O Ano Novo

O povo de Jesus e a face do Deus verdadeiro

César Motta Rios
Pastor em Miguel Pereira, RJ
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            Enquanto Jesus ainda crescia em Nazaré, cuidado por Maria e José, um homem já crescido, chamado Ovídio, exercia em Roma o ofício de poeta. Sua obra mais conhecida é As Metamorfoses, mas a que nos interessa agora é Os Fastos, conjunto de doze livros (dos quais restaram somente seis) tratando sobre cada um dos doze meses do ano.

            Como era de se esperar, o primeiro livro é sobre janeiro. Ali, Ovídio tece um diálogo imaginado com o próprio deus Jano, que, como se percebe pelo som, dá nome ao primeiro mês do ano. Não é figura muito conhecida. Talvez, isso se dê por algo que o próprio Ovídio ressalta: Jano não tem correspondente no panteão grego. Trata-se de uma divindade propriamente romana, que conta com a peculiaridade de ter duas faces, uma voltada para frente e outra para trás. É conhecido como deus da transição.

            Invenção intrigante. Mas, por que falar de Jano, se o assunto anunciado pelo título não é exatamente o ano novo dos romanos? Bom, primeiro, porque a própria localização da nossa celebração do ano novo no primeiro dia de janeiro é obviamente herdada dos romanos.

            Além disso, no seu poema, Ovídio faz transparecerem alguns costumes romanos que parecem perdurar, de certa forma, até nossos dias. Por exemplo, no poema, Jano diz que, no primeiro dia do ano, as pessoas trabalham (diferente do que fazemos, sim, mas espere pelo motivo), para que a ociosidade não contamine o todo. Ainda se ouvem associações entre algo que se faz no ano novo e o que supostamente ocorreria, por isso, no ano todo: “Vou arrumar a casa. Se não, vai passar o ano bagunçada!” De modo semelhante, você já ouviu alguma conversa sobre como o cardápio do Ano Novo influenciaria o resto do ano? Pois é! O poeta pergunta a Jano sobre os doces que eram comuns no Ano Novo. O deus responde que era uma forma de presságio, para que todo o curso do ano fosse doce como seu início. Jano também diz que, por meio dele, tornam-se acessíveis todos os outros deuses, que têm, portanto, templos abertos e ouvidos atentos no primeiro dia do ano, quando nenhuma prece é infrutífera. Eu me lembro de tantas pessoas que fazem questão de passarem o réveillon em vigília de oração. Algumas creem mesmo que orar justamente nessa noite e até no exato momento da virada do ano tem alguma virtude especial.

            Sabendo disso, compartilho um incômodo que quase fará com que nos desviemos do assunto. Por que tantos evangélicos rejeitam a celebração do Natal acusando-a inusitadamente de “pagã”, ao mesmo tempo em que celebram o Ano Novo sem neuras? Sei que há quem queira ver nas Escrituras a instituição da celebração. De fato, em Levítico 23 e Números 29, encontramos a expressão “Ano-Novo” em subtítulos de algumas edições da Bíblia. É bom lembrar, contudo, que esses subtítulos não fazem parte do texto bíblico em si, o qual não deixa claro que esse primeiro dia do sétimo mês, o dia das trombetas, seria celebrado como dia de Ano Novo. É algo tradicionalmente afirmado, mas não dado ou enfatizado pelo texto.

            Pois bem, aproveitemos esse quase desvio para voltarmos ao assunto enfrentando um problema: O que nós, que celebramos o Natal, podemos fazer com o Ano Novo?

            Não, nós não temos medo da data, como se ela nos associasse inevitavelmente ao deus de duas faces. Lançando fora as superstições, podemos, na liberdade cristã, aproveitar boas coisas que a data oferece, inclusive reuniões familiares, confraternização… Não desconsidero, também, que podemos aproveitar a ocasião, em que se costuma popularmente avaliar o passado e fazer planos para o ano seguinte, como oportunidade para uma ponderação sobre nossa vida cristã, embora tenhamos outras oportunidades para isso, como o Último Domingo do Ano da Igreja, o próprio tempo de Advento, a Quaresma, nosso aniversário… De qualquer forma, não faz mal que pensemos sobre a vida, não de modo supersticioso ou egoísta, mas com os olhos centrados em Cristo, o Salvador. Portanto, convém que, também no Ano Novo, tenhamos a Palavra nos ouvidos, para que ela santifique nossa vida e direcione nosso coração.

            Agora, há algo que me preocupa: a celebração do Ano Novo acontece bem no Tempo de Natal. A tendência de muitos é encerrar o assunto do Natal já no dia 25 de dezembro, voltando a atenção logo para as férias de verão e a festa ou ceia do réveillon. Uma ênfase no Ano Novo pode contribuir para essa ruptura precoce. Não. Isso não convém. O povo de Jesus faz bem em não perder a oportunidade de dedicar mais tempo ao tema da encarnação de Deus Filho para nossa salvação.

            Percebo que o Ano Novo dá conversa para mais de ano, mas este texto já vai terminando. Deixo só uma conclusão bem resumida: Se não queremos perder o rumo por radicalismo ou por negligência, o caminho é aproveitarmos sobriamente (conforme gosto de cada um) o que há de bom e sadio nas festividades de Ano Novo, enquanto celebramos sempre com coração atento e devoção o tempo de Natal, que é de importância ímpar, visto que há um só Deus verdadeiro, que não tem duas caras, mas que se revelou naquele que um dia caminhou pelas vielas empoeiradas de Nazaré, Jesus Cristo, que é para nós, portanto, a face visível do Deus invisível, resplendor da glória do Pai. Seja ele nosso guia! Seja o seu amor revelado na cruz a nossa referência ao longo de todo tempo, enquanto peregrinamos por dias contados rumo ao nosso lar na bendita eternidade.

            Com Cristo, nós temos destino certo! Vamos adiante!

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