Cristo para todos – unidos, crescemos!

Estudo teológico do quadriênio 2027-2030

“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor.” (Efésios 4.15-16, NAA)

O tema do quadriênio 2027-2030, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), parece simples: “Cristo para todos – unidos, crescemos!” E justamente por parecer tão claro, podemos tirar conclusões rápidas demais sobre o seu significado. “Unidos, crescemos” pode soar como um jargão motivacional: se todos colaborarem, se cada área fizer a sua parte e conseguirmos coordenar as ações, então a igreja crescerá.

No entanto, o texto bíblico nos traz uma perspectiva diferente.

Em Efésios 4, o apóstolo Paulo aponta para o que Deus já nos deu. Antes das partes, existe o corpo. Antes do nosso esforço para criar unidade, existe a unidade que o Espírito Santo já concedeu. E, quando cada parte cumpre sua função, é de Cristo, a cabeça, que as partes recebem vida, direção e força para agir.

Por isso, Cristo não é apenas a motivação que nos leva a trabalhar para o crescimento da igreja. Ele é a origem e o destino desse crescimento. A igreja vive da presença e da ação de seu Senhor. Unida a Cristo, a igreja recebe dele seus dons e sua força. E, porque recebe, confessa a fé, ama, serve e cresce.

Uma música recebida

No início de O Silmarillion, livro em que J. R. R. Tolkien[1] reúne histórias sobre a origem de seu mundo imaginário, há um relato de criação chamado “Ainulindalë”, isto é, a “Música dos Ainur”. Antes de o mundo existir, Eru Ilúvatar, o criador, apresenta aos Ainur, seres espirituais criados por ele, um grande tema musical. Cada um contribui com sua voz, mas nenhum inventa o tema nem é fonte de sua própria criatividade. A música soa em profunda harmonia porque, embora os Ainur sejam diferentes, todos recebem de uma mesma fonte, escutam uns aos outros e desenvolvem juntos aquilo que lhes foi dado.

É nesse ponto que surge Melkor, um dos Ainur. Ele deseja produzir algo que seja exclusivamente seu. Em vez de receber, escutar e participar, passa a impor sua própria vontade ao conjunto. Sua voz começa a competir com a música do Criador e atrai outras vozes para a desarmonia.

A imagem de Tolkien ajuda a distinguir a ação harmoniosa que nasce da comunhão com o Criador da ação pretensiosa que brota do desejo de afirmar a si mesmo. A diversidade saudável recebe e transborda aquilo que lhe foi dado; a rebelião, ao contrário, transforma o dom recebido em posse e busca fazer dele algo exclusivamente seu.

Esse retrato da condição humana também aparece nas palavras do profeta Isaías: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu próprio caminho” (Is 53.6). A esse quadro queremos contrapor Efésios 4, destacando algumas perguntas que nos ajudarão a compreender e celebrar a unidade e o crescimento que recebemos do Senhor, aquele que “fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós”: De onde vem a unidade da igreja? Quem dá vida ao corpo? Quem o faz crescer? E qual é o lugar de cada parte?

Do chamado ao crescimento

Os versículos escolhidos para o quadriênio concluem um argumento iniciado em Efésios 4.1. Nos versículos 1-6, Paulo fala do chamado recebido e da unidade que o Espírito já criou. Nos versículos 7-12, apresenta o Cristo vitorioso, que dá à igreja o ministério da Palavra. Nos versículos 13-16, mostra o alvo e a fonte do crescimento. É neste percurso que o tema, “unidos, crescemos”, revela a sua mensagem.

1 “Por isso eu, o prisioneiro no Senhor, peço que vocês vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados, 2 com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando uns aos outros em amor, 3 fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.1-3, NAA).

“Por isso” liga essas palavras a tudo o que o apóstolo Paulo anunciou nos três primeiros capítulos da carta: Deus escolheu seu povo em Cristo, redimiu-o pelo sangue de Jesus, selou-o com o Espírito Santo e, pela cruz, reconciliou judeus e gentios em um só corpo. Aqui, Paulo não está deixando o evangelho para trás a fim de começar uma lista de tarefas. Ele mostra a vida que o próprio evangelho produz.

Por essa razão, viver de maneira “digna” não é tornar-se merecedor do chamado. Significa viver de modo apropriado àquilo que Deus já fez. Também a “vocação” mencionada aqui precisa ser entendida antes de tudo como o chamado de Deus à fé em Cristo, ligado, poucos versículos depois, ao único batismo. Muito mais do que indicar uma tarefa, ela declara uma identidade: fomos chamados, perdoados, revestidos de Cristo e incorporados ao seu corpo. É a nossa vocação batismal.

Humildade, mansidão, paciência e amor são a forma que a vida recebida de Cristo assume entre pecadores perdoados. Por isso Paulo fala em suportar uns aos outros. A comunhão cristã não reúne pessoas capazes de conviver sem falhas; reúne pessoas sustentadas pela mesma graça, que necessitam perdoar e ser perdoadas.

O verbo do versículo 3 é decisivo. Paulo não manda criar a unidade, mas preservá-la. A unidade é “do Espírito”, pois ele é sua fonte. E o vínculo que nos prende uns aos outros é a paz que Cristo estabeleceu ao reconciliar aqueles que estavam separados.

O “unidos” de nosso tema não começa num acordo administrativo da IELB nem na decisão voluntária de cooperar. A comunhão começa antes de nós. Deus chama, reúne e incorpora pessoas a Cristo.

“Um só”: a unidade tem origem e conteúdo

4 “Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. 5 Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6 um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4-6, NAA).

O apóstolo agora apresenta uma breve confissão de fé. Não se trata de uma ordem para que nós façamos um corpo nem a expressão do desejo de que algum dia exista unidade. Paulo declara o que Deus já estabeleceu: há um corpo. A palavra “um” aparece sete vezes e organiza a confissão em torno do Espírito Santo, do Senhor Jesus e de Deus, o Pai. A unidade da igreja nasce da unidade e da ação do próprio Deus triúno.

Essa unidade também tem conteúdo. Há um só Senhor, isto é, o centro da fé não será escolhido por negociação; há uma só fé – a fé apostólica, que a igreja recebe, crê e confessa; e um só batismo, pelo qual somos unidos ao único Cristo. Preservar a unidade, portanto, não é reduzir a fé ao menor ponto possível de concordância nem evitar assuntos difíceis. É permanecer no evangelho e guardar os dons que Cristo confiou à sua igreja.

Aqui, ajuda distinguir unidade e concórdia. A unidade (unitas) é obra do Espírito Santo, dada em Cristo. A concórdia (concordia) é a expressão visível dessa unidade quando a mesma fé é confessada, ensinada e vivida em conjunto. Não fabricamos a unidade, mas somos chamados a confessá-la e preservá-la. Falsos ensinos, indiferença doutrinária, partidarismo e falta de amor não anulam a obra de Cristo, mas ferem a concórdia e podem afastar pessoas da fé e da comunhão que receberam.

Também é preciso dizer que unidade não é o mesmo que uniformidade. Congregações cristãs têm histórias, culturas e necessidades diferentes; não precisam realizar as mesmas atividades nem trabalhar do mesmo modo. A diversidade, no entanto, precisa permanecer submetida ao único Senhor, à única fé e ao único batismo. A pergunta é se o que fazemos permanece fiel a Cristo e serve a todo o corpo.

“Ele mesmo concedeu”: os dons vêm do Cristo vitorioso

Depois de confessar o que todos têm em comum, Paulo escreve: “E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4.7). “Graça” ainda aponta para a salvação comum, e a medida não é a capacidade de cada pessoa, mas o próprio Cristo e sua generosidade. Ou seja, ninguém recebe um Cristo menor.

Nos versículos 8-10, Paulo cita o Salmo 68 e dirige nosso olhar para a história de Jesus. Aquele que desceu até nós, venceu o pecado, a morte e o diabo, ressuscitou e subiu acima de todos os céus é quem concede os dons. A ascensão não aponta para um Cristo ausente, pelo contrário, exaltado e presente, ele enche todas as coisas e continua cuidando de seu povo.

11 “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, 12 com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11-12, NAA).

Os dons mencionados aqui não são habilidades individuais, mas pessoas que Cristo entrega à igreja. Apóstolos, profetas e evangelistas tiveram papel fundamental na transmissão do evangelho; pastores e mestres servem a igreja com a Palavra recebida dos apóstolos. Cristo não deixa seu povo sozinho para produzir a própria maturidade.

O texto de Efésios 4.12 exige atenção especial. Na forma como a frase costuma ser lida, parece que os ministros preparam os demais cristãos, estes realizam “o serviço”, e, assim, o corpo é edificado. O teólogo luterano Thomas M. Winger mostra, porém, que a estrutura do texto grego apresenta três expressões paralelas. Todas descrevem as finalidades para as quais Cristo concedeu os servidores da Palavra mencionados no versículo anterior:

  • conduzir os santos à completude;
  • realizar a obra do ministério;
  • edificar o corpo de Cristo.

O foco está no ministério público como dom de Cristo. Por meio da pregação, do ensino, do batismo e da ceia, o Senhor conduz os cristãos à maturidade, protege-os do erro e edifica a igreja. Os ministros não ocupam o lugar da cabeça nem possuem em si o poder de dar vida. Eles são servos por meio dos quais Cristo age com sua Palavra.

Isso não transforma os demais batizados em espectadores. As Escrituras ensinam que todos confessam a fé, testemunham Cristo, amam o próximo e servem em suas vocações. Essa vida nasce do batismo e do ensino bíblico mais amplo. Não é necessário confundir o ministério público e o serviço de todos os cristãos. O ministério entrega os dons de Cristo; os batizados os recebem e vivem sua vocação batismal no cotidiano. Um não substitui o outro.

“Até que todos cheguemos”: Cristo é a medida da maturidade

13 “Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo, 14 para que não mais sejamos como crianças, arrastados pelas ondas e levados de um lado para outro por qualquer vento de doutrina, pela artimanha das pessoas, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.13-14, NAA).

A frase iniciada no versículo 11 ainda não terminou. Cristo concede os ministros da Palavra para edificar seu corpo “até que todos cheguemos” ao alvo. Paulo o descreve de três maneiras que se completam: unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus; estado de pessoa madura; medida da plenitude de Cristo.

À primeira vista, pode surgir uma dúvida. Se a unidade já foi dada pelo Espírito e deve ser preservada no versículo 3, por que o versículo 13 fala em chegar à unidade da fé?

Paulo não está ensinando duas unidades nem dizendo que a obra do Espírito ficou incompleta. No primeiro caso, trata da unidade recebida por todos os que foram incorporados a Cristo. No segundo, fala da concórdia para a qual o corpo amadurece, isto é, a mesma fé conhecida, confessada e vivida em conjunto. A unidade recebida busca expressão cada vez mais clara na confissão comum.

O “pleno conhecimento do Filho de Deus” não é apenas conhecer as informações certas sobre Jesus. Cristo se dá a conhecer por sua Palavra e une seu povo a si no batismo e na ceia. Maturidade aqui não é independência, como se o adulto já não precisasse receber. É o contrário, uma confiança mais firme e um discernimento mais profundo.

O contraste do versículo 14 confirma isso. A criança é arrastada pelas ondas e por qualquer vento de doutrina, porém a pessoa madura permanece e confia na Palavra que recebeu. Paulo reúne três imagens de instabilidade: a infância vulnerável, o barco lançado de um lado para outro e o engano de pessoas que manipulam. O crescimento do corpo inclui, portanto, aprender a reconhecer o erro e permanecer na verdade. É exatamente desse contraste que nascem os versículos que fundamentam o tema do quadriênio.

“Seguindo a verdade em amor”: o crescimento vem da cabeça

 Seguir a verdade em amor é mais do que falar coisas corretas com gentileza. O verbo grego envolve crer, ensinar, confessar e praticar o que é verdadeiro. E a verdade, aqui, é a verdade do evangelho, em contraste com o engano mencionado no versículo 14.

O amor também não é apenas uma maneira agradável de falar e agir. É o amor de Deus revelado em Cristo, no qual a igreja está enraizada e que transborda na maneira como seus membros se tratam. Verdade e amor não competem. O amor não torna o falso ensino aceitável, e a fidelidade doutrinária não autoriza dureza ou desprezo. A verdade que confessamos é justamente o evangelho do amor de Deus em Cristo.

O movimento do texto pode ser percebido em duas pequenas expressões. No versículo 15, crescemos “naquele” que é a cabeça: Cristo é o alvo. O versículo 16 começa apontando “de quem” o corpo vive e cresce: Cristo é a fonte. Os verbos traduzidos como “bem-ajustado” e “consolidado” indicam algo que o corpo recebe. A cabeça provê os ligamentos que unem, eles são os canais que alimentam e dirigem as partes.

Também a expressão “justa cooperação de cada parte” precisa ser lida a partir de Cristo. No grego, a palavra que está por trás de “cooperação” é usada em Efésios para ressaltar a atividade poderosa de Deus. É ele quem distribui a cada parte a medida e a força (energia) para agir. O versículo não descreve uma sociedade na qual Cristo fornece uma parcela e os membros completam o que falta.

Mesmo assim, as partes não ficam inertes. O corpo realmente cresce; os cristãos creem, aprendem, confessam, perdoam, servem e testemunham. No entanto, nenhuma parte se torna uma segunda cabeça ou uma nova fonte de vida. Retomando Tolkien, nenhuma voz precisa inventar outra música nem atrair as demais para sua dissonância. As partes atuam porque recebem vida, direção e força da única cabeça.

Uma outra imagem musical pode nos ajudar a imaginar como fundamento, diversidade e crescimento convivem. Trata-se do “Cânone em Ré maior”, de Johann Pachelbel, compositor e organista alemão do período barroco. É uma das peças mais conhecidas da música ocidental. Muitas pessoas reconhecem sua melodia, embora talvez nunca tenham percebido como a composição funciona. Sua estrutura é simples e, ao mesmo tempo, muito engenhosa.

Na parte grave da música, o baixo repete uma sequência de oito notas que ocupa dois compassos. Ele permanece como um chão firme sobre o qual todo o restante da música se desenvolve.

Sobre esse fundamento, três violinos entram um depois do outro. O primeiro inicia a linha melódica. Dois compassos depois, o segundo começa a repetir o mesmo caminho. Dois compassos depois, entra o terceiro violino. Essa forma de imitação, na qual uma voz apresenta a melodia e as outras a seguem com algum atraso, é chamada de cânone – daí o nome da composição.

Apesar de tanta repetição, a linha dos violinos torna-se progressivamente mais movimentada, e as relações entre as vozes produzem variedade, densidade, memória, tensão e direção. O baixo retorna continuamente, mas a música avança. O fundamento permanece reconhecível enquanto a composição cresce e se desenvolve.

Essa estrutura oferece uma ilustração muito útil para pensar a vida da igreja. O fundamento recebido não é inimigo do movimento. Estabilidade não significa imobilidade. Permanecer na mesma fé não significa repetir mecanicamente as mesmas formas. É possível crescer, criar, aprender e responder a novas situações sem abandonar aquilo que sustenta nossa identidade.

Também podemos compreender que diferença não precisa significar desunião. Os três violinos não competem entre si nem tentam substituir o fundamento. Suas diferenças encontram coerência porque pertencem à mesma composição, seguem a mesma direção e permanecem sustentadas pelo mesmo baixo.

Em determinado momento, ouvimos simultaneamente três pontos diferentes da mesma trajetória musical. O primeiro violino está mais adiante; o segundo repete o que o primeiro tocou dois compassos antes; e o terceiro vem mais atrás. É como se a música reunisse, no mesmo instante, seu presente, seu passado recente e um passado mais distante.

A imagem se torna especialmente rica quando pensamos na transmissão da fé. Na igreja, ninguém começa no primeiro compasso da história. Quando chegamos, a fé já estava sendo confessada. O evangelho não começou conosco. Recebemos a Palavra que atravessou gerações e chegou até nós por meio da pregação, do batismo, do ensino e do testemunho dos cristãos que vieram antes.

Por isso, diferentes gerações convivem em momentos distintos da vida. Crianças estão começando a aprender aquilo que jovens já conseguem confessar com maior compreensão. Adultos assumem responsabilidades que outros já exerceram antes. Idosos carregam experiências, lembranças e aprendizados que não devem ser perdidos. Eles não estão todos tocando exatamente a mesma coisa, mas estão no mesmo “compasso” na história da salvação, pertencem à mesma fé, confessam o mesmo Senhor e vivem do mesmo batismo.

Crescer não exige inventar outro fundamento nem abandonar a fé apostólica. A nova geração não precisa começar uma música diferente para encontrar seu lugar; ela precisa aprender a entrar na mesma confissão e fazê-la ressoar fielmente em seu próprio tempo. Unidos em Cristo, diferentes pessoas, gerações e áreas da igreja podem aprender, servir, crescer e transmitir a fé sem perder o fundamento que as coordena como um só corpo.

E assim, o percurso do texto de Efésios 4 chega ao fim. Deus incorpora pessoas a Cristo; o Espírito lhes dá uma unidade a preservar; a confissão dos sete “uns” revela seu fundamento; e o Cristo vitorioso concede o ministério da Palavra, conduz o corpo à maturidade e o guarda do erro. O crescimento vem de Cristo e conduz para Cristo.

Crescer em Cristo e planejar sob a cruz

Em Efésios 4.13-16, crescimento significa primeiro amadurecimento na fé. Isso não torna irrelevante o crescimento em número. A Escritura mostra que há alegria quando a Palavra alcança novos ouvintes e o Senhor acrescenta pessoas ao seu povo (At 2.47; 6.7).

Os números também são importantes. Eles podem mostrar aonde estamos chegando, onde há afastamento e quais necessidades pedem atenção. Sozinhos, porém, não medem a fidelidade da igreja nem colocam a ação de Deus sob nosso controle.

Congregações, distritos e a igreja nacional planejam, ensinam, administram, realizam projetos e avaliam seu trabalho. Planejar sob a cruz é assumir responsabilidade sem procurar uma fórmula que garanta resultados. Podemos preparar bem, ensinar com clareza e administrar com cuidado e ainda assim encontrar resistência, sofrimento ou poucos frutos visíveis. Em outras ocasiões, Deus nos surpreende além do que havíamos previsto. O crescimento continua sendo dádiva.

Planejamento como prática de concórdia

A igreja é um organismo vivo, mas também se organiza em tempos e lugares concretos. Entre nós, ela toma forma institucional na IELB, com estatuto, regimento, congregações, distritos, liderança, departamentos, orçamento, patrimônio e projetos. A Escritura não prescreve esses detalhes. Nós os adotamos para manter a boa ordem, proteger pessoas, definir responsabilidades, prestar contas e favorecer a cooperação. Essas regras não criam a igreja nem possuem a autoridade da Palavra. Elas devem servir à vida e à missão da igreja.

Uma estrutura serve bem quando se lembra para que e para quem ela existe. Algo antigo pode continuar útil; outro processo talvez precise ser revisto. Planejar não é substituir a ação do Espírito por técnicas de gestão, mas exercer boa mordomia sobre aquilo que podemos e devemos organizar.

Por isso, o planejamento pode ser uma prática de concórdia. Um documento não cria “mais unidade”, mas ajuda congregações, distritos, departamentos e demais instâncias, que já pertencem umas às outras, a escutar, coordenar responsabilidades e caminhar na mesma direção.

Algumas perguntas podem acompanhar o nosso planejar:

  • O que recebemos e não temos autoridade para reinventar?
  • A quem fomos chamados a servir, e quem depende de nós?
  • O que pertence à confissão comum e o que pode ser adaptado?
  • Nossa ação ajuda outras partes do corpo ou apenas disputa atenção, calendário e recursos?
  • Tratamos as pessoas como filhos de Deus ou como mão de obra para projetos?

Essas perguntas confrontam a tentação de querermos compor uma música própria, desligada do corpo.

O caminho do quadriênio

O quadriênio terá dois movimentos. Em 2027-2028, “Unidos na correta compreensão da Cristologia”, a palavra-chave será concórdia: a unidade recebida torna-se confissão e vida comuns, com Cristo no centro. Em 2029-2030, “Crescendo no exercício das vocações”, será vocações: a vida recebida de Cristo toma forma nos relacionamentos e responsabilidades em que servimos. O segundo biênio se apoia no primeiro.

Esse caminho atravessará dois jubileus: em 2029, os 500 anos dos catecismos Menor e Maior de Lutero; em 2030, os 500 anos da Confissão de Augsburgo.

2027 – De quem somos corpo?

O primeiro ano nos inspira a manter Cristo no centro. Se a igreja é seu corpo, nenhum projeto, grupo ou estrutura pode ocupar o lugar da cabeça. A pessoa e a obra de Cristo dão conteúdo à concórdia e à verdade vivida em amor.

No planejamento, congregações poderão estudar Efésios 4 e a Cristologia, fortalecer a clareza doutrinária e rever projetos e calendários à luz de uma pergunta simples: Esta iniciativa nasce do que recebemos de Cristo e serve à edificação do corpo?

2028 – Cristo por mim, Cristo em mim

“Cristo por mim” preserva o evangelho: somos justificados pela obra completa de Cristo. “Cristo em mim” aponta para a nova vida que o Espírito produz. Santificação não é a etapa em que Cristo sai de cena, mas a vida recebida dele tomando forma em misericórdia, perdão, reconciliação e testemunho.

No planejamento, congregações podem trabalhar justificação, vida cristã e batismo e perguntar como aquilo que recebemos no culto aparece na vida comum. Podem identificar necessidades reais de cuidado, criar práticas de reconciliação e perdão, fortalecer hospitalidade e testemunho e revisar a linguagem usada para chamar pessoas ao serviço, evitando culpa e manipulação.

2029 – Corpo unido: verdade em amor

O segundo biênio volta a atenção para as vocações. Quando as partes reconhecem a mesma cabeça e os mesmos fins, podem deixar a disputa e concentrar-se no próximo. Responsabilidades diferentes não exigem que todos façam a mesma coisa; pedem cooperação concorde.

Os 500 anos dos catecismos tornam 2029 oportuno para esse aprendizado. O batismo recorda quem somos; os Dez Mandamentos dão forma à vida de fé e amor; e a Tábua dos Deveres ajuda a reconhecer relações e responsabilidades. Congregações poderão planejar fomentar o uso dos catecismos em todas as idades, envolver os lares no ensino e ajudar cada pessoa a reconhecer onde Deus a colocou para servir.

2030 – Cada parte em sua função: vocação e próximo

O último ano aproxima vocação e missão. A vocação batismal diz quem somos e a quem pertencemos em Cristo. As vocações indicam estados, relações e ofícios nos quais a Palavra estabelece deveres. Os papéis mostram a posição concreta que ocupamos nessas relações; os relacionamentos colocam diante de nós o próximo; e as responsabilidades dão forma ao que escolhemos ou nos cabe fazer. A vida batismal se manifesta quando o cristão vive com fé e amor na sua vocação batismal.

O jubileu da Confissão de Augsburgo recordará uma igreja que confessou publicamente sua fé. Seus artigos IV a VII oferecem uma sequência preciosa: Cristo nos justifica; o evangelho e os sacramentos entregam a fé; a fé produz frutos; a igreja vive do que recebe.

No planejamento, congregações podem ensinar a doutrina da vocação e a Tábua dos Deveres, ajudar os membros a refletirem sobre seus relacionamentos e responsabilidades e formar cristãos para o testemunho cotidiano. Podem criar caminhos claros para acolher convidados, ensinar a fé, preparar para o batismo e a profissão de fé e acompanhar quem se aproxima da igreja.

Nossa esperança é Cristo

No fim da história de seu mundo imaginário, Tolkien aponta para uma música ainda maior. Nela, cada voz compreenderá sua parte, a desarmonia será superada e o sentido da música será revelado.

A igreja também vive na expectativa do fim. Não esperamos alcançar, dentro da história, um momento em que trabalharemos juntos sem erros. Efésios 4.13 aponta para a plenitude de Cristo como o destino do corpo. A maturidade será completa no último dia.

Isso não significa que devemos aceitar as divisões, abandonar a busca pela concórdia ou deixar de planejar. Somos chamados a preservar a unidade recebida do Espírito, falar a verdade em amor, servir uns aos outros e exercer com responsabilidade aquilo que nos foi confiado. Precisamos apenas reconhecer que todas as nossas ações, estruturas e formas de cooperação continuam imperfeitas e dependentes da graça de Deus.

Por isso, nossa esperança não está no planejamento. O planejamento é uma ferramenta. Nossa esperança não está na forma como nos organizamos. A organização é serva. Nossa esperança também não está em nossa capacidade de produzir uma concórdia perfeita. Mesmo a concórdia visível precisa continuamente da Palavra que corrige, perdoa e reúne. Nossa esperança está em Cristo.

Ele é o Senhor que desceu, morreu e ressuscitou por nós. Ele é a cabeça que não abandona seu corpo. Ele entrega sua Palavra, seu batismo e sua ceia. Ele dá ministros para servir publicamente esses dons, guarda seu povo na única fé, faz a verdade produzir frutos de amor, sustenta a vida dos batizados e os envia para servir ao próximo.

É justamente porque dependemos de Cristo que podemos planejar sem transformar o planejamento em salvador. Podemos agir sem cair no ativismo. Podemos avaliar sem fazer dos números um ídolo. Podemos cooperar sem exigir que todos sejam iguais. Podemos assumir nossas responsabilidades sem competir pela autoria da obra. Planejamos, trabalhamos e avaliamos com seriedade, mas continuamos recebendo de Cristo a vida, a força e os frutos.

Assim, podemos dizer corretamente: “Cristo para todos – unidos, crescemos!” Unidos pelo Espírito no único Senhor, na única fé e no único batismo, crescemos porque recebemos vida de Cristo. E o corpo que vive dessa dádiva aprende, em verdade e amor, a confessar Cristo para todos e a servir cada próximo que Deus coloca em seu caminho.

BIBLIOGRAFIA

  • BÍBLIA. Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Nova Almeida Atualizada (NAA). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. (Especialmente Efésios 4.1-16.)
  • IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL. Conselho Diretor. CD-RES-04/2025 – Moção 05 – Planejamento IELB 2030.
  • LIVRO DE CONCÓRDIA. As confissões da Igreja Evangélica Luterana. BRANDEMBURG, Yedo (ed.). Trad. Arnaldo Schüler. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Comissão Interluterana de Literatura, 2021.
  • MAYES, Benjamin T. G. “Luther on Vocation and Baptism: A Correction to Charismatic and Situational Ways of Discerning God’s Call”. Concordia Theological Quarterly, v. 82, n. 1-2, p. 45-64, 2018.
  • MÜLLEMANN, Norbert (ed.). Pachelbel: Canon und Gigue D-dur, HN 963. München: G. Henle Verlag, 2011.
  • TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. “Ainulindalë”; e The Letters of J. R. R. Tolkien, especialmente cartas 131, 212 e 257.
  • WINGER, Thomas M. Ephesians. Concordia Commentary. Saint Louis: Concordia Publishing House, 2015.

[1] J. R. R. Tolkien (1892-1973) foi escritor, filólogo e professor inglês, conhecido sobretudo por O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion. Cristão convicto, compreendia sua obra literária à luz da fé cristã. Embora rejeitasse a ideia de que suas histórias fossem simples alegorias da fé, temas como criação, queda, providência, esperança e redenção estão profundamente presentes em seu universo imaginário.


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