A memória das enchentes

Artur Charczuk
pastor e psicanalista
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O Rio Grande do Sul está sob alerta vermelho para temporais severos, com risco de volumes consideráveis. E, infelizmente, os últimos dias mostraram a potência dos temporais e dos ventos, com cenários e situações de grande tristeza. São dias de instabilidade, de incertezas e frustrações. Sim, a instabilidade não está só na realidade externa. Ela também está no ser humano. Ou seja, ele também está instável diante das reações da natureza.  Diante disso, lembro do psicanalista Donald Winnicott, que teorizou o conceito chamado holding.  É a ideia de que um psiquismo saudável depende de um ambiente sustentador. Isto é, o sujeito precisa encontrar estabilidade nos lugares que frequenta. Por exemplo: a casa oferece um sentimento de segurança para o indivíduo. Outro: quando o sujeito vai ao trabalho, ele tem a sensação de que vai chegar lá em segurança. O ser humano possui uma estabilidade interna. Mas a instabilidade emocional está predominante devido às enchentes. Uma instabilidade que teve sua marca inicial em 2024, nas enchentes de maio. Com isso, após o evento catastrófico, o gaúcho está apreensivo com os eventos climáticos. Ele está inseguro. Ele está sentindo falta de um ambiente suficientemente bom, que organize o sentimento de instabilidade. Assim, a região Sul está sendo atravessada pelos eventos do real, mas também pelas memórias de 2024. As memórias estão tornando a rotina da população gaúcha uma fuga diária, por medo, por insegurança e assim por diante. A instabilidade emocional está acionada novamente. Uma apreensão severa paira no ar pampeano.

Mas o que seria esse ambiente suficientemente bom para um povo inteiro? Seria uma cidade que funciona mesmo sem tragédia. Seria obra que continua depois que a água baixa. Seria informação clara, abrigo digno, política pública que não some do mapa quando o Sol volta. Enquanto isso não existir, o gaúcho vai continuar vivendo em estado de alerta. Porque o trauma não cicatriza na urgência. Ele cicatriza no cuidado cotidiano. E é esse cuidado que ainda não chegou. É aqui que Winnicott faz sentido. Ele dizia que não existe bebê sem mãe. Para um povo, não existe segurança sem um ambiente que sustente. Enquanto o RS não encontrar esse ambiente suficientemente bom, vamos continuar reagindo a cada nuvem como se fosse maio de 2024. Porque a instabilidade não é só do tempo. É da falta de cuidado que deveria nos segurar. E as memórias continuarão machucando.

     DEUS É O NOSSO REFÚGIO E A NOSSA FORTALEZA

É o Salmo 46. Ele expressa o Deus que é protetor. Em Deus, o ser humano encontra a proteção que tanto anseia, que tanto precisa. Quando tudo parece desabar, Deus se apresenta como um Pai cuidador, que acolhe seus filhos em tempos de medo e desamparo. Sendo assim, querido irmão: Jesus nos abraça em tempos de aflição, de instabilidade. Ele expressou seu amor ao máximo no alto da cruz. Ali, por entre dores e machucados, aconchegou o ser humano pecador no perdão e na salvação. Confiemos em Jesus. Ele estabiliza nossos piores medos e enche de esperança nossos corações através da sua presença diária. Sim, diante das memórias que machucam, temos a Jesus, dado que Ele é o nosso refúgio e a nossa fortaleza.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BÍBLIA.  Nova Almeida Atualizada. 3° ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

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