Eles trabalham por todos nós

A Covid-19 chegou ao Brasil e com ela também o isolamento, o medo, os problemas de relacionamento em casa e no trabalho, o desemprego, o stress, etc. Enfrentar isso tudo já é difícil naturalmente, mas ainda mais quando se está na linha de frente no tratamento da doença ou quando não se tem a opção de parar, por trabalhar em algo considerado essencial. Resta encontrar coragem e força para enfrentar tudo de cabeça erguida, peito aberto e mãos dispostas a servir o próximo.

Conversamos com alguns profissionais que precisaram estar disponíveis, muitas vezes abrindo mão da sua segurança e do contato com a sua família para servir ao próximo desconhecido. Confira alguns relatos!

*Entrevistas concedidas entre os dias 5 e 11 de maio.

“No início da quarentena, o desafio foi comunicar a parada dos atendimentos presenciais e transferir os pacientes, que quiseram, para atendimento on-line.

Foi necessário organizar nossa rotina de segurança em casa; depois, a rotina de estudos dos dois filhos adolescentes; conciliar nossos home offices, meu e do meu marido, com os afazeres domésticos e momentos em família. No trabalho da ULBRA (eu na coordenação do Polo EAD e meu marido na capelania), a rotina mudou bastante também com a produção de material virtual (aulas, mensagens, dicas, etc.), reuniões on-line e atendimento no grupo de apoio virtual aos acadêmicos.

Eu já fazia atendimentos on-line antes da pandemia, com estudantes brasileiros que moram no exterior. Mas precisei adaptar técnicas e materiais utilizados na terapia presencial para on-line, isso exigiu tempo e estudo.

A busca pelo atendimento emergencial, chamados de apoio psicossocial ou acolhimento psicológico, aumentou muito neste período. São atendimentos mais rápidos e pontuais, uma escuta com orientação para a queixa do paciente e, se for o caso, encaminhamento para terapia e/ou atendimento especializado. Recebi treinamento do Ministério da Saúde pelo programa “Brasil conta comigo” e do programa “Acolhimento psicológico”, direcionado a atender profissionais de saúde do Estado do Amazonas. Além disso, atendo de forma voluntária em projetos particulares.

As principais queixas estão ligadas a sintomas de ansiedade, preocupações em relação à saúde, medo de morrer e desregulação do sono. Também aparecem queixas relacionadas à relação conjugal, dificuldades do casal que agora vêm à tona com a convivência mais próxima. E casos mais extremos de ideação suicida e compulsões de todas as áreas. O que mais me sensibiliza são os casos de luto por afastamento de entes queridos e morte de familiares. A dor da perda sem a despedida é muito cruel, pois dificulta o processo de luto natural das pessoas. E temos também os casos dos profissionais da saúde trabalhando no limite da sanidade.

O conteúdo virtual que diz ter a receita para viver melhor este período aumentou muito. Manter exercícios físicos, alimentação regrada, produtividade no home office, relações familiares, etc., tudo isso é importante sim, mas cada um deve ajustar a sua rotina com os integrantes da sua família e não se cobrar excessivamente. Técnicas de respiração profunda para momentos de ansiedade e rotina de relaxamento antes de dormir ajudam.

Nosso Brasil é bem grande e a situação é diferente nas regiões, mas ter respeito e amor pelo próximo é ensinamento divino e mais do que necessário neste período. Se na sua cidade a situação não é alarmante, ótimo! Ore e ajude as pessoas que não estão tendo este privilégio. Aqui no Amazonas a situação é crítica, sim, e além de lidar com essa mudança de rotina, isolamento social, temos que lidar com as notícias falsas compartilhadas sem pensar nas consequências e na dor das pessoas que passam o pior dessa pandemia. Nós cristãos, devemos treinar e praticar empatia e amor ao próximo.

Também indico o site do Vivenciar.net, projeto da Hora Luterana, que traz vários conteúdos bem didáticos e acessíveis sobre diversos assuntos que podem estar incomodando nesta pandemia.”

Daniela von Mühlen

Psicóloga Clínica. Especialista em Terapia Familiar. Psicoterapia online e presencial individual, casal e família.

Manaus, AM

“Este é um momento muito difícil para todos, mais ainda para quem está na linha de frente. São muitas incertezas. Por se tratar de um vírus novo, ninguém estudou ou se preparou para enfrentá-lo, ninguém conhece sua forma de agir e nem como combater ou tratar. Gera muita ansiedade o fato de não sabermos o que nos espera.

Estamos agora em ritmo acelerado de contágio. Já tivemos servidores que testaram positivo para Covid-19, além dos pacientes, isso gera uma insegurança muito grande na equipe. Convivemos diariamente com o medo de ser o próximo. Além do medo de contrair a doença, há também o medo de levá-la para nossas famílias.

Trabalhamos de cabelos presos, unhas curtas e sem esmalte, sem acessórios, sem maquiagem, para facilitar e garantir a higiene das mãos e do rosto. As roupas e calçados que usamos não entram em casa, tomamos banho assim que chegamos em casa e lavamos os cabelos todos os dias. Com tudo isso, minha rotina de trabalho, de sair e de voltar para casa, mudou totalmente.

No hospital estamos disponibilizando consulta psicológica e médica remota para os servidores sintomáticos e testagem dos contatos de casos positivos. Fazemos listas de contatos diariamente. Providenciamos isolamento, garantimos a assistência de que os pacientes isolados necessitam sem comprometer o restante do serviço.

Há uma dificuldade enorme em adquirir os EPIs necessários. O mundo inteiro está consumindo muito mais EPIs do que o normal. Aqui já estamos consumindo quase quatro vezes a quantidade normal.

Tentamos manter nossas equipes seguras o máximo possível, com as precauções necessárias e indicadas, agindo com firmeza, segurança e agilidade. Isso passa confiança e melhora a situação como um todo.

Acredito que Deus tem propósitos para tudo, e que ele nos protege, mas, acima de tudo, que cumpre seus propósitos para conosco e com toda a humanidade.

Por isso, todos os dias ao acordar, coloco minha vida em suas mãos e peço que me dê sabedoria e todos os frutos do Espírito.”

Débora Petry

Enfermeira/Mestre em Saúde Coletiva, gestão de sistemas de saúde

Diretora Geral do HMDR em Palmas, TO

“Trabalho na linha de frente no combate ao COVID-19. Atuo como médica de família em Unidades Básicas de Saúde. Tem sido um desafio trabalhar no período desta pandemia, principalmente no início, quando tudo ainda era novo e desconhecido.

No decorrer dos dias, as queixas de sintomas respiratórios se tornaram mais frequentes, e surgiram os efeitos colaterais já esperados, que foram muitos pacientes com sintomas de ansiedade, tanto pelo medo de contaminação, como também pela situação econômica. Alguns que já tinham finalizado tratamento com antidepressivos ou ansiolíticos acabaram retomando seu uso, com apoio de psicoterapia.

Tive que me fortalecer para dar o apoio e cuidado necessário a esses pacientes, não deixando de lado a proteção pessoal.

No trabalho, separamos áreas de isolamento para atendimento dos pacientes com sintomas respiratórios. A paramentação para realizar esses atendimentos se tornou mais demorada e cuidadosa. Deixamos de lado o atendimento em consultórios com ar condicionado ligado, e passamos atender em ar ambiente e janelas abertas.

A organização e os agendamentos para manter os atendimentos à população de risco teve que ser modificada. E, a cada novo dia, a equipe precisa se ajustar conforme a demanda, para otimizar o fluxo de atendimento e para se adequar e aprender as mudanças que vêm ocorrendo.

Em casa, o cuidado foi redobrado, para não haver contato com ninguém até que um banho seja tomado, e os sapatos e demais materiais utilizados no serviço ganharam locais especiais para serem guardados.

Atualmente, o maior desafio que estou enfrentando é o fato de não poder ter contato com minha família, inclusive em datas comemorativas, pois os riscos de transmissão sempre existem. A saudade chega, mas os receios, cuidados, a esperança e a fé por dias melhores são maiores e nos mantém fortes.”

Adriana Mendes Barros

Médica em Palmas, TO

“Tenho trabalhado com pacientes com COVID desde o início da pandemia em Santa Catarina. No princípio foi bastante trabalhoso e desafiador, por nos tirar da rotina. Como por exemplo, a introdução de novos protocolos nos exigem, muita leitura, uma vez que essa doença é nova e há descobertas a cada dia.

Os profissionais de saúde têm se empenhado em fazer o melhor trabalho possível para que esses pacientes possam retornar para suas famílias. Muitos abriram mão da convivência familiar por estarem diretamente em contato com o vírus.

Como fisioterapeuta e professora de graduação, me sinto no dever de colaborar com meus colegas e honrar minha escolha e juramento, assim como de dar exemplo aos meus alunos da melhor conduta profissional a ser adotada.

Apesar de estudar e ler artigos científicos regularmente, a pandemia exige capacitação constante. Quanto à rotina hospitalar, a introdução de protocolos e cuidados comigo mesma, com o paciente e equipe se tornaram mais intensos, exigindo mais de minha condição física e emocional.”

Cardine Reis

Fisioterapeuta em UTI COVID

Florianópolis, SC

“Para mim a rotina de trabalho não mudou muito, não. O que modificou é que temos que ter mais cuidado, proteção, uso constante de álcool gel, máscara, etc. Além disso, tem a ansiedade e a preocupação.

Eu trabalho transportando laticínios pelo Rio Grande do Sul. Aumentaram minhas viagens. Acredito que houve um pequeno aumento no consumo. Estou indo a mais cidades e lugares diferentes. Sempre com todo o cuidado.

Peço a Deus que proteja a nós todos diante dessa pandemia.”

Danilo klumb

Motorista profissional

São Lourenço do Sul, RS

“O trabalho da Assistência Social no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) é desenvolvido principalmente com famílias em atendimentos individualizados ou coletivos, na busca por prevenir riscos sociais dentro das diferentes vulnerabilidades, através de espaço de escuta, entrevistas, visitas domiciliares, grupos com famílias, crianças, adolescentes, aprendizes, mulheres jovens e adultas, idosos e pessoas com deficiência, trabalhadores formais e informais, povos tradicionais (acampamento indígena).

O CRAS atende bairros, vilas ou ocupações, chamadas de território. O coordenador faz a gestão socioassistencial do território, isto é, todas as atividades assistenciais realizadas por igrejas, associações, entidades são referenciadas ao CRAS.

Atualmente, o CRAS em que eu trabalho possui 5.200 famílias cadastradas. Por mês, atendemos aproximadamente 500 famílias, que buscam diferentes serviços.

Em 18 de março, o prefeito de Passo Fundo proibiu os atendimentos coletivos e orientou que atendimentos individualizados deveriam ser mediante agendamento telefônico. Somente as emergências deveriam ser atendidas. Como definir emergência sabendo que muitas pessoas precisaram repensar sua vida, com as crianças em casa, sem almoçar e lanchar nas escolas ou no CRAS e sem trabalho?

Nossa rotina se intensificou, e as solicitações de alimento passaram de 25 para 750 por mês. Tudo parecia exagero no começo, e tivemos que trabalhar com a resistência da equipe que teve que em poucos dias adquirir novas habilidades e competências aprendendo a trabalhar em home office e ao mesmo tempo desenvolver ainda mais a empatia por aqueles que sofrem.

Devido ao auxílio emergencial do governo, muitas pessoas nos procuraram para orientações, pois muitos são analfabetos funcionais e tecnológicos. Muita urgência para regularizarem suas pendências, o que não dependia de nós, porém éramos o único serviço funcionando, haja vista o IGP (que faz as identidades), a Receita Federal e a própria Caixa Federal, além do INSS, estarem fechados, com serviços home office, o que não significa nada para a população. O SINE também fechou suas portas, logo aqueles que foram demitidos não tinham onde solicitar o auxílio-desemprego remotamente, vindo também ao CRAS. Tentamos escalonar a equipe para evitar aglomeração, mas a demanda foi tanta que tivemos que buscar servidores em outras secretarias para nos acudir.

O auxílio-funeral concedido às famílias é uma constante nos nossos atendimentos. Contudo, nesse período, aumentou consideravelmente, causando medo aos técnicos, pois lhes exige contato.

Lidar com os medos dos servidores, dos usuários e com a visão assistencialista que a sociedade em geral tem da Assistência Social, esquecendo que se trata de uma Política Pública de garantia de direitos essenciais conforme Constituição Cidadã de 1988, é bem desafiador. Avaliar corretamente cada caso tem se imposto fator essencial.

Diariamente recebemos doações como alimentos, material de higiene e limpeza e roupas. Recebemos também 1.000 marmitas. Distribuir essas doações foi outro desafio, por conta da aglomeração. A entrega das sacolas de alimentação estava ficando humanamente impossível. Então chamamos as lideranças das ocupações e vilas para nos auxiliarem, assim somente uma pessoa retira todas as sacolas. E isso foi muito bom.”

Lilian Pfluck

Assistente Social, coordenadora do Centro de Referência da Assistência Social – CRAS São José

Passo Fundo, RS

Daiane Bauer Kühl

Equipe editorial

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