Desamparo e felicidade de pico na contemporaneidade: um ensaio

Artur Charczuk
pastor e psicanalista
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Observa-se, nas últimas duas décadas, uma transformação relevante no ideal de vida boa. O termo felicidade, que na tradição filosófica clássica remetia à eudaimonia, isto é, a uma vida bem conduzida, com coerência, virtude e continuidade, passa a ser compreendido, no discurso ordinário e no discurso mercadológico, como sinônimo de intensidade, de excepcionalidade e de alta performance afetiva. Essa alteração não é meramente semântica. Ela reorganiza expectativas, modos de sofrimento e critérios de avaliação da própria existência. Existe na atualidade, uma equivalência indevida entre felicidade e felicidade de pico, e que tal equivalência opera como tentativa de obliteração do desamparo enquanto condição estrutural do humano. A felicidade de pico apresenta-se como acontecimento. Exemplos paradigmáticos incluem a paixão arrebatadora, a conquista profissional de grande visibilidade, a viagem idealizada como transformadora e o reconhecimento público. É, por natureza, descontínua e dependente de novidade. Requer testemunho e validação externa para completar seu circuito de sentido, o que a torna particularmente compatível com regimes de visibilidade mediados por plataformas digitais.

A felicidade de base, em contraste, define-se por baixa ativação, longa duração e mínima exigência de espetacularização. Não se constitui como evento, mas como condição. Manifesta-se na estabilidade dos vínculos, na previsibilidade de uma rotina dotada de sentido, na percepção de pequenas melhorias contínuas e segurança emocional. Trata-se de uma felicidade pouco fotogênica, pois não produz ruptura, mas sustentação. Sua temporalidade é a da continuidade, não a do ápice. Quando a felicidade é medida exclusivamente por picos, a vida comum, que corresponde à maior parte do tempo cronológico vivido, passa a ser interpretada como déficit, tédio, estagnação ou fracasso pessoal.

O DESAMPARO COMO ESTRUTURA, NÃO COMO ACIDENTE

A categoria de desamparo foi formulada por Sigmund Freud para designar a condição originária do lactente humano de dependência absoluta de um outro para a preservação da vida. Diferentemente de outras espécies, o humano nasce indefeso, incapaz de realizar a ação específica que poria fim à tensão interna. Necessita ser interpretado, alimentado e amparado. Essa condição inicial não é superada pelo amadurecimento. Ela permanece como estrutura psíquica e se reatualiza em momentos cruciais da existência: na experiência amorosa, em que se depende do desejo do outro; na experiência da doença e do envelhecimento, em que se constata a não soberania sobre o corpo; na experiência da perda e do luto; na consciência da finitude e outros. Compreender o desamparo como estrutura implica reconhecer que a vulnerabilidade não é falha a ser corrigida, mas uma condição humana a ser vivenciada. A experiência do humano é transpassada por um traço constante de incompletude e desamparo. A atualidade hiperconectada opera uma inversão desse pressuposto. O desamparo deixa de ser reconhecido como condição compartilhada e passa a ser estigmatizado como insuficiência individual. Em seu lugar, institui-se um imperativo de felicidade. Tal ditame possui características específicas. Primeiro, é moralizado: ser feliz torna-se dever. Segundo, é individualizado: a responsabilidade por sua realização recai integralmente sobre o sujeito, independentemente de suas condições materiais e relacionais. Terceiro, é mercadologizado: a felicidade passa a ser apresentada como produto acessível por meio de consumo de técnicas, objetos, experiências e estilos de vida. Nesse contexto, a felicidade prescrita não é qualquer felicidade. É necessariamente a felicidade de pico. Isso porque apenas o pico é capaz de oferecer evidência visível de superação do desamparo. A felicidade de base, por ser discreta e contínua, não serve como prova de desempenho. A felicidade de pico, por ser intensa e narrável, cumpre essa função probatória. Nota-se, portanto, a emergência de uma economia psíquica da intensidade, na qual o sujeito deve colecionar ápices para atestar seu valor.

A FELICIDADE DE PICO COMO DISPOSITIVO DE RECOBRIMENTO DO DESAMPARO

A busca incessante por intensidade cumpre, nessa economia, função anestésica. A sucessão de estímulos, projetos, relacionamentos e deslocamentos visa impedir o contato com o vazio estrutural. O sujeito mantém-se em estado de ocupação permanente para não se deparar com o silêncio que revelaria sua vulnerabilidade constitutiva. Por consequência, observa-se o aumento de queixas formuladas nos seguintes termos: “tenho tudo para ser feliz, mas não me sinto feliz”, “minha vida é boa, mas parece sem graça”, “perdi o ânimo”. O sujeito avalia sua vida de base com critérios de pico e conclui, erroneamente, que há algo de errado consigo. O efeito disso é duplo: o ser humano desvaloriza o que é seguro e valoriza demais o que é emocionante. Namoros e casamentos estáveis acabam porque esfriaram; planos bons são abandonados porque não dão resultados imediatos; e a tranquilidade passa a parecer algo chato e parado. Do ponto de vista ético, impõe-se a necessidade de reabilitar a felicidade de base como ideal legítimo de vida boa. Isso implica dissociar felicidade de intensidade e reconhecer que uma vida feliz pode comportar longos períodos de baixa excitação sem que isso configure fracasso.

A ideia não é rejeitar a felicidade, mas mudar a forma como olhamos para ela. Uma felicidade que aceita as nossas fragilidades não tenta fingir que somos fortes o tempo todo; ela simplesmente acontece mesmo quando estamos vulneráveis. Essa felicidade não enuncia “eu superei o desamparo”. Enuncia “sou desamparado, como todo humano, estou sujeito à perda, à falha e à finitude, e ainda assim há, hoje, algo que merece ser feito e alguém que merece ser amado”. Trata-se de uma felicidade que comporta contradição: é possível estar desamparado e, simultaneamente, amparado por um vínculo; é possível estar triste e, simultaneamente, em paz.

A felicidade de pico, quando alçada a único modelo de vida boa, converte-se em fator de sofrimento, por prometer tapar aquilo que, por estrutura, não se tapa. A felicidade de base, ao reconhecer e habitar o desamparo como condição, permite uma existência menos exaurida, menos culpabilizada e mais sustentável. É ali, no ordinário que se sustenta, que a felicidade finalmente deixa de ser um trabalho em tempo integral e volta a ser o que sempre foi: um instante breve, possível, e suficiente. A contemporaneidade pede o resgate de uma felicidade possível: aquela que nos reconhece desamparados e felizes, algo tão humano.

Alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se.

             Alegria que não depende de circunstâncias, mas que vem de Deus. Paulo não fala de um simples estado de contentamento, mas a felicidade genuína é estar em contínua confiança no Senhor, isto é, em Jesus Cristo. Tanto que ele repete em Filipenses 4.4: “Alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se”. Jesus é a fonte segura para todo aquele que confessa a fé nele.

                   Além disso, a felicidade que vem de Jesus não é simplesmente afirmar que está tudo bem. A felicidade que Jesus oferece é aquela que aponta para um Deus que está com o ser humano em todos os momentos. A presença de Cristo Jesus é a suprema felicidade, ou seja, ele está no controle de tudo. Nela, a pessoa encontra amor, cuidado e perdão. Sim, em tempos bons ou ruins, Jesus está contigo, irmão! Quanta felicidade! Quanta alegria! “Alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se”.

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