“A oferta precisa doer”


Rev. Lucas Pinz Graffunder
Novo Hamburgo, RS

Foi isso que ouvi do Márcio, um irmão na fé e membro da congregação onde sou pastor. A frase era forte. Talvez até óbvia para alguns, mas eu nunca havia parado para pensar nela com a atenção necessária. E confesso que ela me incomodou. Então o Márcio explicou: “A oferta precisa incomodar, porque, quando eu separo aquele valor, penso no que poderia fazer com ele. Poderia adiantar uma prestação, reformar a varanda, comprar alguma coisa ou investir em um momento de lazer”.

Quando ofertamos, estamos enfrentando um dos maiores ídolos do nosso tempo: o dinheiro. Lutero chamou esse ídolo de “Mamom”. Ele promete segurança, conforto, liberdade e controle. O dinheiro nos sussurra: “Se você tiver o suficiente, não precisará depender de ninguém, nem mesmo de Deus”. Por isso, ofertar é mais do que devolver uma parte daquilo que recebemos. Ofertar é confessar em quem colocamos nossa confiança. Quando entrego minha oferta, estou dizendo: “Minha vida não está sustentada pelo saldo da minha conta, minha segurança não está naquilo que consigo guardar, meu futuro permanece nas mãos de Deus”.

Nesse sentido, a oferta realmente dói. Ela confronta o velho ser humano que deseja controlar tudo, guardar tudo e depender somente de si. Ela toca justamente naquele lugar em que o coração tenta substituir Deus pelas coisas que Deus criou. Isso não significa que precisamos ofertar irresponsavelmente, deixando de alimentar a família, pagar as contas ou cumprir nossas demais vocações. A dor da oferta não é um mérito diante de Deus. Deus não nos ama mais porque demos mais dinheiro. Nossa oferta não compra bênçãos, não paga pecados e não completa aquilo que Cristo já realizou na cruz.

Antes de qualquer oferta nossa, está aquilo que Deus nos ofereceu. Ele nos deu a criação, o sustento, o perdão, a vida e, acima de tudo, o seu próprio Filho. Ofertamos porque Deus primeiro nos deu tudo por pura bondade e misericórdia. A teologia luterana nos lembra que a oferta no culto não é apenas uma ocasião conveniente para recolher dinheiro. Ela é uma ação da nova pessoa, recriada por Deus no Batismo, por meio da oferta, nossos bens, nosso tempo e nossas capacidades tornam-se instrumentos da bondade do Criador. A igreja não recebe ofertas para acumular riquezas e parecer poderosa, mas para anunciar o Evangelho, sustentar o trabalho da igreja e cuidar daqueles que passam necessidade.

Nossa conversa continuou e chegamos a uma constatação incômoda: ofertar somente aquilo que sobra dificilmente confronta nosso ídolo. Se damos a Deus apenas o que não fará falta, Mamom continua tranquilo, nada mudou. Nenhum desejo precisou esperar, nenhum plano foi alterado. Deus recebeu apenas as sobras. Talvez a pergunta não seja apenas: “Quanto eu posso ofertar sem sentir?”. Talvez a pergunta correta seja: “Quanto posso ofertar como confissão de que o dinheiro não é o meu senhor?”. A oferta precisa doer, não porque Deus tenha prazer em nosso sofrimento, mas porque os ídolos não abandonam facilmente o lugar que ocuparam em nosso coração. Ela dói no velho ser
humano, mas também revela a liberdade da nova pessoa. A pessoa que sabe que não pertence ao dinheiro, porque já pertence a Cristo.
No fim, ofertar é confessar: “Meu dinheiro não é meu deus. Minha segurança não está no que possuo, Cristo é o meu Senhor. Tudo o que tenho veio de suas mãos e pode ser colocado a serviço do Evangelho e do meu próximo”.

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