Existes situações que precisam ser enfrentadas. Deus governa o mundo e nele colocou o ser humano criado à sua imagem e semelhança. Veio a queda e a humanidade caída recebeu a promessa de restauração. Deus escolheu um povo e conduziu a história até a vinda de Cristo. O Novo Testamento nos conta a história de Jesus com o seu povo e o livro de Atos demonstra a atuação do Espírito Santo por meio da sua igreja. Em todas as fases da história que a Bíblia registra, Deus conduziu pessoas por meio das quais realizou atos que mudaram o rumo da humanidade.

A igreja cristã também viveu a sua história, com crescimento exponencial, sendo perseguida e também se corrompendo. Em todo o tempo havia pessoas fiéis à Palavra e que lutavam pela fé e a salvação de pessoas.

No início do século XVI Martinho Lutero foi um líder que se tornou referência teológica e recolocou as Sagradas Escrituras como base de doutrina e fé para a igreja. Para a maior parte dos leitores deste texto esta é uma história conhecida, e muitos de nós nem mesmo temos ideia o que é viver sob outra doutrina ou tradição religiosa, pois somos de gerações de famílias que professam a fé luterana. Mas aqui eu quero pedir a sua atenção. A doutrina bíblica, na qual nós cremos, não é óbvia e teve um custo humano para ser mantida e devolvida à igreja.

Entre nossos irmãos na fé, tanto na IELB como em outros países, temos muita gente que vive o encanto da liberdade cristã, por hoje estar livre da opressão causada por religiões pagãs ou doutrinas que se concentram no que o ser humano é capaz de fazer, exigindo dele uma perfeição que lhe é impossível, aterrorizando a mente e afligindo o coração.

Não somos luteranos por tradição, mas por convicção e fé. E esta é uma afirmação que me leva a compartilhar uma experiência. Certamente cada um de nós já ouviu ou usou a expressão: “cada dia é único!” É verdade, isso tem lógica e a nossa razão nos convence disso!

Eu já tive a oportunidade de viver experiências ao celebrar o Culto da Reforma reunindo centenas de pessoas, inclusive mais de mil, na celebração dos 500 anos da Reforma. Neste ano a afirmação “cada dia é único” se reveste de um significado especial, pois vivi a experiência de celebrar o culto da reforma com uma igreja jovem, que tem duas décadas de existência e uma extraordinária presença em uma país desafiador. Escrevo este texto à partir de Moçambique, onde estamos em mais uma jornada de apoio, fortalecimento e desenvolvimento teológico da Igreja Cristã da Concórdia em Moçambique. Estamos na província de Sofala, em Moçambique.

Algo marcante que vivenciamos nos cultos da reforma: Não houve santa ceia. Mesmo tendo trazido hóstias do Brasil, nesta cidade não têm vinho no comércio local. Desta forma, a celebração ocorre quando alguém pode trazer vinho da capital da província, o que também se torna dispendioso.

O Culto da Reforma onde tive a oportunidade pregar foi a Congregação São Paulo, Vila de Sena, município de Caia. Esta congregação está no berço do luteranismo em Moçambique. Uma igreja repleta de jovens e crianças, mas também idosos e adultos que aqui vivem a sua fé, libertados de crenças pagãs. Pessoas que não apenas reagem com aplausos a afirmações bíblicas em um sermão, pela sua espontaneidade cultural, mas que em cada conversa individual compartilham suas histórias e expressam a essência das mudanças que o Evangelho de Jesus realizou em suas vidas. A alegria e a leveza da fé são perceptíveis não apenas no entusiasmo em seu culto, como também na tranquilidade de testemunhar o que é ser nova criatura.

Que a nossa história de fé e a tradição de geração em geração, não permita perder a essência de reconhecer que a transformação que o batismo realizou em nós é tão grande quanto a transformação de pessoas que viveram anos no paganismo e conheceram a justificação pela fé. Ao nascermos em um lar cristão não temos consciência da dimensão do que é viver longe da graça de Deus. Ele nos protegeu do paganismo e permitiu nascer em um lar cristão, mas mesmo assim, o resgate ocorrido no batismo nos tirou do caminho do inferno do mesmo modo como tirou pessoas que vivenciaram práticas do paganismo.

Desta vez estamos com a presença das igrejas que apoiam esta Missão. Teremos aulas com o professor Leonídio Schulz Görl, coordenador do Programa de Educação Teológica do Seminário Concórdia. Esta aqui o Rev. Thomas Beneke, pastor da Felsisa (Igreja Luterana livre da África do Sul) e que representa a Missão de Igrejas Luteranas (Blemarer Mission). Da mesma forma, o Rev. Fernando Henrique Huf, do Projeto Aliança, representando a LCMS como facilitador de área da África Austral, e Rev. Airton S. Schroeder, pela IELB, coordenador das igrejas e instituições de apoio à Igreja em Moçambique.

FERNANDO HENRIQUE HUF:
Com base no texto de Gênesis 2, sobre a criação do homem e da mulher, o pastor Thomas Beneke falou sobre vocação no culto da Reforma na Congregação São Zaqueu, de Chola, que se reúne no Centro Luterano de Formação Teológica da ICCM. Por pregar em inglês, o seu sermão foi traduzido para a língua chisena pelo Pastor Abel Sifa e para a língua portuguesa, por mim, Fernando Huf.

Foi muito especial relembrar que, porque já estamos reconciliados com Deus por meio de Jesus, onde quer que estejamos, somos chamados a servir o próximo, sendo máscaras de Deus. Em certo momento da pregação, o Pastor Thomas chamou à frente uma mãe com seu bebê para falar de como Deus se agrada de gestos comuns, como cuidar de um bebê tão dependente, que precisa ser alimentado e ter suas fraldas trocadas por outro ser humano. Essa é uma mensagem que alegra o coração de pais e mães, maridos, esposas e filhos, em qualquer lugar do mundo.

LEONIDIO SCHULZ GÖRL:
Celebrar a Reforma na Congregação São Pedro, em Sena, foi uma experiência que tocou profundamente meu coração. Tive a oportunidade de pregar e conversar, antes e depois do culto, com pessoas muito simples, cuja acolhida e disposição para ouvir a Palavra de Deus me marcaram.

O local do culto expressava as condições de vida daquela comunidade: troncos finos de árvores nativas sustentavam uma cobertura de palha, sem paredes e com chão de terra batida. O altar era simples, sem adornos. Crianças e adultos vestiam roupas humildes, alguns estavam descalços. As ofertas, embora pequenas aos nossos olhos, representavam sacrifício e generosidade. Em meio às dificuldades do cotidiano, aqueles irmãos e irmãs estavam reunidos para ouvir o Evangelho e encontrar consolo nas promessas de Deus.

A congregação cantava muito, preenchendo de vozes aquele espaço. A liturgia, as leituras bíblicas e os hinos eram em chisena, a língua nativa. Preguei em português, com tradução do pastor Eufrasio José Daio, para o chisena, para que a comunidade compreendesse a mensagem. Isso me fez recordar a importância que a Reforma deu ao acesso às Escrituras na língua do povo. Ao traduzir a Bíblia para o alemão, Lutero fortaleceu o movimento de tradução e difusão das Escrituras. Naquela celebração, o compromisso de tornar a Palavra de Deus compreensível a todos ganhava uma expressão concreta.

Também me marcou o zelo do pastor Seva que, sem receber remuneração, procura conciliar as necessidades de seu sustento com o cuidado daquele rebanho. Ao final do culto, uma senhora me presenteou com um galo vivo, para levar ao seminário onde estávamos hospedados. Recebi com emoção aquele gesto de carinho e hospitalidade, vindo de alguém que, mesmo tendo poucos recursos, desejava compartilhar o que tinha.

Pensei que Lutero também se emocionaria naquele lugar. A Reforma recolocou no centro da vida da Igreja uma promessa libertadora: somos salvos pela graça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo, sem qualquer mérito nosso. Sob aquela cobertura de palha, o contraste era marcante: os recursos materiais eram escassos, mas o verdadeiro tesouro da Igreja, o Evangelho da graça de Deus, era anunciado por inteiro. A simplicidade do lugar não diminuía a riqueza do perdão dos pecados, do consolo de Cristo e da promessa da vida eterna. A graça oferecida ali era a mesma proclamada nos mais belos templos.

Essa riqueza vinha de Cristo, não da pobreza. As necessidades daquela comunidade nos chamam ao cuidado e à solidariedade, enquanto seus cânticos, suas ofertas e sua hospitalidade nos lembram da resposta agradecida à generosidade de Deus. Voltei agradecido pela oportunidade de anunciar sua Palavra e por ter sido também fortalecido pela fé, pela acolhida e pela generosidade daqueles irmãos e irmãs.
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