O lastro da fé em ano eleitoral

JEAN REGINA
@jeanregina

THIAGO VIEIRA
@th_vieira

         Anos eleitorais testam o caráter de uma sociedade. Neles, cresce a tentação de trocar discernimento por excitação, consciência por slogans e responsabilidade por alinhamentos apressados. Também os cristãos sentem essa pressão. Uns são levados a esconder a fé para parecer razoáveis. Outros, a converter a fé em ferramenta de disputa. Nenhum desses caminhos faz justiça à vocação cristã.

        A tradição luterana oferece aqui uma clareza especialmente necessária. A doutrina dos dois reinos não expulsa a fé da vida pública, nem permite que a igreja se confunda com o poder temporal. Deus reina por sua Palavra, criando fé, perdoando pecadores e formando consciências. E reina também por meio das estruturas temporais, contendo o mal e preservando a ordem externa. Essa distinção não enfraquece o testemunho cristão. Ao contrário, dá a ele lucidez, sobriedade e medida.

       Em ano eleitoral, isso importa ainda mais – e dá uma contribuição inestimável à nossa sociedade como um todo. A igreja não foi chamada para administrar paixões políticas, mas para anunciar Cristo. Sua missão não é fabricar salvadores terrenos, e, sim, formar consciências cativas à palavra de Deus. Ao mesmo tempo, o cristão, em sua vocação civil, não está dispensado da vida pública. Ele vota, avalia, compara, delibera e participa (inclusive concorre, é eleito e exerce mandatos políticos). Mas o faz sem idolatria. Não entrega a alma ao entusiasmo das campanhas, nem submete a verdade ao cálculo da conveniência.

       É justamente aqui que a liberdade religiosa assume relevo especial. Ela não protege privilégio eclesiástico, mas um limite do poder. Recorda que a consciência não pertence ao Estado, que a fé não pode ser reduzida a ornamento privado e que comunidades religiosas não existem por tolerância ideológica, mas por liberdade originária. O direito religioso, nesse ponto, presta um serviço silencioso e profundo à ordem democrática: lembra que o poder civil não é senhor da alma.

       Mas essa liberdade também exige maturidade cristã. Nem silêncio envergonhado, nem agitação travestida de zelo. A Palavra não autoriza covardia, mas também não legitima confusão de vocações. O púlpito não é palanque. E a praça pública tampouco um lugar interditado à consciência cristã. O que se requer é fidelidade com discernimento, presença com humildade, firmeza sem dureza.

       Toda sociedade precisa de lastro. Como um navio em mar aberto, não se sustenta apenas por velocidade, técnica ou propaganda. Precisa de peso moral, memória, sentido de dever e linguagem comum sobre dignidade, verdade e limite. A herança cristã continua sendo uma de nossas reservas mais profundas.

        O cristão, portanto, não vive dividido entre um domingo de fé e uma segunda-feira neutra. A Palavra que o reúne no culto é a mesma que o envia de volta às suas vocações no mundo. Na igreja, ele recebe consolo, instrução e correção; na sociedade, ele serve. Serve no lar, no trabalho, na escola, na universidade, na empresa, na política e em todo lugar em que Deus o tenha colocado. Não para impor a fé pela força, mas para deixar que a fé molde sua consciência, sua linguagem, sua integridade e sua responsabilidade diante do próximo.

         Se o Brasil quiser atravessar o ruído eleitoral sem perder a alma, precisará de cristãos que saibam servir sem se vender, falar sem gritar e discernir sem temer. Em tempos de tanto ruído, talvez esse já seja um grande testemunho: permanecer fiel à Palavra, conservar a boa consciência e servir ao próximo com esperança responsável, uma fé ativa no amor ao próximo, também na arena pública.

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