Luto e cuidado

A esperança cristã diante da perda

Elbert Davi Jagnow
Pastor assistente espiritual
Coordenador do Projeto Eliézer
www.projetoeliezer.org.br

             O ser humano sofre quando perde alguém. Não importa sua fé e nível de espiritualidade. A saudade aperta, a ausência pesa, o coração chora. Como cristãos, reconhecemos e aceitamos essa realidade. Porém, também reconhecemos que a morte é consequência da condição humana marcada pelo pecado e que a separação daqueles que amamos produz dor verdadeira. No entanto, o luto cristão possui uma característica singular: nele, dor e esperança caminham juntas.

           A Bíblia não apresenta a fé como um remédio que elimina lágrimas. Lembremos que Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro (Jo 11.35), revelando que o sofrimento pela perda faz parte da experiência humana. Ao mesmo tempo, naquele mesmo contexto, Jesus declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11.25). Essas palavras constituem o centro da esperança cristã diante da morte.

         Precisamos lembrar e enfatizar que o consolo do cristão não está na capacidade de aceitar a morte, mas na certeza da vitória de Cristo sobre ela. Lutero já referia que os cristãos não são feitos de pedra e, por isso, choram e lamentam a partida de pessoas queridas. Contudo, não se entregam ao desespero, pois sabem que a morte não possui a última palavra. Pela ressurreição de Jesus, ela foi derrotada.

         O apóstolo Paulo lembra que os cristãos não se entristecem “como os demais, que não têm esperança” (1Ts 4.13). Observe que Paulo não reprova a tristeza, porém aponta para uma esperança que supera o enlutado. Os que morrem em Cristo descansam em suas mãos, aguardando o dia da ressurreição. Essa promessa não remove a dor da separação, mas ilumina o sofrimento com um horizonte de eternidade.

        Há, portanto, um ponto muito interessante a ser lembrado: no processo do luto, as memórias tornam-se valiosas. Recordar histórias, rever fotografias, compartilhar lembranças e agradecer pelos momentos vividos ajudam a transformar a dor em gratidão. A saudade não é sinal de falta de fé. Ela é, muitas vezes, a expressão do amor que permanece. Quem ama sente falta.

         A comunidade cristã também desempenha papel fundamental nesse caminho. A igreja é chamada a acolher, ouvir e caminhar ao lado dos que sofrem. Gosto de lembrar que os cristãos são como um feixe de gravetos, onde, na tensão, um feixe sustenta o graveto fragilizado. Nem sempre existem respostas para todas as perguntas, mas sempre existe a presença amorosa daqueles que refletem o cuidado de Deus. Como afirma Paulo: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Co 12.26).

       Muitas perguntas surgem durante o luto. Por quê? Por que agora? Por que dessa forma? A Escritura mostra que Deus não rejeita quem clama. Os salmos estão repletos de lamentos e orações de pessoas feridas. O Senhor permanece próximo dos que têm o coração quebrantado (Sl 34.18).

       O tempo não apaga a memória nem elimina completamente a saudade. Aos poucos, porém, o luto encontra novos contornos. Aprendemos a conviver com a ausência e a guardar com carinho aquilo que recebemos. A esperança cristã aponta para o dia em que se cumprirá plenamente a promessa de Deus: “Ele enxugará dos olhos toda lágrima” (Ap 21.4).

        Até lá, seguimos chorando, lembrando e esperando. Chorando porque amamos. Lembrando porque fomos abençoados. Esperando porque Cristo venceu a morte e nos prometeu vida eterna.

Referência bibliográfica

BONHOEFFER, Dietrich. Vida em Comunhão. São Paulo: Mundo Cristão, 2022 (nova tradução).

Leituras complementares

  • LEWIS, C.S. Uma Dor Observada. São Paulo: Vida, 2006.
  • SENKBEIL, Harold. O Cuidado da Alma (The Care of Souls). Bellingham, Washington (EUA): Lexham Press, 2019.

Acesse aqui a versão impressa.

Comentários

  1. Perdi meu pai há 40 dias. Estou desolada. Em meio a tanta dor e sofrimento Deus fez essa mensagem chegar até mim. Senti o próprio Deus falando comigo. Bendito seja, o Deus Pai, Filho e Espírito Santo que iluminaram o sr. Pastor Elbert, a escrevê-la. Deus o abençoe.

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