Artur Charczuk
pastor e psicanalista
[email protected]
O mito grego de Sísifo conta a história de um rei apontado como o mais sagaz dos mortais. A narrativa se desenrola através de um protagonista que pratica uma série de atos de insubordinação, tanto para homens como para os deuses gregos. Por consequência, o rei humano sofreu um severo castigo das divindades: sua punição consistia em rolar uma enorme pedra montanha acima. Mas quando Sísifo quase alcançava o topo, a pedra rolava ladeira abaixo. E assim, o astuto rei repetia os movimentos, subindo e descendo o monte, eternamente. O mito de Sísifo, portanto, inaugura uma cirúrgica metáfora acerca do ser humano e sua condição existencial a partir de ciclos, de repetições.
O destino de Sísifo pode encontrar seus correlatos na experiência humana moderna, onde temos responsabilidades repetitivas, com propósitos inalcançáveis, como por exemplo, uma imagem imposta pelas mídias, transformando corpos em modelos a serem seguidos, solapando a autoestima daqueles que não os alcançam; o número de likes não atingidos por meio de uma dada imagem de fundo paradisíaco, ocasionando adoecimento psíquico e, em casos mais graves, depressão; o consumismo e a busca incessante pelo sucesso, entre outros. O objetivo das grandes instituições é tornar a busca pela satisfação uma eterna corrida, ou seja, a pedra que sobe e desce o monte. Rocha que está ancorada na insatisfação humana – a dinâmica do rolar da pedra moderna se mantém no poder por meio do descontentamento e, por consequência, controlando a vontade do indivíduo.
No fim, o mito de Sísifo desnuda uma contemporaneidade movida pela repetição e o declínio de referências mais sólidas e que viabilizem o viver humano em sociedade. Morango do amor, memes, coreografias curtas e virais, tendências, enfim, repetições. Sísifos virtuais subindo e quase alcançando o cume da montanha, entretanto, a pedra continua descendo, rumo ao ponto de partida, isto é, o vazio existencial do qual os seres humanos do agora tanto reclamam.
A cada ano que passa, muitas pessoas possuem o costume de elencar objetivos que não conseguiram realizar no ano anterior. Listas e mais listas de promessas apontadas para o futuro: exercícios físicos, dietas, mudanças de hábitos e assim por diante. Conforme alguns pesquisadores, 90% a 95% das promessas não são cumpridas, e a maior causa é o ânimo do sujeito que vai diminuindo com o passar dos dias.
Diante disso, algumas reflexões são sugeridas: Não será isso mais uma obra do subir e descer da pedra? O raso combustível da repetição? A instantânea satisfação do Sísifo da modernidade? Afinal, o que o ser humano quer para 2026?
EM 2026, PERMANÊNCIA EM JESUS
“Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele permanece em Deus” (1Jo 4.15). Amados irmãos: o que encontrar em um mundo tão despadronizado, repetitivo e esvaziado? Apenas seres humanos tentando se apegar às suas próprias construções, ao seu próprio pecado. Por outro lado, o homem pecador é chamado para uma comunhão com o verdadeiro Deus, Jesus Cristo. Permanecer em Jesus é a certeza de uma vida moldada pela misericórdia e o amor. O que eu quero para mim em 2026? Não. Mas o que Cristo quer para mim em 2026? Permanência nele. Abençoado 2026.
Acesse aqui a versão impressa.


