Sobre a ofensa na política contemporânea

Artur Charczuk
pastor e psicanalista
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As recentes manifestações do presidente da Argentina em relação ao presidente do Brasil recolocam em debate uma questão que ultrapassa a política externa: qual o lugar da ofensa como instrumento de ação pública?

Trata-se de um fenômeno que não pode ser lido apenas sob a ótica da conjuntura. É necessário interrogá-lo também à luz da psicanálise, enquanto disciplina que se ocupa dos processos inconscientes que estruturam o indivíduo e, por extensão, os vínculos coletivos.

A ofensa pode ser compreendida como um mecanismo de defesa diante da angústia. Quando o indivíduo se vê confrontado com a complexidade da realidade, com a necessidade de lidar com a ambivalência e com a frustração, tende a recorrer a saídas primitivas. Uma das mais elementares é a cisão: o mundo divide-se entre o bom e o mau, entre o correto e o corrupto, entre nós e eles. Ao desqualificar o adversário por meio de termos depreciativos, o sujeito preserva sua integridade narcísica ou a do próprio grupo. Dessa forma, a hostilidade pública entre chefes de Estado vizinhos revela uma dinâmica narcísica, isto é, uma identidade que cria sentido a partir das divergências. A ofensa torna-se, assim, um marcador simbólico das diferenças.

Mas a eficácia política da ofensa não reside apenas em quem a profere, e sim em quem a recebe. Pois a sociedade contemporânea vive sob um regime de excesso de estímulos e de escassez de sentido. A angústia, sem representação simbólica adequada, converte-se em tensão difusa.

Nesse contexto, o discurso ofensivo opera como descarga: nomeia um culpado, organiza o caos e oferece alívio imediato. Configura-se, portanto, um processo de transferência: o líder é investido da expectativa de que poderá resolver, por meio da palavra e do gesto, aquilo que o indivíduo não consegue resolver por si. Dessa forma, a grosseria é percebida como autenticidade, pois encena, no espaço público, afetos que foram recalcados na esfera privada. Contudo, a descarga da agressividade não produz resolução das angústias do sujeito; é apenas um alívio temporário.

Na política contemporânea, a ofensa deixou de ser apenas ataque. Ela tornou-se um contrato simbólico entre líder e seguidor. Pois, quando o líder ofende o adversário, está dizendo à sua base: “eu sou um de vocês”. Trata-se do mecanismo de identificação, ou seja, o sujeito deposita no líder seus próprios impulsos recalcados: raiva, frustração, indignação, entre outros.

Ao ver o líder dizer em público o que ele apenas pensa na esfera privada, o seguidor sente: “ele me representa”. Para quem é a favor do líder, isso produz alívio, porque a angústia, antes difusa, encontrou ação, sentido e nome. Com isso, multidões são arrebanhadas por um método muito simples: xingar o outro.

A ofensa, no mundo político, é estratégia. E é uma estratégia que funciona porque atinge um lugar muito primitivo do ser humano: um lugar que busca certeza, que busca semelhantes, que busca um culpado. O grande risco da política pautada pela ofensa é que ela regride. Retorna a um estágio infantil, no qual não existe adversário. Existe apenas o bom e o mau, um maniqueísmo superficial. Ao mesmo tempo, em tempos de excesso de estímulos, a política da ofensa produz seguidores não pensantes, que apenas descarregam suas pulsões de acordo com o estímulo recebido.

Enfim, leitor, as linhas aqui digitadas têm por objetivo pensarmos juntos sobre as incursões políticas da atualidade. Pensar, e não ir ao sabor das marés de estímulos.

A PALAVRA COMO UM FOGO QUE INFLAMA MULTIDÕES

“Assim também a língua é um pequeno órgão do corpo, e se gaba de grandes coisas. Vejam como uma grande floresta é incendiada por uma pequena fagulha. Também a língua é um fogo; é um mundo de iniquidade. A língua está situada entre os membros do nosso corpo e contamina o corpo todo; ela inflama o curso da vida e é inflamada pelo inferno” (Tg 3.5-6). A passagem de Tiago fala por si só. Em outros termos, alerta-nos para o cuidado com as fagulhas, as palavras e os incêndios que elas provocam.

Como bem sabemos, leitor, somos pecadores. Tudo o que produzimos é permeado pelo pecado, inclusive nossos discursos. Diante disso, o único discurso ao qual devemos dar ouvidos é o que provém da Palavra de Deus. A Palavra de Cristo precisa atravessar as nossas palavras e os nossos dizeres. Porque é Cristo quem traz perdão e salvação para nós, seu povo. Em um mundo que caminha por meio das ofensas, somos chamados a caminhar com o Salvador. Irmãos: não confiem nos discursos estimulantes do mundo. Tenham fé na mensagem de Jesus Cristo. Nela está o conteúdo de que tanto necessitamos: a vida eterna.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA  

BÍBLIA._Nova Almeida Atualizada_. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

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