ELBERT DAVI JAGNOW
Pastor assistente espiritual
Coordenador do Projeto Eliézer
www.projetoeliezer.org.br
Falar sobre fases do luto não significa colocar todos no mesmo molde, mas reconhecer padrões que ajudam a entender o que acontece internamente. Elisabeth Kübler-Ross descreveu cinco reações comuns ao luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Não existe ordem fixa, e nem todos passam por todas. Elas são como ondas, que podem ir e voltar.
Na negação, a mente tenta se proteger: “Não pode ser verdade”. É como se o coração precisasse de tempo para aceitar a realidade. Já na raiva podem surgir questionamentos: “Por que comigo?” A barganha aparece quando a pessoa busca respostas, explicação, sentido espiritual, promessas e “acordos”. Também pode vir a depressão, quando o peso da ausência se torna evidente. Por fim, mas nem sempre a última coisa, a aceitação. Aceitar não significa ausência de saudade, mas novo equilíbrio para viver.
Antigamente, o luto era vivido no recolhimento. Atualmente, as redes sociais criam uma pressão por “superação rápida”. Portanto, não devemos esquecer: o luto tem seu tempo e é diferente de pessoa para pessoa.
Embora a descrição das fases abordadas acima seja útil, a psicologia moderna vê o luto como ondas. Não precisamos nos sentir culpados se a tristeza voltar meses depois. Gosto de exemplificar e comparar o “caminho” do luto com o caminho de Emaús: às vezes caminhamos com os olhos marejados sem perceber que Cristo está do nosso lado. Existe um erro comum em achar que “quem tem fé não chora”, ou que chorar é fraqueza espiritual. Lembremos: Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, mesmo sabendo que o ressuscitaria. Entendamos: o choro não é falta de fé; é a expressão do amor e da saudade que permanecem. A esperança da ressurreição não anula a saudade.
Além desses movimentos internos, o luto pode envolver sintomas físicos: cansaço, falta de apetite, insônia. O emocional pode oscilar entre choro repentino, irritabilidade, culpa ou alívio em situações de longa doença. É importante lembrar que cada pessoa pode responder de alguma forma, não há regras lineares.
Como cristãos não negamos o sofrimento, porém, o acolhemos com esperança e respeito. Encontramos conforto nas palavras: “O Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). Quando faltam palavras, Deus compreende as lágrimas. Ele promete consolar os que choram (Is 61.2), e, com a ressurreição de Cristo, nos permite afirmar que a morte não é final absoluto (1Co 15.55).
Além da nossa presença junto à pessoa que enfrenta o luto, podemos estimular práticas simples para amenizar o sofrimento: conversar sobre a pessoa, olhar fotos, escrever cartas, visitar o cemitério, orar, participar da comunhão da igreja. Ritualizar a memória permite organizar internamente a história vivida. O luto precisa de tempo e paciência. Não existe prazo para “superar”, existe caminhada para integrar.
O cristão pode experimentar dor real e confiança real. A fé não exige apagar sentimentos, mas caminhar com Deus enquanto sente. E quando o coração enfraquece, a congregação, os irmãos na fé, sustentam. Gosto de citar o exemplo do feixe de gravetos, onde um sustenta o outro, ainda mais quando um está fragilizado.
Lembremos: O caminho do luto não é um labirinto onde nos perdemos, mas uma trilha que, embora escura, é iluminada pela promessa de que a última palavra não pertence à morte, mas ÀQUELE que venceu a morte. Que em cada fase possamos sentir o sussurro do Consolador: “Certamente estarei convosco todos os dias” (cfe. Mt 28.20).
Leituras sugeridas
Kübler-Ross, Elisabeth – Sobre a Morte e o Morrer – WMF Martins Fontes.
N.T. Wright – Surpreendido pela Esperança – Thomas Nelson Brasil.
Granger E. Westberg – O Caminho do Luto – Editora Sinodal.
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