VIVENDO EM CRISTO: Firmados no ensino que recebemos

Os desafios de ensinar em tempos de redes sociais e inteligência artificial

Rev. dr. Enio Starosky
Pastor
Diretor do Colégio Luterano São Paulo (Colusp)
São Paulo, SP

“Estejam enraizados nele (Cristo), construam a sua vida sobre ele e se tornem mais fortes na fé, como foi ensinado a vocês,crescendo em ação de graças” (Cl 2.6,7).

I. Pressupostos de formação que possibilitam uma educação cristã

O tema proposto é agudamente inquietante: como enfrentar os imensos desafios educacionais de nos mantermos firmados no ensino que recebemos, vivendo em Cristo, neste nosso tempo tão atribulado, inclusive caracterizado como de pós-verdade, com tantas possibilidades de abuso em seus incríveis recursos tecnológicos e no qual o papel educador da família e da igreja parecem muito prejudicados?

Assim, inicialmente, discutiremos aquilo que consideramos aspectos formativos da educação em geral que possibilitam uma sólida educação cristã.

Neste mundo tão problemático, mais do que nunca, aparece como desafiador o imperativo paulino de Romanos 12.2: “Não vivam conforme (não vos conformeis) os padrões deste mundo, mas deixem que Deus os transforme pela renovação da mente, para que possam experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

“Conformar”, aqui, não tem o sentido de resignar-se como o torcedor que amarga uma vergonhosa goleada sofrida por seu time e acaba não tendo outro remédio senão o de aceitar essa realidade e se “conformar” com essa triste situação. Não. O “conformar” a que se refere Paulo é o con-formar, amoldar-se, configurar-se pela mesma “fôrma” que in-forma o mundo, a sociedade em geral, os padrões seguidos por todo mundo.

E, de fato, o perigo de nos con-formarmos por esses padrões é muito grande: a sociedade exerce uma enorme pressão nesse sentido. Uma pressão também implícita, que o pensador espanhol Ortega y Gasset denominava “vigências” (vigencias).

Na notável conferência, “A Moralidade Coletiva” (1988), também o grande filósofo espanhol Julían Marías, colaborador e continuador do pensamento de Ortega, destaca essa onipresente pressão difusa que a sociedade exerce: a pressão que exercem as vigências, os usos sociais, que de certo modo se impõem à nossa vida e tiram-lhe algo da espontaneidade, da autonomia, ao mesmo tempo que a regulam e lhe propiciam facilidades.

… não inventamos o que vamos comer no café da manhã. Cada país já tem o seu desjejum habitual, em cada sociedade existe um uso habitual que estabelece o que se come na refeição matinal. Eu me lembro, por exemplo, que nos Estados Unidos é muito freqüente comer ovos no breakfast – eu os comia e me pareciam ótimos. Mas era difícil conseguir ovos na hora do almoço ou do jantar. Não era comum, porque não era costume, em geral as pessoas comiam ovos de manhã, no desjejum. Se em algum lugar qualquer da Espanha alguém pedir sardinhas para o café-da-manhã… terá certamente problemas; agora, se quiser um café com leite ou algo parecido, então será muito mais fácil…

Trata-se de uma pressão, repito, ambiente, difusa, mas que condiciona os modos de vida. Especialmente porque em nossa época… as mudanças recentes dos processos sociais têm se alterado muito, aceleraram-se e adquiriram uma importância que não tinham antes… (Marías, Julián A moralidade coletiva. “International Studies on Law and Education” Cemoroc-Feusp, n.7jan/abr.2011. Disponível em: http://www.hottopos.com/isle7/89-96Marias.pdf.)

A questão séria que está posta aqui é que não só nos são impostas vigências sobre o vestir e o comer, mas também formas de vida, formas de relações humanas, de família e de moral. São-nos apresentadas atitudes como normais, por serem frequentes. E nosso tempo tende erradamente a considerar o frequente como normal, o normal como lícito e o lícito como moral. Pode ocorrer que o frequente não seja normal, que o “normal” seja lícito legalmente, mas moralmente, não! Desta forma, as vigências condicionam a “moral coletiva”, aquilo que é socialmente aceitável, o que é considerado bom e o que é considerado mau.

Nem é necessário dizer que em nosso tempo boa parte das vigências não colaboram para uma vivência cristã autêntica, e a pressão para que assumamos suas “fôrmas” é muito forte. Nem é necessária uma perseguição explícita aos cristãos; as silenciosas vigências já constituem um enorme desafio para nós…

Portanto, a aposta da educação luterana para nosso tempo está em um reduto íntimo e pessoal de cada um: sua liberdade. A liberdade de aceitar a Cristo, de viver em Cristo, de acolher-se em sua graça, e compete à igreja ajudar nesse sentido.

Mais do que ficarmos lamentando os tempos que correm, vale o conselho de 1Tessalonicenses 5.21: “Examinem todas as coisas, retenham o que é bom”.

Frequentemente – tanto no ambiente escolar como na igreja – tenho percebido que se têm verbalizado uma visão pessimista de mundo, cheia de saudosismo, defendendo que “Antigamente é que era bom”; “No meu tempo, tudo era melhor”; “Hoje o mundo está perdido mesmo”; “Este mundo não tem mais jeito”; “Agora, sim, o mundo vai terminar”. Sem perceber (e sem querer), estão inoculando e espalhando um veneno perigoso nas mentes e corações, sobretudo da nova geração. Sempre combati essa mentalidade negativa diante da vida citando Eclesiastes 7.10, que é de espantosa atualidade: “Nunca pergunte: por que é que antigamente tudo era melhor? Essa pergunta não é inteligente”. Nada de errado em considerar muito boa a infância de quem por ela já passou, que, sob alguns aspectos, talvez, até possa ter sido melhor que a de muitas crianças e jovens hoje. Porém, não é verdade afirmar que antigamente tudo era melhor. Essa visão pode causar revolta nas novas gerações. Pessoalmente já vi jovens dizendo que, “Se antigamente tudo era melhor mesmo, por que Deus não me fez nascer nesse tempo tão bom descrito pelos meus avós, pais e professores?”; “Eu gostaria de ter vivido naquela época, não hoje”; “Se hoje tudo é pior, não vale a pena viver…”

Seja como for, apesar de todo o avanço de nosso tempo, é inegável que suas vigências não facilitam uma existência in-formada pelos ideais cristãos. Assim, a educação luterana deve propiciar o ensino cristão que permita o exercício da liberdade cristã.

Nosso ensino – tanto nas escolas como nas congregações luteranas – deve ser, para além de qualquer pragmatismo da instrução, voltado para uma sólida formação, que ajude a proteger e a exercer seu núcleo profundo de liberdade, resistindo às vigências que sufocariam seu caráter e originalidade.

Uma formação que permita, por exemplo, ter uma visão crítica que capacite reconhecer a manipulação dos algoritmos da internet que querem induzir a um consumo direcionado, ou mesmo perceber a perversão da pregação anticristã, pois um dos principais objetivos do ensino é fazer pensar.

Nesse sentido, convido toda a Igreja Evangélica Luterana no Brasil a refletir sobre a importância de resgatar um velho e quase esquecido slogan seu: Ao lado de cada igreja uma escola.

II. A educação e o ensino que nos identificam como cristãos luteranos

O ensino, o magistério, sempre foi a “menina dos olhos” da teologia luterana. Afinal, o DNA do ensino luterano tem raízes numa universidade, a de Wittenberg. Assim, perguntamos: o que de fato e especificamente ilumina a estrada da nossa prática educativa, qual é a nossa identidade educativa, o nosso ensino nos púlpitos em nossas congregações, na cátedra do nosso seminário teológico e nas salas de aula de nossas escolas confessionais?  Existe um ponto fundamental na teologia luterana, um eixo central (algo peculiar, específico – um novum) em torno do qual gira todo o ensino luterano?

Entendo que sim. Esse eixo central está descrito no Artigo V da Confissão de Augsburgo, com o título: “Da Justificação”, e no Artigo IIIda Fórmula de Concórdia, com o título: “Da justiça da fé diante de Deus”.Os artigos integram o primeiro e o último documento do Livro de Concórdia (LC), de 1580, obra que reúne todas as confissões oficiais das igrejas luteranas ao redor do mundo.

A leitura atenta destes dois artigos logo faz saltar aos olhos a repetição da palavra justiça. E de imediato também reparamos que não se trata daquela justiça que estamos acostumados a pensar, que retribui a cada um de acordo com o seu delito, que penaliza na mesma medida do erro. Trata-se de uma espécie de justiça radicalmente diferente. Os profetas já a anunciavam no Antigo Testamento, e no Novo Testamento é apresentada de forma magistral, sobretudo nas cartas paulinas. O profeta Jeremias chamava aquele que haveria de vir ao mundo para salvá-lo de “Senhor, justiça nossa” (Jr 23.6). O salmista Davi, no salmo 37.6, diz que “[Ele] fará com que a sua justiça sobressaia como a luz e que o seu direito brilhe como o sol ao meio-dia”. Todo o Novo Testamento revela que a justiça de Deus é o próprio Cristo e se torna nossa mediante a fé. É a livre dádiva, a autodoação última de Deus. O perdão radical e pleno; uma graça sem merecimento; a declaração divina de que somos per-doados (doação perfeita).

Na condição de perdido e condenado, o ser humano é justificado (“ficado justo”); na condição de mortalmente pecador, é declarado santo; totalmente quebrado, é tornado inteiro; absolutamente morto, é ressuscitado. Precisamente isso quer dizer a “fórmula” radical e tão cara para a teologia e ensino luteranos: simul iustus et peccator (simultaneamente justo e pecador). O plano salvífico de Deus para a humanidade não segue a lógica dos nossos pensamentos e caminhos, como lembra o profeta Isaías (55.8): “Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, e os caminhos de vocês não são os meus caminhos”. É o jeito de Deus agir; um agir “louco” e “escandaloso”; uma aparente e singular “doidice divina”, cujos benefícios são recebidos e compreendidos única e exclusivamente através da fé.

E a fé, embora seja “a certeza de coisas que [ainda] se esperam e a convicção de fatos que [ainda] não se veem” (Hb 11.1), não é um salto no escuro, mas a firme confiança na fidelidade das palavras e promessas de Deus. Firme convicção de que o que ele diz é verdadeiro e fiel. Certeza da criatura em seu Criador. Confiança que “vem pelo ouvir, e o ouvir que vem pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). Para que obtenhamos esta fé, é preciso ouvir, ler e refletir sobre o que ele tem a nos dizer. E o que ele tem a nos dizer está à nossa disposição na Bíblia. De outra forma não nos tornaríamos os beneficiários da graça de Cristo. Como escreveu o apóstolo Paulo aos Romanos (5.1): Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo”. Nele, a glória encontra-se numa manjedoura; o poder, na fragilidade; a sabedoria, na tolice. A teologia da cruz nos humilha para nos exaltar. A salvação precisa atravessar o reconhecimento da nossa própria miséria e a disposição de confiar inteiramente na graça divina. À radicalidade do pecado, Cristo nos apresenta a radicalidade do perdão e da graça mediante a fé, não da lei.

Umas das maiores tentações do ser humano é apresentar a sua própria justiça como pagamento para receber a graça e o amor de Deus. O apóstolo Paulo foi um dos homens com mais justiça própria que o mundo já conheceu.Ele confiava na sua capacidade de produzir justiça. E aparentemente tinha motivos para pensar assim. Era da linhagem de Israel, fariseu devoto, exemplar e, do ponto de vista da lei judaica, irrepreensível. Mas, a caminho para Damasco, a sua justiça própria caiu por terra. Então, esvaziado de si mesmo, Paulo escreveu como ninguém que a justiça própria é terrível, pois joga no lixo e anula completamente o sacrifício de Cristo, que é a própria justiça de Deus. E lembra aquilo que sempre esquecemos: somos parciais e complacentes conosco mesmos, mas duros e implacáveis com os outros. É a doença mortal do autoengano que carregamos desde Adão. Deus nos conhece perfeitamente. Ele sabe que nossa justiça não passa de trapos e imundícia (Is 64.6), por isso graciosamente nos oferece o único antídoto para esse mal: o sacrifício do seu Filho Jesus Cristo em nosso lugar.

Recorrentemente o cristianismo sofre da tentação de focar na moralidade; acha que precisa produzir uma nova cultura à margem daquela que o mundo produz. Então acontece algo terrível: o evangelho é colocado a serviço da lei, tornando-se um meio para o moralismo e não a Palavra de Deus que perdoa pecados por causa de Jesus. Foi também a tentação de Lutero. A grande angústia que o acompanhou e assombrou por longos anos era: “Onde e como posso encontrar um Deus misericordioso?”

A lei não restaura nada. Ela só desnuda nossa pequenez e insuficiência diante de Deus. Ali onde a lei não encontra seu fim em Cristo, nasce ou o orgulho ou o desespero – esses dois monstros que precisam ser combatidos diariamente na vida cristã. O orgulho acha que a própria existência é “causa sui” (eu me basto), que não necessita de nada nem de ninguém, nem mesmo percebe que a falta de Deus é uma falta; e o desespero que não vê mais nenhuma saída; que nada nem ninguém, nem mesmo Deus pode ajudar.   

Só o evangelho – que, na sua essência, é o amor incondicional de Cristo – tem o poder de perdoar pecados e tornar vivo um coração orgulhoso, desesperançado e morto para Deus.

Esse euangelion é expresso no magnífico texto que Lutero chamou de “Bíblia em miniatura” – João 3.16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. Somente essa mensagem é capaz de dar saciedade à sede infinita do coração humano que busca a felicidade plena e o amor definitivo.

Com esse “pano de fundo” os cristãos luteranos estruturam sua visão e ação educacionais no mundo, pois justiça de Deus revelada em Cristo (o evangelho) é, em última análise, a própria face do amor divino que fundamenta a fé e a esperança cristãs. Só o amor de Deus em Cristo possibilita uma educação de qualidade, porque apenas os valores eternos nutrem a vida com real sentido.

Não é propriamente o crer, nem o esperar que nos ligam a Deus, mas o amor.Claro que o crer e o esperar são elementos essenciais e incontornáveis, mas apenas enquanto meios através dos quais os benefícios são recebidos e para nos apropriarmos desse amor. O alvo sempre será o amor de Deus e sua graça que alcançamos somente mediante/através da fé. Sem fé somos como morcegos à luz do dia. Incapazes de enxergar o esplendor da presença luminosa de Deus. Não é a falta de luz, mas o excesso que nos impede de ver claramente. A luz do evangelho é tão maravilhosa, tão resplandecente, que precisamos usar os “óculos escuros” da fé para enxergar o amor de Deus e apreender a sua graça. 

Tudo começa com a iniciativa de Deus, que, num transbordamento de amor, cria o mundo e o ama a tal ponto que, ao ver a queda do ser humano, o chama amorosamente e o convida, em Cristo, a responder ao seu amor com fé e em esperança. Tanto a estrutura da fé (Glaubenstruktur) que crê no amor de Deus, quanto a estrutura da esperança (Hoffnungstruktur) que assegura que o mundo está nas mãos dele, estão ancoradas no seu amor, “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Rm 11.36). O amor tem primazia, precisamente como ensina o apóstolo Paulo:“A fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deles é o amor”(1Co 13.13).

Somente por causa do amor perfeito e eterno de Deus é que podemos crer e esperar. E somente a partir do amor dele é que podemos compreender e viver a vida de um jeito novo. Não é à toa que o apóstolo Paulo faça uma magistral introdução ao tema do amor quando inicia dizendo:“E eu passo a mostrar-lhes um caminho ainda mais excelente” (1Co 12.31b). 

Sobre esses pressupostos erguem-se os pilares fundamentais da educação e do ensino luteranos. Pilares que não envelhecem pela rápida passagem das fases de uma vida, como escreveu o sábio em Provérbios 22.6: “Ensine a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele”. Formam (não formatam) homens de verdade, robustos na fé, aptos a resistir às silenciosas vigências cotidianas e a caminhar em frente, vivendo em Cristo, firmados na “palavra que permanece para sempre” (1Pe 1.25).

Veja aqui esse estudo completo.

Acesse aqui a versão impressa.

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Matérias Relacionadas

Autismo: dicas para pais e cuidadores

A Palavra de Deus traz alguns ensinamentos sobre a interação com o próximo, que parecem dirigidas diretamente aos cuidadores de crianças com autismo

Veja também

Autismo: dicas para pais e cuidadores

A Palavra de Deus traz alguns ensinamentos sobre a interação com o próximo, que parecem dirigidas diretamente aos cuidadores de crianças com autismo

O autismo na igreja e a igreja no autismo

Antes de mais nada, conviver com uma pessoa autista é cuidar de uma vida humana, é ser igreja, visto que todo ser humano é importante para o Criador

Dados financeiros da IELB

Confira os caminhos para as principais transações financeiras junto a IELB. Dúvidas e mais informações entre em contato com a Tesouraria pelo número geral da IELB (51) 33322111