Pastor Lucas Pinz Graffunder
Novo Hamburgo, RS
Essa frase virou moda. Aparece em púlpitos, vídeos curtos, conferências e perfis de igreja. Normalmente vem acompanhada de outra: “somos relacionamento, não religião”. Parece profunda. Parece libertadora. Parece uma ruptura necessária com hipocrisias e formalismos. Mas convém olhar com calma.
Porque, muitas vezes, quem diz que não é religioso apenas trocou uma religião por outra.
Toda comunidade humana tem crenças, símbolos, ritos, linguagem própria, autoridades reconhecidas e formas de pertencimento. Isso vale também para grupos que se apresentam como “anti-religião”. Eles têm seus pregadores preferidos, seus jargões, seus ambientes, suas músicas, seus códigos visuais, suas emoções esperadas e até seus dogmas não escritos. A diferença é que chamam isso de autenticidade.
O problema não está em rejeitar farisaísmo, legalismo ou tradição vazia. Isso precisa mesmo ser rejeitado. Nosso Senhor confrontou tudo isso. O problema está em usar esse discurso para desacreditar a igreja histórica, o culto reverente, a doutrina clara e a vida comunitária estável, enquanto se constrói uma nova estrutura de poder com linguagem moderna e aparência leve.
Em muitos casos, “não somos religiosos” significa: Não queremos compromisso duradouro. Não queremos prestação de contas. Não queremos doutrina que nos limite. Não queremos herança recebida. Queremos algo moldado ao gosto do presente. E aqui mora o perigo. Quando a fé deixa de ser recebida como entrega de Deus e passa a ser customizada como produto, Cristo deixa de ser o centro e o consumidor passa a ocupar esse lugar.
A fé cristã nunca foi ausência de forma. Ela sempre teve Palavra pregada, batismo, santa ceia, oração, confissão, catequese, comunhão dos santos. Isso não é “religião morta”. Isso é a maneira concreta pela qual Deus serve pecadores.
O evangelho não nos chama para fugir da religião em si, mas para fugir da falsa religião. A falsa religião confia em obras humanas. A verdadeira fé confia na graça de Cristo.
Então, cuidado ao ouvir: “não somos religiosos”.
Às vezes, por trás da frase, não existe liberdade. Existe marketing. Não existe reforma. Existe ruptura sem raiz. Não existe humildade. Existe desprezo pelo que veio antes. Não existe evangelho puro. Existe embalagem nova para velhos erros.
A pergunta certa não é se alguém é religioso ou não.
A pergunta certa é esta: Cristo está no centro, com sua Palavra e seus dons, ou tudo gira em torno da experiência humana?


