*Enio Starosky
Pastor
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Em recente entrevista, Sam Altman, CEO da OpenAI, perguntado sobre o que faria com tanto tempo livre a seu dispor, caso uma máquina pudesse realizar suas tarefas corporativas, respondeu que teria “interesse em muitas atividades, pois a IA tende a nos libertar para esse ‘tempo em branco’, o tempo da ociosidade”. Curiosamente, porém, para ele – como para a maioria de nós – esse “tempo em branco” costuma ser algo que tentamos preencher… com ainda mais atividades.
Em uma sociedade que glorifica a produtividade e o desempenho contínuo, falar sobre férias como uma necessidade vital pode soar quase subversivo. No entanto, é justamente essa pausa — esse tempo de descanso e valorização do ócio — que sustenta a saúde física, mental, emocional e espiritual de qualquer pessoa.
No ambiente escolar, por exemplo, as férias são fundamentais para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes. Elas não apenas interrompem o fatigante ciclo de provas e tarefas, mas também oferecem espaço para a convivência familiar, para o ócio criativo — aquele que estimula a imaginação e a autonomia. É nesse tempo não programado que crianças e jovens aprendem a lidar com o silêncio, com a espera, com a liberdade de escolher o que fazer com o próprio tempo.
No mundo do trabalho, as férias são um antídoto contra o esgotamento. Em um cenário de metas agressivas, jornadas estendidas e hiperconectividade, o descanso se torna uma forma de resistência.
O burnout, cada vez mais comum, é um sinal de que ultrapassamos os limites do corpo e da mente. E não se trata apenas de parar por alguns dias: trata-se de desconectar-se de verdade, de permitir-se não ser útil, de recuperar o prazer de existir sem pressa.
Não por acaso, recentemente a FIA Business School reconheceu o Hospital A. C. Camargo, em São Paulo, como um dos “lugares mais incríveis para trabalhar”. O motivo?A oferta de um amplo leque de iniciativas em favor do bem-estar e a criação de espaços de descanso.
O ócio, frequentemente confundido – de forma equivocada – com preguiça, é na verdade um terreno fértil para a criatividade, a introspecção e o bem-estar. É no ócio que surgem ideias novas, que se fortalecem vínculos afetivos e que se redescobre o prazer das pequenas coisas — um café demorado, uma caminhada sem destino, uma conversa com um amigo sem hora para acabar.
O ócio nos devolve a leveza que o cotidiano insiste em roubar.
Além disso, as férias cumprem um papel social importante. Elas promovem equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e reforçam a ideia de que o ser humano não deve ser definido por sua função produtiva. Valorizar as férias é valorizar a vida em sua plenitude — com seus ritmos, pausas e respiros.
Portanto, defender e valorizar as férias e o ócio não é apenas uma questão de bem-estar individual – é um posicionamento político, ético, cultural e espiritual. É afirmar que a vida vale mais do que a produtividade. Que o descanso é sagrado. É mandamento divino.
A igreja sabiamente insistiu no dever de seguir o ritmo da criação recordando a necessidade de descanso. Ainda que continue verdadeira a sentença divina de que “do suor do teu rosto comerás o teu pão”, a igreja lembra dos sérios riscos do excesso de trabalho (überarbeit). Podemos observar em toda parte as graves consequências para a saúde humana decorrentes da falta de descanso e de férias. Em tempos de crise econômica, é frequente a tentação de sacrificar o tempo de convivência familiar para fazer “bicos” e reforçar o orçamento doméstico – uma escolha que, porém, pode trazer grande desgaste nas relações pessoais, além de prejuízos psicológicos, emocionais e espirituais.
Por isso, há que se buscar o equilíbrio entre as exigências humanas e o dever do descanso. Esse equilíbrio está justamente naquela realidade que todos nós, existencialmente, buscamos: no céu, no encontro definitivo e eterno com o nosso Criador. Como descreveu magistralmente um dos grandes pensadores cristãos, Agostinho de Hipona: “Ali descansaremos e veremos. Veremos e amaremos. Amaremos e louvaremos. Eis como será o final sem fim”.
Que saibamos parar. Respirar. Desacelerar. Porque só quem descansa pode seguir em frente com alegria e disposição, leveza e sentido.
*Dr. Enio Starosky
Diretor do Colégio Luterano São Paulo
São Paulo, SP
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