Pr. Lucas Pinz Graffunder
Novo Hamburgo, RS
Todo dia 31 de outubro, celebramos a Reforma Luterana. Recordamos as 95 teses de Martinho Lutero, a justificação pela fé e a centralidade das Escrituras. Entretanto, há uma controvérsia da Reforma que merece maior atenção: o debate de Lutero com os entusiastas, conhecidos como Schwärmer. Em 1525, no escrito Contra os Profetas Celestiais, Lutero confrontou Andreas Karlstadt e uma espiritualidade que buscava a ação de Deus principalmente nas experiências interiores. No centro da discussão estava uma pergunta decisiva: como Deus vem até nós?
Para Lutero, Deus nos encontra por meio da Palavra pregada e dos sacramentos. É por esses meios que o Espírito Santo cria e sustenta a fé. Os entusiastas invertiam essa ordem: procuravam primeiro uma manifestação interior para então reconhecer a presença de Deus. Falavam muito do Espírito, mas desprezavam os meios pelos quais ele prometeu agir.
Como afirma a Confissão de Augsburgo, artigo V, o Espírito opera pelos meios. Essa discussão permanece atual no Brasil. Em nosso cenário religioso, aquilo que poderíamos chamar de “Igreja Sentimental” parece ter mais visibilidade que a Igreja Sacramental. Não raro, um culto é considerado abençoado porque emocionou, uma oração é julgada poderosa porque provocou arrepios, e a presença divina é medida pela intensidade de uma experiência.
Mas o que acontece quando o cristão não sente nada? Quando enfrenta o luto, a angústia ou a dúvida, Cristo deixa de estar presente? A Reforma responde com o Evangelho: nossa certeza não repousa em sentimentos, mas na promessa de Jesus. A fé não é uma emoção fabricada por nós. É dom gratuito de Deus, criado pelo Espírito Santo, pelo qual recebemos os méritos de Cristo. A fé pode produzir alegria, paz e gratidão, mas essas emoções são frutos, não fundamentos, da salvação.
É por isso que a compreensão sacramental luterana é tão consoladora. No batismo, Deus nos une a Cristo. Na absolvição, ouvimos o perdão. Na santa ceia, recebemos o verdadeiro corpo e sangue do Salvador, dados por nós. A promessa permanece verdadeira mesmo quando o coração está inquieto. O perigo, porém, não está apenas nas outras tradições cristãs. Também nós, luteranos, precisamos examinar nossas prioridades. Às vezes, preocupamo-nos tanto em descobrir maneiras de revelar Cristo ao mundo que negligenciamos os lugares onde ele prometeu entregar-se a nós.
Tecnologias, estratégias e programações podem servir à missão. Lutero soube usar a imprensa de seu tempo. Contudo, nenhuma ferramenta substitui a pregação do Evangelho e a administração dos Sacramentos. Nossa tarefa não é fabricar encontros emocionantes com Deus, mas anunciar fielmente o Cristo crucificado e ressuscitado. Neste 31 de outubro, convém recordar: Lutero não trocou uma religião de obras por uma religião de sentimentos. A Reforma recuperou a salvação pela graça, mediante a fé, por causa de Cristo.
Quem sofre com a culpa precisa do perdão, não de uma emoção mais intensa. Quem teme a morte precisa da promessa da ressurreição, não de uma experiência extraordinária.
A Igreja existe para entregar Cristo, por meio da Palavra e dos sacramentos. Eis a Reforma que ainda precisamos ouvir.


