Mudanças: o dilema entre permanecer ou seguir

As circunstâncias mudam, nós mudamos, a vida muda. Porém Cristo permanece e sempre nos sustenta em cada passo que dermos

Gerusa  Mass
Psicóloga

Mudar muitas vezes não é fácil. Mesmo reconhecendo que determinadas mudanças são necessárias, parece haver dentro de nós uma tendência a manter as coisas do mesmo jeito. Esse lugar conhecido é popularmente denominado de “zona de conforto”. Costumo comentar com meus pacientes que a zona de conforto nem sempre é confortável, mas sim conhecida, proporcionando assim uma sensação de segurança. O conforto reside no fato de ali as coisas serem previsíveis. Geralmente sabemos agir, o que esperar e de que forma viver naquele lugar ou naquela relação.

De acordo com a Gestalt-terapia, abordagem teórica dentro do campo da Psicologia, o ser humano está constantemente buscando formas de se ajustar às mais diversas situações com as quais se depara na vida. Assim, cria rotinas, vínculos, maneiras de pensar e de agir que o ajudam a lidar com a realidade. Esse movimento de ajustar-se é, muitas vezes, importante e até mesmo necessário em determinados momentos e períodos da vida, porém esses ajustes precisam ser revistos quando novas fases e demandas surgem. Quando aquilo que um dia ajudou, começa a impedir a resposta a novas necessidades, tem-se um problema. É aí que a mudança se faz necessária.

Porém toda mudança inclui a perda. Mesmo ao se movimentar para algo bom, o ser humano está necessariamente deixando algo para trás: rotinas, funções, cidades, etapas da vida, pessoas e até mesmo uma versão de si mesmo. É exatamente por isso que mudanças costumam trazer sentimentos contraditórios. Pode manifestar-se simultaneamente a esperança e o medo, a alegria e a tristeza, o entusiasmo e a insegurança, e assim por diante.

A bíblia traz diversos exemplos de personagens que foram desafiados a viver importantes mudanças. Uma dessas passagens, para mim uma das mais marcantes, está registrada em Gênesis 12.1 (NAA): “O Senhor disse a Abraão: – Saia da sua terra, da sua parentela e da casa do seu pai e vá para a terra que eu lhe mostrarei”. Abraão recebeu uma promessa, mas não recebeu detalhes sobre como seria este caminho. Ele precisou sair do lugar conhecido, deixar muita coisa para trás, e seguir adiante confiando naquele que o chamava. Ele estava numa posição de falta de controle sobre os próximos passos e isso costuma ser muito difícil para o ser humano.

Constantemente, ao nos movermos, buscamos garantias de que as coisas darão certo. No entanto, nem sempre nós as temos. A fé cristã não promete que os caminhos serão fáceis e nem que o desfecho das situações será sempre conforme almejado por nós. Assim, o ponto de equilíbrio é justamente a fé em Deus, pois cremos que ele é o “Todo Poderoso”.   Cremos que ele permanece fiel mesmo quando as circunstâncias mudam e não parecem favoráveis.

Às vezes é mais adequado permanecer, mas por vezes a mudança se faz necessária. Assim, é importante acolher os sentimentos contraditórios que se manifestam diante das mudanças. E nesse caso, reconhecer nossa fragilidade para lidar com os dilemas suscitados pode inclusive contribuir para que possamos nos equilibrar e seguir com maior firmeza, depositando a nossa confiança naquele que nunca entra em contradição. O corpo envelhece, os projetos terminam, novas responsabilidades aparecem. Enfim, as circunstâncias mudam, nós mudamos, a vida muda. Porém Cristo permanece e sempre nos sustenta em cada passo que dermos.

Comentários

Deixe seu comentário:

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


Matérias Relacionadas

Desamparo e felicidade de pico na contemporaneidade: um ensaio

Artur Charczukpastor e [email protected]: (51) 9923-57-187 Observa-se, nas últimas duas décadas, uma transformação relevante no ideal de vida boa. O termo felicidade,...

Veja também

Desamparo e felicidade de pico na contemporaneidade: um ensaio

Artur Charczukpastor e [email protected]: (51) 9923-57-187 Observa-se, nas últimas duas...

No ritmo da 64ª Convenção Nacional da IELB

Evento acontece de 9 a 12 de outubro, no Seminário Concórdia, e definirá a liderança da igreja para o quadriênio 2027-2030