Por que ainda precisamos da igreja?

Pastor Gabriel Schmidt Sonntag

Poucas coisas combinam tão bem com nosso tempo quanto a possibilidade de fazer tudo sozinho. Podemos trabalhar de casa, estudar sem entrar em uma sala de aula, comprar sem visitar uma loja e manter contato com pessoas que estão a milhares de quilômetros. Até mesmo uma boa parte daquilo que tradicionalmente associamos à vida religiosa pode ser acessada individualmente: existem Bíblias, cursos, podcasts, sermões e cultos disponíveis a qualquer hora. Diante de tantas possibilidades, uma pergunta acaba surgindo com naturalidade: se posso orar em casa, ler a Bíblia sozinho e acompanhar excelentes pregadores pela internet, por que ainda preciso da igreja?

A pergunta é mais importante do que parece, porque toca em uma mudança na maneira como compreendemos a própria religião. Aos poucos, podemos começar a imaginar a fé como mais um elemento de nossa vida privada. Assim como escolhemos o que assistir, o que ouvir e quais pessoas seguir, selecionamos também aquilo que nos ajuda espiritualmente. Um sermão aqui, uma música ali, um livro acolá. Se determinado conteúdo não agrada, basta procurar outro. Sem perceber, a igreja pode deixar de ser compreendida como comunidade na qual somos colocados por Deus e começar a funcionar como uma espécie de fornecedora de conteúdos religiosos. Quando oferece algo útil, participamos; quando não oferece, seguimos nosso caminho.

O problema é que o Novo Testamento dificilmente reconheceria essa forma de cristianismo. A fé cristã possui uma dimensão profundamente pessoal, mas nunca foi uma experiência solitária. Jesus chama discípulos e forma ao redor de si uma comunidade. Depois de Pentecostes, Lucas descreve aqueles primeiros cristãos dizendo que “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). Palavra, comunhão, sacramento e oração aparecem reunidos no mesmo movimento. Não temos simplesmente pessoas que acreditam nas mesmas ideias e ocasionalmente decidem encontrar-se; temos pessoas que, tendo sido alcançadas por Cristo, passam a pertencer umas às outras.

Paulo utiliza uma imagem ainda mais forte quando chama a igreja de corpo de Cristo. Em 1Coríntios 12, ele não descreve a comunidade como uma associação de indivíduos autossuficientes que resolveram cooperar. O pé precisa da mão, o ouvido precisa do olho, os membros precisam uns dos outros porque já pertencem ao mesmo corpo. A unidade vem antes da escolha. Isso muda bastante a pergunta. Talvez a questão não seja simplesmente: “O que eu ganho participando da igreja?”, mas: “O que significa ter sido colocado por Cristo em seu corpo?”

A Confissão de Augsburgo, um dos documentos fundamentais da tradição luterana, oferece uma resposta simples ao definir a igreja como a congregação dos santos na qual o Evangelho é ensinado corretamente e os Sacramentos são administrados conforme o Evangelho (CA VII). É interessante perceber o centro dessa definição. Ela não começa falando de prédios, programas, diretorias ou atividades. Também não apresenta a igreja como uma reunião de pessoas particularmente religiosas. O centro está na ação de Deus: o Evangelho é proclamado e os Sacramentos são administrados. A igreja é, antes de tudo, lugar de receber.

Esse ponto talvez seja especialmente difícil para nós. Estamos acostumados a avaliar quase tudo a partir daquilo que fazemos. Quando pensamos na igreja, perguntamos sobre nossa participação, nosso envolvimento, nosso serviço, nossas ofertas ou aquilo que poderíamos melhorar. Todas essas coisas são importantes, mas elas não vêm primeiro. Antes de qualquer coisa que fazemos na igreja, há aquilo que recebemos nela. O Evangelho chega aos nossos ouvidos. No Batismo, Deus colocou seu nome sobre nós. Na Santa Ceia, Cristo entrega seu corpo e sangue para perdão. Na absolvição, uma palavra que não nasce de nossos sentimentos é pronunciada sobre nós: seus pecados estão perdoados.

É justamente por isso que não basta dizer que podemos ter fé sozinhos. O problema não é que Deus seja incapaz de nos encontrar quando estamos em casa. Evidentemente ele pode. O problema é imaginar que a fé cristã seja produzida principalmente pela nossa própria interioridade. Há momentos em que o nosso coração está seguro demais de si; em outros, está cheio de dúvida. Há dias em que achamos que estamos muito bem e dias em que conseguimos enxergar apenas fracasso. A fé, porém, não depende da estabilidade de nossa percepção. “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo”, escreve Paulo em Romanos 10.17. Precisamos de uma Palavra que venha de fora de nós porque o Evangelho não é aquilo que conseguimos dizer para nós mesmos. Ele é algo que precisamos ouvir.

Mas existe ainda outro aspecto. Na igreja existem outras coisas importantes junto com a Palavra e os Sacramentos. Ela também nos coloca diante de pessoas que não escolhemos. Isso pode parecer uma desvantagem, especialmente numa cultura em que podemos selecionar quase todas as nossas relações. Contudo, talvez seja justamente uma das maiores dádivas da vida comunitária. É relativamente fácil construir pequenos círculos de pessoas que possuem nossa idade, nossos interesses, nossas opiniões e nossa maneira de enxergar o mundo. A congregação frequentemente faz o contrário: coloca lado a lado crianças e idosos, pessoas de diferentes profissões, histórias, temperamentos e condições sociais. Elas não estariam necessariamente juntas em outro lugar, mas se chamam de irmãos e irmãs porque possuem o mesmo Senhor.

Dietrich Bonhoeffer percebeu isso de maneira muito aguda em Vida em Comunhão. Para ele, existe um perigo quando amamos mais o nosso sonho de comunidade cristã do que a comunidade concreta que Deus realmente nos deu. A comunidade ideal sempre parece melhor: nela ninguém nos decepciona, todos concordam conosco e tudo funciona como deveria. A comunidade real, entretanto, é formada por pecadores, inclusive nós. E é justamente nessa comunidade imperfeita que palavras como paciência, reconciliação e perdão deixam de ser conceitos abstratos e tornam-se parte da vida cristã.

Talvez por isso Hebreus 10 não diga apenas que os cristãos devem continuar se reunindo. O autor escreve: “Cuidemos também de nos animar uns aos outros no amor e na prática de boas obras. Não deixemos de nos congregar” (Hb 10.24-25). As duas coisas estão ligadas. Eu não participo da comunidade somente porque preciso dela; participo também porque outros precisam de mim. Minha presença, minha oração, minha voz no canto, meu serviço e minha atenção fazem parte da vida do outro. Às vezes chegamos à igreja pensando principalmente naquilo que receberemos daquele culto e esquecemos que nossa simples presença também pode ser uma forma de encorajamento.

Isso não significa idealizar a igreja. Congregações erram. Pastores erram. Cristãos machucam uns aos outros. A história da igreja possui episódios que deveriam nos levar à humildade e ao arrependimento. Nenhum argumento sobre a importância da comunidade cristã deveria servir para esconder pecados ou exigir que alguém trate abusos e injustiças como se fossem pequenas imperfeições inevitáveis. Mas existe uma diferença entre reconhecer que a igreja é composta por pecadores e concluir que, por isso, podemos dispensá-la. Se a comunidade cristã fosse uma reunião de pessoas que já aprenderam perfeitamente a amar, perdoar e servir, nenhum de nós estaria pronto para fazer parte dela.

Talvez, então, a melhor resposta para a pergunta inicial seja outra pergunta. Em vez de simplesmente perguntarmos “por que eu ainda preciso da igreja?”, poderíamos perguntar por que Deus, desde o início, decidiu reunir seu povo. E a resposta que encontramos nas Escrituras não é a de que somos mais fortes juntos porque a união faz a força. É muito mais profunda. Deus reúne seu povo porque deseja encontrá-lo ali com seus dons. Ele cria uma comunidade ao redor da Palavra, reúne pecadores ao redor do perdão e coloca pessoas muito diferentes umas ao lado das outras, ensinando-as a viver de uma graça que nenhuma delas produziu.

Há muitas coisas que podemos fazer sozinhos. Podemos ler um livro, ouvir uma palestra e até acompanhar um culto inteiro pela tela. Tudo isso pode ser útil. Mas nenhuma dessas possibilidades muda aquilo que a igreja é. Cristianismo não é apenas acesso a conteúdo cristão. É receber Cristo e, ao recebê-lo, descobrir que ele nos colocou dentro de uma história e de um povo.

É por isso que ainda precisamos da igreja. Não porque ela seja perfeita, nem porque fora dela seja impossível encontrar algo verdadeiro ou bom, mas porque Cristo não nos chamou apenas para acreditar em algumas verdades sobre ele. Ele nos chamou para si. E aquele que nos chama para si também nos coloca ao lado de irmãos e irmãs, reúne-nos em torno de sua Palavra e de seus Sacramentos e continua, semana após semana, entregando aquilo que jamais conseguiríamos produzir por conta própria: o perdão, a fé e a vida.

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