Prof. Vilson Scholz
Seminário e Faculdade Luterana Concórdia
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“A todos os amados de Deus que estão em Roma”: É assim que o apóstolo Paulo se dirige aos primeiros leitores da carta que nos é conhecida como “Carta aos Romanos”. Por ser Escritura inspirada e parte do cânone bíblico do Novo Testamento, ela é dirigida também a nós. Como “nossa” carta, temos a excelente oportunidade de nos debruçarmos sobre ela neste ano de 2026. Afinal, a maior parte dessa carta (começando no capítulo 4) será lida na igreja ao longo de quinze domingos! Uma longa jornada na companhia de Romanos! Se não nos debruçarmos sobre Romanos agora, quando será?
Alguém poderia dizer que a importância da Carta aos Romanos já é sugerida pelo lugar que ocupa no Novo Testamento. Ela aparece como a primeira das cartas de Paulo. No entanto, isto é, em grande parte, acidental, porque as cartas do Novo Testamento não se encontram numa ordem de importância ou na ordem em que foram escritas; elas estão em ordem decrescente de extensão. Isso significa que, mesmo tendo sido escrita depois das Cartas aos Coríntios, Romanos aparece antes delas, por ser mais longa. E, convenhamos, esta carta fica bem no início da coleção de escritos paulinos.
Ainda sobre a importância da carta, basta lembrar a observação de Martinho Lutero de que o cristão deveria ler esse texto diariamente, a ponto de tê-lo gravado na memória. Mais do que carta, Romanos é um tratado, uma carta didática. Nela, aparece mais o Paulo “professor” do que o Paulo “pregador” (1Tm 2.7; 2Tm 1.11).
Um compêndio de doutrina?
A Carta aos Romanos é a melhor e mais completa apresentação daquilo que Paulo chama de “meu evangelho” (Rm 2.16; 16.25), isto é, o evangelho assim como ele o prega. Já houve quem dissesse, a exemplo de Filipe Melanchthon, que Romanos é um “compêndio de doutrina cristã”. No entanto, se analisada à luz de tratados de doutrina escritos posteriormente, Romanos seria um tratado incompleto: não há um tratamento específico de temas como “igreja” e “santa ceia”. Mas existe um bocado sobre batismo, em Romanos 6. A doutrina da salvação é apresentada de forma clara e completa.
A necessidade concreta que levou Paulo a escrever
Estudiosos entendem que essa carta foi escrita por volta do ano 56 d. C., quando Paulo estava no final daquela que é considerada sua terceira viagem missionária. Tudo indica que Paulo estava na cidade de Corinto e que a carta foi levada a Roma por uma senhora cristã chamada Febe (Rm 16.1). Quem escreveu a carta, isto é, colocou o texto no papiro, foi Tércio (Rm 16.22), seguindo aquilo que Paulo foi ditando para ele.
Humanamente falando, o que teria levado Paulo a escrever essa carta? Entende-se que, em geral, existe uma “ocasião” ou um motivo para a escrita das cartas do Novo Testamento. Gálatas é o melhor exemplo: insistir junto aos cristãos da Galácia a que permaneçam na liberdade trazida pelo evangelho. E quanto a Romanos? Teria sido escrita para falar sobre a convivência entre fortes na fé e fracos na fé, um tema que aparece no capítulo 14? Se esta foi uma das razões, não foi a única. No começo da carta, o apóstolo fala do seu desejo de visitar os cristãos de Roma (Rm 1.8-15). Mais para o final (Rm 15.23-24), Paulo informa que estava encerrando suas atividades “nestas regiões” e que, em viagem para a Espanha, queria visitar Roma. Na verdade, ele esperava que os cristãos de Roma o encaminhassem para a Espanha. Nesse “encaminhamento” estava incluído apoio financeiro para um novo projeto missionário. Portanto, a Carta aos Romanos é, em termos práticos, um pedido de auxílio que o missionário Paulo faz à igreja cristã de Roma. Como, naquele momento, Paulo não podia ir a Roma, porque estava “de partida para Jerusalém” (Rm 15.25), ele se antecipou, enviando por meio de carta um resumo do evangelho que pregava.
A estrutura de Romanos
A Carta aos Romanos tem a fama de ser um texto muito bem organizado. Isso é assim especialmente quando se olha o todo da carta. O tema da carta aparece em Rm 1.16-17, especialmente na frase “O justo viverá pela fé”. Como no original grego a forma do texto é “o justo pela fé viverá”, a locução “pela fé” pode ser conectada com o que vem antes (“justo pela fé”) e com o que vem depois (“pela fé viverá”). Assim, na primeira parte (Rm 1.18-4.25), o apóstolo explica como Deus justifica o pecador: não pelas obras, mas pela fé. Ou seja, é-se “justo pela fé”. Na segunda parte (Rm 5.1-8.39), a ênfase recai sobre “viverá”. Aquele que é justo pela fé viverá livre da ira de Deus (Rm 5), livre do pecado (Rm 6), livre da lei (Rm 7), livre da morte (Rm 8). Nos capítulos 9 a 11, o apóstolo aborda o espinhoso problema da rejeição ao evangelho por parte do povo de Israel. Paulo deixa claro que essa rejeição (que é parcial) não anula o propósito de Deus. A partir do capítulo 12, Paulo volta ao tema do “viverá”, detalhando como isso ocorre na prática.
A centralidade de Deus
A Carta aos Romanos tem muito a ensinar sobre Cristo e também o Espírito Santo. Mas a palavra que mais se destaca é “Deus”, que, no original grego (theós), aparece 153 vezes. Logo no início (Rm 1.1), Paulo se refere ao evangelho “de Deus”. Em Romanos 1.16-17, diz que o evangelho é o poder “de Deus”, e que no evangelho se revela a justiça “de Deus”. No bem conhecido texto de Romanos 3.21-31 (que costuma ser lido na comemoração da Reforma), a palavra “Deus” aparece dez vezes! Em contrapartida, “Cristo” é mencionado somente três vezes.
Doxologia
A Carta aos Romanos conclui com uma doxologia, isto é, um louvor a Deus. É o texto de Romanos 16.25-27. Diz assim, na Nova Almeida Atualizada (NAA): “Ora, ao Deus que é poderoso para confirmar vocês segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio desde os tempos eternos, e que, agora, tornou-se manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência da fé, entre todas as nações, a este Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, para sempre. Amém!”
Vários temas da carta reaparecem nesta doxologia final: a) meu evangelho, isto é, a pregação de Jesus Cristo; b) a reviravolta no “agora”, com a revelação de um mistério; c) a importância das Escrituras proféticas; d) a fé como alvo; e) todas as nações como o foco; f) a mediação de Jesus Cristo.
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