Pr. Lucas Pinz Graffunder
Novo Hamburgo, RS
Já notou que hoje tudo precisa ser intenso, novo, emocionante e capaz de produzir alguma reação imediata? Um vídeo precisa prender a atenção em poucos segundos, uma música precisa provocar alguma sensação, uma mensagem precisa impactar e uma experiência precisa ser memorável. Essa lógica também pode entrar na vida da igreja. Aos poucos, corremos o risco de avaliar um culto não pelo que Deus prometeu entregar nele, mas pelo quanto fomos emocionados. Se houve lágrimas, arrepios ou entusiasmo, então parece que “Deus agiu”. Se o culto foi simples, reverente, centrado na Palavra e nos sacramentos, mas não produziu uma grande experiência emocional, podemos sair com a impressão de que faltou alguma coisa. O problema não está na emoção. A fé cristã não é fria. O problema começa quando aquilo que sentimos passa a determinar aquilo que acreditamos.
É justamente aí que precisamos reaprender a fazer uma pergunta simples: o que Deus já disse? Muitas vezes primeiro sentimos alguma coisa e depois procuramos uma explicação espiritual para aquilo. “Deus colocou isso no meu coração.” “Deus está me dizendo alguma coisa.” “Eu senti que Deus queria isso.” Mas antes de validarmos aquilo que pensamos que Deus está nos dizendo através da nossa experiência, precisamos voltar àquilo que ele efetivamente revelou em sua Palavra. Ser racional, nesse sentido, não é colocar a razão acima da fé. É exercer discernimento, sobriedade e humildade. É reconhecer que nem toda impressão é verdade, nem toda emoção é revelação e nem toda experiência intensa é garantia de que estamos diante da vontade de Deus.
Talvez seja exatamente por isso que ser racional hoje exige um salto de fé. É preciso muita fé para confiar que não precisamos de algo além daquilo que Deus já disse. É preciso fé para não correr atrás de toda novidade espiritual, para não transformar coincidências em sinais e para não exigir uma experiência extraordinária que confirme uma promessa já feita por Deus. Talvez uma das maiores tentações da igreja contemporânea seja considerar pequeno aquilo que Deus decidiu usar para nos servir: água, pão, vinho, uma voz humana anunciando perdão, um pastor pregando a Palavra, uma congregação cantando aquilo que a Igreja canta há gerações. Para olhos acostumados com o espetáculo, isso pode parecer pouco. Mas a fé pergunta: “O que Cristo prometeu aqui?” O batismo não precisa de uma experiência adicional para ser batismo. A absolvição não precisa provocar arrepios para realmente entregar perdão. A santa ceia não depende da intensidade da nossa emoção para ser aquilo que Cristo instituiu.
Também precisamos reaprender a beleza da fidelidade comum. Nossa cultura gosta do extraordinário, do protagonismo, da grande missão e da experiência inesquecível. Mas a vida cristã acontece muitas vezes no ordinário: amar novamente, perdoar novamente, orar novamente, ir ao culto novamente, ouvir novamente, receber novamente, servir à família, trabalhar honestamente, ajudar o próximo e permanecer fiel. Talvez tenhamos confundido fidelidade com monotonia. Paulo escreve: “Examinem todas as coisas, retenham o que é bom” (1Ts 5.21). Examinar exige paciência. Discernir exige humildade. Confiar exige fé. E talvez esse seja um dos grandes saltos de fé de nosso tempo: confiar o suficiente para não exigir de Deus mais do que ele prometeu dar. Cristo, sua Palavra, seu perdão, seu batismo e sua ceia não são pouco. São justamente os dons pelos quais Deus decidiu nos servir.


