Braços estendidos a desesperançados

Moisés foge da vigilância egípcia desesperançado. Vítima de insucessos, frustrada lhe parecia a esperança de libertar seu povo. Deus intervém, quando não há esperança. Os recursos de Deus superam sensatez, cálculos, probabilidades.

      

Desesperam os que não têm nada a esperar, os que esbarram na pedra no meio do caminho, os que vivem sem futuro, sem além. Moisés foge da vigilância egípcia desesperançado. Vítima de insucessos, frustrada lhe parecia a esperança de libertar seu povo. Deus intervém, quando não há esperança. Os recursos de Deus superam sensatez, cálculos, probabilidades. Deus aparece a Moisés, longe da polícia egípcia em região montanhosa. O rosto de Deus brilha em chamas que não consomem o vegetal em que ardem. A sarça é o símbolo do poder sem limites. O solo é sagrado porque é o começo de novos territórios. Deus se apresenta como Ser acima de todos os seres, como poder que não pode ser definido nem nomeado.

O que é sem limites, estabelece os limites de Moisés, o futuro guia da nação escravizada roga que se identifique a força que suspende leis da natureza.  O poder ilimitado revela-se ao suplicante limitado como o Deus dos fundadores do povo de Israel, o Deus que foi a vida na atribulada existência de Abraão, Isaque e Jacó. O Criador é mais espantoso do que todos os prodígios que se possam imaginar. Paulo escreve aos romanos que Abraão viveu em esperança contra toda esperança (Rm 4.18). Contra o que se espera, ardia sem ser consumida a sarça a poucos passos de Moisés.

A esperança nem sempre encontra satisfação imediata. José, filho de Jacó não sai do fundo do poço para encontrar vida melhor. De filho predileto, passa a viver como escravo, vendido por irmãos injustos e gananciosos. Contra toda a esperança, José experimenta vida principesca no palácio real do Egito. A prosperidade inesperada lhe proporciona a oportunidade de oferecer vida tranquila na terra do exílio ao pai e aos irmãos injustos. A segurança durou algumas gerações, os estrangeiros se multiplicaram e prosperaram como tumor maligno aos olhos de um faraó tirânico.

Pela intervenção inesperada de Moisés, os descendentes de Abraão são levados ao deserto. A marcha no vazio parecia sem fim. Os que contavam com soluções a curto prazo pereceram sepultados por tempestades de areia. Os sobreviventes, ao entrarem na terra prometida, encontraram resistência armada em lugar de leite e mel.

O desesperado se engana quando pensa que o socorro reside em recursos que o cercam, deseja o que não está em reservas a seu alcance. Nada satisfaz o desesperado porque sabe que aquilo que espera não está no que lhe é oferecido. O mundo se apresenta como sem sentido, vazio. Desprezíveis lhe são todos os sinais de afeto. Vivemos em libertações parciais. Pobres libertam-se da falta de recursos, doentes libertam-se de enfermidades, expatriados libertam-se da amargura do exílio.

O desespero não vem como lugar de ficar, alastra-se como território em que despertamos para a esperança. Acima do perecível, brilha a luz do imperecível, ela ilumina o perecível. No Apocalipse, João aponta dois livros: o livro da vida e o livro dos homens. O livro dos homens é o conjunto de todos os livros que já se escreveram e escreverão; havendo escritura, passará – lembra Paulo de Tarso. Livros escreve quem deseja, o desejo nos leva ao que não temos. No livro do Redentor estão registrados os nomes dos que foram redimidos do desespero.  

É hora de nos colocarmos na situação de pessoas que por calamidades naturais e por conflitos armados perderam tudo. É hora de esperar quando as razões de esperar se apequenam. É hora de estender os braços aos que sofrem. Nós somos os braços daquele que ampara desesperançados.

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