1º ELAEL reúne cerca de 600 educadores de quatro países

Encontro Latino-Americano de Escolas Luteranas reuniu representantes de escolas do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile em Restinga Sêca, RS

A emoção tomou conta do 1º Encontro Latino-Americano de Escolas Luteranas (ELAEL), realizado de 22 a 25 de julho de 2026, no Recanto Maestro, em Restinga Sêca, RS. Os participantes lembraram Nelci Naor Senger, diretor-executivo da Associação Nacional de Escolas Luteranas (ANEL), falecido em 31 de maio de 2026. Foi dele o sonho de reunir, pela primeira vez, escolas luteranas da América Latina um só encontro – um projeto que ele ajudou a conceber.

A lembrança também acompanhou o lançamento do livro “A Pedagogia Luterana na Sala de Aula”, dedicado à memória de Nelci Senger (1963-2026). Em sua fala, o coordenador de Consultoria Pedagógica da Arco Educação e do Sistema Positivo de Ensino, prof. Flavio Souza, ressaltou que a obra nasceu da visão e do entusiasmo dele, que defendia a partilha de boas práticas pedagógicas como forma de fortalecer a missão comum das escolas luteranas.

QUATRO PAÍSES, UM SÓ OBJETIVO

O ELAEL é uma ampliação dos encontros nacionais que a ANEL já promovia no Brasil. Ao todo, 554 pessoas participaram da primeira edição, sendo 352 brasileiros, 193 argentinos, quatro uruguaios e quatro chilenos, representando 39 escolas luteranas dos quatro países.

Um dos destaques da programação foi a apresentação da história da pedagogia luterana em cada um dos quatro países representados.

O diretor do Colégio Luterano de São Paulo, SP e conselheiro da ANEL, Enio Starosky, recuperou a história das escolas luteranas no Brasil desde a chegada dos missionários norte-americanos Mahler e Brothers, em 1900 – quando a fundação de escolas ao lado das congregações, em alguns casos até antes delas, já era prioridade. Para Starosky, ensinar e pregar são “duas faces da mesma moeda”, e ele deixou um desafio às congregações brasileiras: manter o compromisso de criar e sustentar escolas, apesar das dificuldades econômicas.

Pablo Lavia, que supervisiona as dez escolas luteranas da Argentina – todas presentes no encontro –, abordou sobre a história da educação no país e como se estrutura o seu sistema de ensino. Na Argentina, a responsabilidade pela educação é compartilhada entre o Estado, as famílias e as instituições. Dessa forma, a Igreja Luterana Argentina (IELA) e o Estado compartilham a responsabilidade pela educação luterana. Por fim, Pablo celebrou a proximidade com as escolas brasileiras: “Para nós é uma alegria imensa estar aqui. É um encontro de muita bênção para nossas escolas, nossos docentes e diretores, que estão interagindo bastante com as escolas do Brasil. Estamos cantando juntos, pensando juntos a educação na América Latina, plantando uma árvore, escrevendo uma declaração conjunta para nossas escolas, olhando para nossa história, mas também para o futuro, com muito otimismo”.

O diretor do Colégio São Paulo, em Montevidéu – a única escola luterana do Uruguai –, Mauro Roll, falou sobre os desafios de sustentabilidade financeira da instituição, o trabalho da capelania e práticas pedagógicas voltadas à educação infantil. Para ele, o encontro foi “uma injeção de ânimo” em um contexto de isolamento.

O capelão do Colégio Luterano Concórdia, em Valparaíso, Chile, Pablo González, representou uma pequena delegação de quatro pessoas e destacou a importância de compartilhar experiências e desafios comuns entre as igrejas latino-americanas, unidas pela fé em Cristo. Na exposição da pedagogia luterana de seu país, pontuou sobre identidade e missão, relacionando as escolas a campos missionários e centros de misericórdia que atuam sob três pilares: misericórdia divina, testemunho/semeadura do Evangelho e vida em comunidade. “Não educamos para um mundo melhor: ensinamos e vivemos o Evangelho da salvação”, resumiu.

PALESTRAS E OFICINAS

A programação reuniu cinco palestrantes ao longo dos quatro dias, além de oficinas voltadas à gestão, à pedagogia e à teologia.

O pastor e professor do Seminário Concórdia, Samuel Fuhrmann, abordou os fundamentos pedagógicos e teológicos da escola confessional luterana. A partir de escritos de Lutero, apresentou a doutrina dos dois reinos – a ideia de que Deus preserva o mundo tanto pela ação secular dos governos e das vocações quanto pela ação espiritual da pregação do Evangelho – e alertou para os riscos de se confundir as duas esferas.

A especialista em gestão institucional, tecnologia e experiência educacional, Stephie Sochel, discutiu a transformação digital nas escolas, defendendo que a escolha de tecnologias educacionais tenha como propósito o vínculo humano, além do pedagógico.

O professor do Seminário Concórdia de Buenos Aires, Antonio Schimpf, discutiu a crise de identidade na América Latina e a sexualidade sob uma perspectiva bíblica confessional, defendendo que a identidade cristã não é algo a ser autoproduzido, mas um dom de Deus em Cristo. A palestra terminou com uma referência ao poema “Quem sou eu?”, de Dietrich Bonhoeffer.

A pedagoga Priscila Boy tratou sobre a educação especial e inclusiva, comparando legislações e políticas públicas da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, com destaque para o Brasil. Para ela, independentemente do país, todas as pessoas com deficiência precisam de estratégias diferenciadas de aprendizagem – e as escolas devem ir além da legislação, com planos de ensino, adaptações pedagógicas e acolhimento às famílias.

O professor e psicanalista Geraldo Peçanha apresentou o trabalho pedagógico como prática da felicidade, destacando o papel do educador como agente de transformação não apenas da sala de aula, mas de toda a comunidade escolar, a partir da compaixão e da misericórdia.

“A PEDAGOGIA LUTERANA NA SALA DE AULA”

O encontro marcou também o lançamento do livro “A Pedagogia Luterana na Sala de Aula”, coletânea com oito artigos escritos por docentes de instituições luteranas, com o propósito de aproximar a tradição da Reforma Luterana do cotidiano escolar das unidades ligadas à ANEL.

Flávio Souza, da Arco Educação/Sistema Positivo – parceira responsável pela publicação –, apresentou a obra como a concretização de um sonho antigo, também compartilhado com Nelci Senger: entregar às escolas um material que ajudasse a pedagogia luterana a se tornar prática concreta no dia a dia escolar, da sala de aula à gestão.

Após o lançamento, cada autor presente foi convidado a autografar um exemplar para entregar a Maria Helena Senger, viúva e sócia de Nelci na empresa Sete, responsável pela direção-executiva da ANEL.

ESCOLAS HOMENAGEADAS

Durante a programação, a ANEL também prestou homenagem a três escolas aniversariantes e deu as boas-vindas à mais nova associada da rede: Colégio Colônia Holandesa, de Arapoti, PR. As aniversariantes foram: o Colégio Luterano Rui Barbosa, de Imbituva, PR (130 anos), o Colégio Luterano Rui Barbosa, de Marechal Cândido Rondon, PR (70 anos), e a Escola Martinho Lutero, de Cachoeirinha, RS (40 anos).

PLANTIO E MANIFESTO

O ponto alto do encerramento foi a assinatura de um manifesto conjunto pelas escolas participantes.

Para marcar o 1º ELAEL, representantes dos quatro países participaram do plantio de uma oliveira nas instalações do hotel, identificada por uma placa que registra a data para a posteridade e o versículo-chave do evento: “Ensine a criança no caminho em que deve andar” (Pv 22.6), em português e espanhol.

A espécie escolhida é característica da região: Restinga Sêca integra a Rota das Oliveiras, roteiro de olivoturismo instituído por lei estadual em 2019 que reúne municípios da metade sul do Rio Grande do Sul dedicados ao cultivo de oliveiras. O estado é hoje o maior produtor de azeite de oliva extravirgem do país, responsável por cerca de 75% da produção nacional, com mais de 6 mil hectares cultivados em mais de 110 municípios.

Assim, o sonho que Nelci Senger ajudou a plantar germinou no Recanto Maestro – e a expectativa agora é de que a próxima edição do Encontro Latino-Americano de Escolas Luteranas aconteça na Argentina.

Para o vice-presidente de Ensino da IELB e conselheiro da ANEL, pastor Joel Müller, a tônica do encontro foi “manter a confessionalidade cristã luterana” nas escolas participantes. “Este é um evento histórico para a pedagogia luterana na América Latina e também um evento histórico para a ANEL, no qual reunimos mais de 500 educadores, do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Chile, para falarmos de algo que nos é tão caro, tão valioso, que é ensinar as nossas crianças no caminho em que elas devem andar”, avaliou.

O presidente do Comitê de Educação na Argentina, pastor Gerardo Meyer, destacou o valor de reunir escolas de diferentes países em torno de um mesmo propósito. “Temos a bênção de poder compartilhar este encontro com as escolas de outros países. É uma bênção poder encontrar, em outros países, pessoas com o mesmo objetivo, que é ensinar a palavra de Deus e conduzir as crianças a Jesus”, resumiu.

Ao encerrar o 1º ELAEL, o presidente da ANEL, pastor Marlus Seling, agradeceu a cada professor, gestor, coordenador e mantenedor presente: “Certamente levaremos para as nossas casas muita bagagem de aprendizado. […] Uma gratidão muito especial a Deus, à Igreja Evangélica Luterana do Brasil, à Faculdade Luterana Concórdia pela emissão de certificados, à Editora Concórdia e à Arco Educação por proporcionar que esse evento acontecesse”.

Veja mais fotos em https://ielb.info/fotosELAEL.

FOTOS: Luana Lemke

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