QUARTA-FEIRA DE CINZAS E QUARESMA

O que são e como essas datas são celebradas na igreja?

Com a Quarta-Feira de Cinzas, inicia a Quaresma, um período de quarenta dias, cuja ênfase é o preparo para a celebração da Páscoa. E no espírito do preparo, a palavra forte é arrependimento. Não que em outras épocas o arrependimento não seja enfatizado. Porém, a Quaresma celebra a trajetória de sofrimento de Cristo, que culminou com a sua morte na cruz, tudo por amor a nós. A Quaresma nos chama a contemplar com mais intensidade o sofrimento do Senhor por nós.

Os domingos não são contados nos quarentas dias, apesar de estarem no período quaresmal. Todos os domingos são uma comemoração semanal da ressurreição do Senhor e são considerados dias festivos. Já a Quaresma tem conotação de recolhimento e não de festividade. Por isso são domingos “na” Quaresma e não “de” Quaresma.

Por que é um período de quarenta dias?

O número quarenta aparece várias vezes na Bíblia, marcando tempos de provação, como os quarenta anos que o povo de Israel viveu no deserto em preparação para entrar na terra prometida. Porém o número quarenta mais emblemático no cenário bíblico é o relato da tentação e jejum que Jesus sofreu no deserto, durante quarenta dias (Mt 4.1-11). Este relato é o maior simbolismo para a Quaresma. O evangelista Mateus registra que “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado” (Mt 4.1). A passagem de Jesus pelo deserto fazia parte do plano de Deus para a nossa salvação. Com o propósito de “salvar o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21), a fome e a tentação no deserto eram a primeira prova. Foi o início da dolorosa caminhada de Jesus rumo à cruz, porque ele amou o mundo.  

Os quarenta dias de Jesus no deserto são a inspiração para nos prepararmos para a Páscoa, igualmente em quarenta dias, com os pés no chão. Ou melhor, nas cinzas e numa quarta-feira depois do Carnaval.

Há várias explicações para a origem da palavra carnaval. A mais aceita é que ela tem origem no latim “carnis levale”, ou seja, retirar a carne. A intenção era que a carne não deveria ser usada no período que antecedia a Páscoa, para acentuar o jejum. O carnaval era uma festa do mundo, onde todo o sentido da carne tinha que ser retirado, para dar entrada a um período de penitência e preparo.

Durante muito tempo, o povo de Deus levou a sério a ideia da abstenção. Tão a sério que não eram permitidos bailes, festas e diversões no período quaresmal. Até casamentos não eram admitidos nesse período. Tal era o preparo para a festa da Páscoa. Talvez esse rigor não refletisse, de fato, o espírito do preparo. A leitura do Antigo Testamento para o dia da Quarta-Feira de Cinzas nos desafia: “Rasguem o coração e não as suas roupas” (Jl 2.13). Não custa, porém, perguntar se a abstenção das proibições não nos levou para o outro extremo, onde o espírito de penitência e preparo é totalmente ignorado.

E por que a Quaresma começa numa quarta-feira?

A data magna da fé cristã é a Páscoa, porque ela celebra a nossa maior confissão: “Creio na ressurreição da carne” (Credo Apostólico). Por decisão do Concílio de Niceia, em 325 d.C., a Páscoa é celebrada sempre no primeiro domingo após a primeira lua cheia, contando a partir do equinócio da primavera do hemisfério norte. No hemisfério sul, conta-se a partir do equinócio de outono, que em 2026 vai acontecer na sexta-feira, 20 de março. É quando termina o verão e inicia o outono. Para completar quarenta dias e, para ser posterior a uma festa do mundo, é que inicia numa quarta-feira.

E o que isso tem a ver com cinzas?

No contexto bíblico, o uso das cinzas representava tristeza e humilhação diante de Deus (Dt 28.24, 2Sm 13.19, Et 4.1,3; Jó 2.8; Is 58.5; Dn 9.3; Jn 3.6; Mt 11.21). A ideia das cinzas era tão forte que não bastava ter os pés sobre elas. As pessoas se cobriam com as cinzas e se assentavam sobre elas. E muitos ainda se cobriam com panos de saco que eram panos grosseiros como demonstração de pesar. As cinzas são símbolo da fragilidade humana e da transitoriedade da vida. Elas são um chamado ao arrependimento e uma lembrança de que a vida aqui no mundo é passageira.

É uma boa prática realizar cultos na Quarta-Feira de Cinzas. E é uma oportunidade de entrar na Quaresma com a lembrança de que a vida aqui é transitória e que caminhamos na certeza da ressurreição para a vida eterna. E para marcar simbolicamente o dia, pode-se aplicar na testa das pessoas que se voluntariam, um sinal da cruz com cinzas. 

Bibliografia

KARNOPP, David. A Dinâmica do Culto Cristão. Origem, prática e simbologia. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

https://formacao.cancaonova.com/liturgia/tempo-liturgico/quaresma/qual-o-sentido-da-quarta-feira-de-cinzas/. Acesso em: 8 dez.2025.

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/por-que-a-pascoa-muda-sempre-de-data-entenda-como-ela-e-definida-e-se-e-feriado-ou-nao/. Acesso em: 8 dez.2025.https://revistagalileu.globo.com/sociedade/curiosidade/noticia/2025/04/por-que-o-domingo-de-pascoa-muda-de-data-todos-os-anos.ghtml. Acesso em: 8 dez.2025.

David Karnopp

Pastor emérito em Vacaria, RS

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