A liberdade religiosa para viver por inteiro

Ela limita o poder, preserva comunidades vivas, fortalece famílias, permite obras de misericórdia, sustenta escolas confessionais, protege a pregação e mantém aberta a circulação de ideias, valores e convicções na sociedade

JEAN REGINA
@jeanregina

THIAGO VIEIRA
@th_vieira

         Quando falamos em liberdade religiosa, muita gente pensa em Constituição, tribunais ou grandes debates públicos. Tudo isso importa. Mas, antes de chegar às leis, ela começa em cenas simples: uma família que ora, a criança que aprende o Catecismo, a congregação reunida em torno de Palavra e sacramentos, o jovem que não esconde sua fé na universidade; enfim, o cristão que tenta viver a segunda-feira com a consciência formada no culto de domingo.

        A liberdade religiosa não é um detalhe jurídico, mas uma garantia essencial para que a pessoa possa viver de modo inteiro. A fé cristã não é uma gaveta da vida, aberta apenas em momentos religiosos. Ela ilumina família, trabalho, sofrimento, perdão, esperança e próximo. O cristão não crê apenas “por dentro”. Ele confessa, ora, educa, serve, trabalha e participa da vida comum como alguém que pertence a Cristo.

         Para nós, isso conversa com a doutrina da vocação: os lugares concretos onde Deus nos chama a servir. Deus não nos chama apenas para dentro do templo, embora seja ali que recebemos seus dons. Ele também nos coloca na casa, na profissão, na escola, na congregação, na visita a quem sofre, na cidade e na vida pública. A fé não nos tira do mundo. Ela nos devolve ao mundo com amor, responsabilidade e esperança.

        Mas há uma segunda dimensão. A liberdade religiosa também protege a sociedade contra a tentação totalitária. Uma sociedade livre precisa lembrar que nem tudo pertence ao Estado. A consciência não é repartição pública. A família não é propriedade do governo. A igreja não é departamento oficial. A educação moral e espiritual dos filhos não pode ser reduzida a uma cartilha estatal. Quando o Estado tenta governar a alma, deixa de servir e começa a imitar um deus.

       E é aqui que a liberdade religiosa mostra sua beleza pública. Ela limita o poder, preserva comunidades vivas, fortalece famílias, permite obras de misericórdia, sustenta escolas confessionais, protege a pregação e mantém aberta a circulação de ideias, valores e convicções na sociedade. Onde há liberdade religiosa, a fé também pode oferecer à vida comum palavras que o Estado não sabe produzir sozinho: verdade, culpa, perdão, vocação, limite e esperança.

       Em período eleitoral, isso se torna ainda mais necessário. A igreja não precisa se calar sobre valores, verdade, vida, justiça e bem comum. Também não deve tratar a vida pública como território estranho à fé. Cristãos podem votar, candidatar-se, ser eleitos e exercer funções públicas como vocação de serviço ao próximo. A política pode ser espaço legítimo de responsabilidade cristã.

       Mas é preciso distinguir bem as coisas. A igreja forma consciências, anuncia a Palavra e serve em amor; não existe para fabricar voto, ungir candidatos ou reduzir o culto a campanha. O cristão participa da vida pública sem entregar sua esperança última a uma urna, a um partido ou a um líder. César tem seu lugar – e esse lugar também pode ser ocupado por cristãos vocacionados ao serviço público. Mas César não é Deus.

       Defender a liberdade religiosa é defender a possibilidade de a igreja ser igreja, de a família transmitir a fé, de o culto formar a consciência e de a sociedade recordar que nenhum poder é absoluto. Ela começa no culto, mas não termina na porta da igreja. Ao proteger essa vida inteira, também protege a sociedade contra a tentação de transformar o poder em ídolo.

Acesse aqui a versão impressa.

Comentários

Deixe seu comentário:

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


Matérias Relacionadas

40 anos de história, cuidado e transformação

Inauguração da capela, do Centro de Acolhimento Martinho Lutero, de Santo Ângelo, RS, será no dia 29 de novembro

Veja também

40 anos de história, cuidado e transformação

Inauguração da capela, do Centro de Acolhimento Martinho Lutero, de Santo Ângelo, RS, será no dia 29 de novembro

“NÃO MATARÁS”

Deus nos chama a cuidar da vida. Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: “Não mate. Quem matar será julgado” (Mt 5.21)

Servas de Guaíba, RS, comemoram 60 anos

No dia 25 de agosto, o departamento de servas...