O cristão e a política

É responsabilidade do cristão, não aceitar simplesmente aquilo que ouve e vê, visto que sua presença no mundo lhe oferece a oportunidade de dar um tempero melhor ao cardápio servido às pessoas

Paulo Moisés Nerbas
Pastor e professor emérito
Campo Bom, RS

[email protected]

              Quando criança, ouvia meu avô dizer: “Política não se discute”. Hoje, agora idoso, continuo ouvindo que “política não se discute”. Algo dito que atravessa os tempos e permanece sendo lembrado, deve ter algum motivo para não ter sido descartado na lixeira do tempo. Este artigo encara o desafio de tentar descobrir tal motivo e de se posicionar frente a ele a partir de uma abordagem que pretende ser pastoral.

          “Política não se discute”, por quê? Já ouvi diferentes respostas à pergunta. “Não se discute porque cada um tem seu partido e nunca haverá acordo”; “Não se discute porque poderá acabar em briga”; “Não se discute porque poderá separar pessoas dentro de uma família”; “Não se discute porque mexe com os nervos das pessoas e elas não controlam suas reações”. São apenas algumas das respostas ouvidas. Em todas elas fica nítida a “verdade” que prevalece: não convém discutir política.

          É responsabilidade do cristão, todavia, não aceitar simplesmente aquilo que ouve e vê, visto que sua presença no mundo lhe oferece a oportunidade de dar um tempero melhor ao cardápio servido às pessoas que não percebem que Deus tem algo a dizer não somente para o relacionamento com ele, mas também para com o próximo. Eis por que, no contexto social e político, somos desafiados a questionar a “verdade” que parece inquestionável.

          O que é “política”? Saulo de Tarso Cerqueira Baptista a define assim: “Política era, originalmente, a designação dos assuntos relativos à pólis, termo com o qual os gregos denominavam suas cidades-estados. A pólis era uma comunidade autônoma e soberana, na qual o governo estava definido institucionalmente através de magistraturas, conselhos e assembleias de cidadãos”(Dicionário Brasileiro de Teologia. BORTOLLETO FILHO, Fernando; SOUZA, José Carlos de; KILPP, Nelson (Eds.) São Paulo: ASTE, 2008, p. 794). O que interessava à vida da pólis era designado por “política”. Originalmente, portanto, política é do interesse e da atenção do habitante da pólis. Trazendo isso aos nossos dias, significa que pode e deve ser algo do nosso interesse. O cristão não vive dentro de uma redoma e nem lhe é possível “sair do mundo” (1Co 5.10). A palavra de Deus instrui sobre a presença do cristão no mundo e mostra que o viver no aqui e agora não pode ser relegado a segundo plano.

          O princípio do “política não se discute” remete a pensar que é melhor guardar para si o que se pensa, pois isso, entre outras coisas, evitará atritos pessoais e até separações. A propósito, um pastor me revelou que, em época de eleições, há pessoas na sua paróquia que evitam até se cumprimentar devido aos ânimos acirrados de alguns frente às eleições.

          Palavras às vezes ficam presas a um sentido apenas. Assim acontece com o verbo “discutir”. Geralmente dá a impressão de algo negativo, com resultados desagradáveis e lamentáveis. Mas não se resume a isso. Descreve um processo dialogal em que há teses e antíteses na busca de sínteses que favoreçam o bem comum. E o bem comum interessa ou não ao cristão? Evidentemente que sim!

          O que vale, então, não é o “não discutir política”, porém o discutir no modo certo. É coisa que desafia, contudo, não impossível. Pode ser alcançada quando acontece dentro do contexto da distinção entre polaridade e dualidade, distinção essa fundamental para o bom relacionamento entre pessoas. Polaridade se move à base do “ou… ou”. Não serve à boa discussão, pois facilmente acaba no “Ou você pensa comigo, ou você está contra mim”. Provoca um olhar negativo sobre a outra pessoa, coisa que contraria totalmente o que Deus espera de nós em relação ao próximo, pois até mesmo um inimigo com fome e sede deve ser acudido por nós (Rm 12.20).

          Dualidade acontece movida pelo “e… e”. Não coloca duas coisas como adversárias, contudo como possibilidades. Um exemplo nítido de dualidade se vê na distinção entre lei e evangelho. A pregação cristã não é polarizada, do tipo “Ou se anuncia lei, ou evangelho”, porém acontece no escopo da dualidade, pois Deus quer fazer sua obra nos corações humanos tanto por meio da lei como do evangelho. Por isso a pregação cristã segue o “e… e”.  

          Dualidade se aplica à discussão sobre política ou qualquer outro tema. Nas palavras de Jesus, cabe aos seus seguidores serem sal e luz no mundo (Mt 5.13,14). A ação do sal e da luz principia no modo pelo qual vemos nosso semelhante. Tal qual nós mesmos, quem pensa diferente é visto por Deus como tendo uma dupla dignidade. Ao mesmo tempo é criação divina, e por ela o Salvador Jesus também morreu, mesmo que seja um ateu. Não podemos olhar para alguém de modo diferente ao olhar de Deus. Não é um “ou… ou”, porém um “e… e”.

          O cristão é diferenciado, pois conhece a maneira correta de ver o próximo, e, o mais importante, mesmo com as fraquezas e dificuldades provocadas pelo seu pecado e também os do próximo, que podem até dificultar a discussão, está em condições de agir diferentemente, visto que o poder do evangelho de Jesus o ampara, o fortalece e o capacita à ação, assim como o convida à busca do perdão por atitudes inconvenientes ou ofensivas a alguém. Há que crer no poder do evangelho chegado a nós, felizmente, de forma tão abundante. Por isso o que está escrito neste parágrafo não é utopia, mas convite ao desfrute de algo precioso que Deus nos oferece para nos capacitar à prática da dualidade e não da polaridade no contexto político, ou seja, na busca do bem comum de todos aqueles que, juntamente conosco, vivem na sua pólis.

Acesse aqui a versão impressa.

Comentários

Deixe seu comentário:

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


Matérias Relacionadas

A liberdade religiosa para viver por inteiro

Ela limita o poder, preserva comunidades vivas, fortalece famílias, permite obras de misericórdia, sustenta escolas confessionais, protege a pregação e mantém aberta a circulação de ideias, valores e convicções na sociedade

Veja também

A liberdade religiosa para viver por inteiro

Ela limita o poder, preserva comunidades vivas, fortalece famílias, permite obras de misericórdia, sustenta escolas confessionais, protege a pregação e mantém aberta a circulação de ideias, valores e convicções na sociedade

40 anos de história, cuidado e transformação

Inauguração da capela, do Centro de Acolhimento Martinho Lutero, de Santo Ângelo, RS, será no dia 29 de novembro

“NÃO MATARÁS”

Deus nos chama a cuidar da vida. Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: “Não mate. Quem matar será julgado” (Mt 5.21)