“BOM É ESTARMOS AQUI”A FESTA DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

Na Festa da Transfiguração de Nosso Senhor, a Igreja chega a um momento muito especial do Ano da Igreja. Estamos entre dois grandes caminhos: de um lado, as glórias do Natal e da Epifania, quando contemplamos Cristo encarnado e revelado como o Filho de Deus; do outro, o caminho da Quaresma, da Paixão e da Páscoa, quando acompanharemos o mesmo Cristo rumo à cruz e à ressurreição. A Transfiguração está exatamente nesse ponto de transição. Por isso, ela não é apenas mais uma história do Evangelho, mas o clímax da Epifania e a última visão de glória antes do sofrimento.

No alto do monte, Jesus leva consigo Pedro, Tiago e João. Ali, algo extraordinário acontece: Jesus é transfigurado diante deles. Seu rosto brilha como o sol, suas roupas tornam-se brancas como a luz, e Moisés e Elias aparecem falando com ele (Mateus 17.1–3). A Lei e os Profetas estão ali, testemunhando que Jesus é o cumprimento de toda a Escritura. Então, uma nuvem luminosa os envolve, e a voz do Pai é ouvida: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado; escutem o que ele diz!” (Mateus 17.5).

Diante dessa cena, Pedro reage com palavras que muitos de nós também diriam: “Senhor, bom é estarmos aqui.” É o desejo de permanecer naquele momento, de segurar a glória, de transformar a experiência em algo permanente. Mas a Transfiguração não foi dada para substituir o caminho da cruz. Ela foi dada para preparar os discípulos, e também a Igreja, para esse caminho.

A glória que prepara para a cruz

O evangelista Lucas nos conta que Moisés e Elias conversavam com Jesus sobre o “êxodo” que ele estava para cumprir em Jerusalém (Lucas 9.31). Ou seja, a Transfiguração não afasta Jesus do sofrimento; ela aponta diretamente para ele. Antes da rejeição, da dor e da morte, os discípulos precisam saber quem é aquele que sofrerá tudo isso. Aquele que será preso, condenado e crucificado é o mesmo Filho amado do Pai.

Aqui aprendemos algo essencial para a fé cristã: a glória de Cristo não elimina a cruz, mas passa por ela. O próprio Jesus diz que a hora de sua glorificação é a hora da cruz (João 12.23–24). A Transfiguração nos protege de pensar que a cruz é fracasso. Pelo contrário, ela nos mostra que o Cristo que sofre é o Cristo que reina.

Anos depois, o apóstolo Pedro lembra daquele dia no monte. Curiosamente, ele não manda os cristãos buscarem experiências parecidas. Em vez disso, ele aponta para algo ainda mais seguro: a Palavra. “Temos, assim, ainda mais segura a palavra profética” (2 Pedro 1.19). A visão confirmou a Palavra, mas é a Palavra que sustenta a fé. A fé não vive da intensidade de um momento, mas da promessa de Deus que permanece.

Do Sinai ao altar: a glória que se deixa receber

A primeira leitura para a festa da Transfiguração, Êxodo 24.8-18, nos leva a outro monte. Moisés sobe o Sinai, a nuvem cobre o monte e a glória do Senhor aparece como um fogo consumidor. Ali, o sangue da aliança é aspergido sobre o povo. Os representantes de Israel sobem, veem a Deus e comem e bebem diante dele. A glória de Deus está presente, mas também causa temor.

Na Transfiguração, essa glória não desaparece. Ela ganha um rosto. A glória de Deus agora está no corpo de Jesus. Já não é apenas fogo e tremor, mas o Filho amado, que pode ser ouvido, tocado e seguido. Essa mesma glória será vista, de modo ainda mais profundo, quando Jesus derramar seu sangue na cruz e selar a nova aliança.

Por isso, hoje também nós vemos a Deus em Cristo Jesus. Não no topo de um monte, mas no culto cristão. Assim como os anciãos de Israel comeram e beberam diante de Deus, nós comemos e bebemos o verdadeiro corpo e sangue de Cristo no altar. A glória que brilhou no monte se esconde humildemente sob pão e vinho para ser dada aos pecadores.

“Escutem o que ele diz”

Pedro queria construir tendas, mas o Pai direciona os discípulos para outra coisa: ouvir o Filho. A experiência visível do monte não impediu Pedro de negar Jesus mais tarde. Somente a Palavra do Cristo ressuscitado o restauraria. Por isso, a Transfiguração nos ensina a não procurar Deus fora da Palavra e dos Sacramentos.

A visão do monte foi passageira. A Palavra, porém, permanece. Na Palavra e no Sacramento, somos colocados em comunhão com Moisés e Elias, com Pedro, Tiago e João. A Igreja não vive de lembranças espirituais, mas da presença real de Cristo, que continua falando e agindo por meio dos meios que ele mesmo instituiu.

O hino da Transfiguração, Visão de Glória Singular (Hinário Luterano 74), nos lembra disso de forma clara e bela. Ele confessa que a glória de Deus não está apenas em eventos extraordinários, mas também na vida comum da Igreja: na absolvição dos pecados, na pregação da Palavra, no Batismo e na Santa Ceia. É ali que Cristo continua nos transfigurando.

Da Epifania à Quaresma: descendo do monte

A Transfiguração marca a passagem da Epifania para a Quaresma. Depois de vermos quem Jesus é, somos chamados a segui-lo. Desde os primeiros séculos, a Igreja percebeu que essa festa precisava preparar os cristãos para o caminho da cruz. No Oriente, a Transfiguração já era celebrada pelo menos desde o século VI. No Ocidente, sua celebração foi se firmando aos poucos. A tradição luterana, porém, deu um passo muito consciente ao colocar a Transfiguração como o último domingo após a Epifania.

Os reformadores entenderam que, depois de descer do monte, Jesus segue decididamente para Jerusalém. Assim também a Igreja, fortalecida pela visão da glória, entra na Quaresma não sem esperança, mas com confiança. A luz não desaparece; ela passa a iluminar um caminho de arrependimento, sofrimento e fé.

Será que vamos nos reconhecer no céu?

A Transfiguração também responde a uma pergunta muito humana: será que vamos nos reconhecer no céu? No monte, os discípulos veem Moisés e Elias e sabem quem eles são. Isso é ainda mais significativo quando lembramos que Pedro, Tiago e João nunca haviam visto Moisés e Elias antes. Eles conheciam esses homens apenas pelas Escrituras, pelos relatos ouvidos na sinagoga, pela Palavra de Deus transmitida ao longo das gerações. Ainda assim, no monte, eles os reconhecem.

Moisés e Elias não aparecem como figuras anônimas ou sem identidade. Eles são claramente identificáveis, conhecidos e reais. Isso nos ensina que a vida eterna não apaga quem somos, nem dissolve nossa identidade, mas a restaura plenamente em Cristo. Aqueles que pertencem ao Senhor permanecem pessoas reais diante dele.

Deus é Deus de vivos, não de mortos. Aqueles que morreram na fé continuam vivos diante dele. A presença de Moisés e Elias confirma a comunhão dos santos e nos consola com a promessa de que a morte não rompe os laços que Deus criou. A esperança cristã não é de esquecimento, mas de reencontro.

A promessa bíblica é clara: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória” (Filipenses 3.20–21). Na ressurreição, não seremos menos humanos, mas plenamente humanos, restaurados, conhecidos e reconhecidos diante de Deus e uns dos outros.

“Bom é estarmos aqui”

No fim, aprendemos a dizer com Pedro: “Bom é estarmos aqui.” Não porque o sofrimento foi removido, mas porque Cristo está conosco. Não somos nós que subimos o monte por esforço próprio; é Jesus quem nos leva. Ele abre nossos ouvidos para ouvir sua voz, cria fé em nossos corações e caminha conosco pelo vale.

Fortalecidos pela Transfiguração, descemos do monte com Cristo. Seguimos com ele rumo à cruz, certos de que a glória que vimos pela fé não é ilusão passageira, mas a verdade que sustenta nossa vida agora e nossa esperança futura. E aguardamos o dia em que veremos essa glória não mais velada, mas face a face, na eternidade.

Rev. Filipe Schuambach Lopes
Pastor na Comunidade Concórdia Caxias do Sul, RS

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