Os organizadores da série de leituras bíblicas que usamos na igreja decidiram que a Primeira Carta aos Coríntios seria lida no tempo da Epifania, que começa no dia 6 de janeiro. Assim, 1Coríntios foi dividida em três partes, para os três anos da Série, e os primeiros quatro capítulos são lidos no Ano A, o ano de Mateus. Neste estudo, darei destaque a 1Coríntios 1.1-18, um trecho que é lido em dois domingos (o segundo e o terceiro) do período de Epifania. Sugiro que você comece lendo o texto em sua Bíblia.
Prefácio e saudação (1.1-3)
Dizemos que 1Coríntios foi escrita pelo apóstolo Paulo, o que é verdade. No entanto, o texto menciona também “o irmão Sóstenes” (1Co 1.1). Muitos dizem que essa menção de Sóstenes é uma formalidade, mera gentileza de Paulo. No entanto, Sóstenes pode muito bem, de uma forma ou de outra, ter participado da redação ou escrita da carta.
Essa carta (1Coríntios) foi enviada “à igreja de Deus que está em Corinto” (1.2). A igreja sempre é “de Deus”, e ela pode tanto estar “em” um lugar (como Corinto) ou ser “de” um lugar (como as “igrejas da Galácia”). A igreja de Corinto é “problemática”, mas não deixa de ser igreja, porque é feita de pessoas santificadas, isto é, que foram aproximadas de Deus, que é santo, “em Cristo Jesus”.
Paulo e Sóstenes também lembram a esses cristãos que eles não estão sós ou isolados, na medida em que acrescentam: “com todos os que em todos os lugares invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (1.2). Quando se lê as duas cartas aos coríntios, em especial os capítulos oito e nove de 2Coríntios, percebe-se que os coríntios tinham certa dificuldade para ver que a igreja cristã ultrapassa os limites da congregação local. Paulo se esforça por mostrar que existe uma “família” de igrejas.
Ação de graças (1.4-9)
O apóstolo Paulo normalmente começa as suas cartas com uma oração de agradecimento. Os motivos pelos quais ele agradece a Deus formam uma espécie de índice ou lista de assuntos que serão tratados na carta. De início, Paulo lembra aos coríntios que “a graça de Deus” foi dada a eles “em Cristo Jesus” (1.4). Gostamos de dizer que graça é um favor imerecido da parte de Deus, mas graça pode ser também um poder, uma capacidade (veja 2Co 12.9). Aqui, graça é este “ser enriquecido em Cristo” (1.5). A igreja é rica em conhecimento (um tema caro aos gregos!) e na confirmação do testemunho de Cristo nos cristãos (1.6). Essa confirmação é um tema que o apóstolo repete em 1Coríntios 1.8: Cristo “também os confirmará até o fim”. Esse fim é o Dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Cabe destacar também a referência ao fato de que não faltava à igreja de Corinto “nenhum dom” (1.17). Esse tema dos dons será abordado com detalhes em 1Coríntios 12.
Exortação à unidade (1.10-18)
A igreja de Corinto entrou para a história como uma igreja fragmentada. Paulo afirma que tinha sido informado de que havia “divisões” (1.10) ou “brigas” (1.11) na igreja. Dizemos que havia partidos na igreja de Corinto. Quantos? À luz de 1Coríntios 1.12 (“Eu sou de Paulo”, “Eu sou de Apolo”, “Eu sou de Cefas”, “Eu sou de Cristo”), conclui-se que eram quatro partidos. Será mesmo? Devia ser uma igreja bem grande para comportar quatro partidos! No entanto, tudo indica (e esta é a suposição dos estudiosos) que a igreja de Corinto não era tão numerosa assim. Há quem diga que não passava de 50 membros, porque era possível reunir todos “no mesmo lugar” (1Co 11.20), provavelmente uma casa. Se a igreja era de fato tão pequena, quatro partidos parece um exagero. Além disso, a suposta existência de partidos formados em torno de algumas personalidades (Paulo, Apolo, Cefas) não tem maior importância na continuação da carta. E existe um texto no capítulo quatro da carta que não pode ser esquecido. Em 1Coríntios 4.6, Paulo afirma que aplicou “estas coisas figuradamente” a si mesmo e a Apolo, por causa dos coríntios. Com isso ele parece dizer que aquele “eu sou de Paulo” e “eu sou de Apolo” era apenas um exemplo. O apóstolo cita a si mesmo e Apolo para, com isso, poder ocultar o nome do verdadeiro líder da oposição. Havia divisão em Corinto, mas tudo indica que eram dois grupos: aqueles que estavam com Paulo e aqueles que estavam contra ele. A leitura de 2Coríntios confirma essa exegese.
No final da seção (1.10-18), Paulo chega ao tema da Palavra ou mensagem a respeito da cruz (1.18). Para chegar até lá, ele passa por um caminho que nos parece estranho. Dá graças a Deus por não ter feito muitos batismos em Corinto! Quem faria isso? Paulo o faz, pois isso impossibilitava um “culto à personalidade” do apóstolo. Então ele acrescenta que a missão que lhe havia sido confiada por Cristo não era a de (apenas) batizar, mas de pregar o evangelho. E este evangelho é a palavra da cruz, loucura para os que se perdem, mas poder de Deus para os que estão sendo salvos. E este é o tema de boa parte do que segue, nos capítulos dois a quatro de 1Coríntios.
Questões para reflexão:
1. Será que o “congregacionalismo” ou “paroquialismo” dos cristãos de Corinto ainda é um problema em nossos dias?
2. Graça como “poder”: de que forma os textos de 2Coríntios 8.1 e 2Coríntios 12.9 confirmam isso?
3. Hoje, se não temos “partidos” numa congregação local, temos pelo menos uma cristandade fragmentada em inúmeras denominações. Ainda confessamos a unidade da igreja (“e numa única santa igreja cristã e apostólica”), mas também reconhecemos que nos falta “concórdia”, especialmente no âmbito da doutrina. Isso faz sentido para você?
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