e amparar aqueles que precisam de ajuda. Que, em todas as circunstâncias, possamos confiar em ti, o Senhor da vida e nosso Salvador. Em teu nome oramos. Amém.


