O gramado da vida

Interações, fases e o cuidado com a família

Miriam Raquel Wachholz Strelhow
Psicóloga
São Paulo, SP
[email protected]

Nos meses de junho e julho, as atenções se voltaram para a COPA DO MUNDO, campeonato de futebol que é realizado a cada 4 anos. Este ano foram previstas 104 partidas disputadas ao longo de 39 dias. Independentemente se você gosta ou não de futebol ou da Copa do Mundo, gostaria de convidá-lo a pensar a partir desse tema sobre as nossas relações familiares e o cuidado da igreja com as famílias.


Interação entre pessoas

A Copa é um campeonato que tem o potencial de reunir, em um mesmo objetivo, pessoas com características muito diferentes:  a) aqueles que acompanham, gostam e torcem por seus times o ano todo em diferentes campeonatos, bem como aqueles que só lembram do futebol porque é Copa; b) torcedores de diferentes times, muitas vezes rivais, que se unem por uma mesma seleção; c) pessoas de diferentes idades – desde criancinhas que estão vendo os jogos pela primeira vez até pessoas idosas que já acompanharam várias copas e trazem na memória conquistas e frustrações anteriores.

Ao pensarmos nas interações presentes nas famílias, para além da possibilidade de convivência entre diferentes gerações, podemos observar que cada membro carrega características individuais únicas, temperamentos distintos e ritmos próprios. Isso traz uma diversidade muito rica para a convivência em um mesmo time, a partir da qual todos podem aprender e se apoiar mutuamente. Por outro lado, traz o desafio da abertura a essa compreensão das individualidades, com a importância de entendimento mútuo e acolhimento às diferentes necessidades. 

 Essa rica mistura espelhada na vida em família, torna-se ainda mais presente ao pensarmos na convivência em comunidade, onde somos chamados a conviver com as diferenças. Na igreja, famílias com diferentes configurações, idades e necessidades coexistem. Olhar para a nossa família e a nossa comunidade da fé através dessa lente, nos ajuda a validar a individualidade de cada um, entendendo que a harmonia não nasce da anulação das diferenças, mas da qualidade das nossas interações.

Fases: no campeonato e nas estações da vida

A Copa, assim como outros campeonatos esportivos, é dividido em fases. Cada fase tem o seu funcionamento previsto; cada etapa tem suas próprias regras e seu nível de exigência. Quem entra na disputa sabe que as estratégias mudam conforme o campeonato avança. Assim também funciona o ciclo de vida familiar. A vida em família não é estática; ela atravessa estações previsíveis, e cada uma delas gera novos desafios e exige novas adaptações.

Por exemplo, no início do casamento há o desafio do casal de reunir duas histórias, descobrirem-se mutuamente nessa nova relação e ajustar as rotinas. Se é um casal que tem filhos, a chegada de cada novo filho vai trazer consigo novas interações, novos papéis e, consequentemente, novas adaptações. Famílias com bebês e crianças pequenas, em geral, vivenciam um momento que exige muita dedicação edoação no cuidado, incluindo momentos de privação de sono e cuidados com a saúde. Famílias com filhos adolescentes vivenciam um momento precioso deles de consolidação da identidade, e precisam novamente se reorganizar. É importante que haja renegociação de limites e novas estratégias de convivência e amparo.

Quando esses filhos se tornam adultos, novamente a família se depara com novos arranjos. Alguns filhos vão estudar ou trabalhar em outra cidade; outros se casam e formam suas famílias. Mesmo para aqueles casais que vivem com os filhos adultos na mesma casa, a rotina é diferente e marcada por maior independência. É momento de redescobrir novas possibilidades no vínculo conjugal bem como no vínculo e na convivência com os filhos e suas famílias. Com o processo do envelhecimento, todas as famílias precisarão lidar com as necessidades e limitações vividas.

Fatos inesperados, como conquistas, novas atividades de trabalho, mudanças de moradia, bem como doenças, acidentes e perdas de pessoas da família, também se apresentam como fatores que demandam desse time atenção e adaptação. Cada fase tem suas necessidades específicas. Compreender esses momentos e buscar uma forma de adaptação em conjunto, gera resiliência. Quando a família percebe as dificuldades ou possíveis crises como parte de uma fase de transição (e não de um fracasso), ela encontra forças para se readaptar, fundamentada no amor e na paciência mútua.

A igreja pode ser uma grande fonte de amparo e acolhimento para as famílias em cada uma das fases do ciclo familiar, bem como diante dos fatos da vida. Reconhecer as diferentes vivências, manter espaços de compartilhamento, identificação e acolhimento de suas necessidades podem fazer muita diferença.                               

Disputa x cooperação

Nesse ponto podemos perceber que reside a principal diferença entre o esporte e a vida familiar e comunitária. A Copa é, por definição, uma disputa. Para que um time vença e celebre, outro precisa sofrer a derrota. Mesmo que haja convivência pacífica entre os times, momentos de celebração e cumprimentos, o objetivo último é superar o outro.

Na família – bem como na igreja – a lógica é exatamente inversa. A vida familiar exige cooperação, não competição. Não há espaço para o “ganha-perde” dentro do mesmo lar; ou todos ganham juntos, ou todos perdem. Essa é uma dimensão que precisa ser reforçada e valorizada, pois se o objetivo é viver em cooperação, as atitudes precisam refletir isso. Não quer dizer que não haverá conflitos. Divergências, opiniões contrárias, desejos distintos, necessidades individuais estão presentes nas relações entre duas ou mais pessoas – como já discutido acima. Mas se o objetivo é vencerem juntos, o olhar é pela adaptação conjunta; pelo apoio e a busca de soluções que valorizem os propósitos da família.

A igreja, por sua vez, deve ser o espaço seguro onde as famílias encontram suporte mútuo. É uma comunidade de famílias que não lutam entre si; não são concorrentes…. nem do ponto de vista espiritual nem social. São cooperadores. Quando uma família enfrenta a “prorrogação” exaustiva de uma crise, as outras podem se aproximar para dividir as cargas, estender a mão, acolher e oferecer consolo e oração.

Um dos pontos importantes e sensíveis nesse cuidado é a atenção com o bem-estar de todos. À medida que nos aproximamos de setembro, o mês de conscientização da campanha Setembro Amarelo, lembramos que a saúde mental não é um evento isolado de tempos em tempos, como a Copa; ela é construída no cotidiano das nossas interações e se relaciona também com a forma com que gerenciamos as dificuldades e necessidades de cada fase da vida, tanto como indivíduos como quanto membros de uma família.

Cuidar da saúde mental, sob a perspectiva cristã, é também cumprir o mandamento do amor. É admitir que, às vezes, o cansaço bate e a mente adoece. É reconhecer que precisamos cuidar e ser cuidados; e que podemos em cada etapa da vida buscar em nossas interações com a família e a igreja, construir um ambiente de acolhimento e escuta, com atenção e cuidado com todos.

Que possamos, como famílias e comunidade, jogar no mesmo time — o time da cooperação, do cuidado mútuo e da vida em harmonia, festejando as pequenas e grandes vitórias cotidianas.

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