Sou crente, batizado em nome de meu Deus

Em minha igreja, a Congregação Evangélica Luterana Concórdia, de São Leopoldo, RS, tivemos, há pouco tempo, dois batismos de crianças em menos de um mês. Talvez seja impressão de quem está envelhecendo – ah, os bons velhos tempos! – mas parece que temos menos batismos ultimamente. Na verdade, porém, a estatística da IELB mostra que o número se mantém mais ou menos estável nos últimos tempos: são em torno de três mil batismos por ano, numa média de seis ao ano em cada paróquia.

Lembro que, nos tempos da juventude, quando a gente via o hino do batismo entre a lista de hinos, sentava resignado, tentando se preparar mentalmente para o fato de que o culto seria mais longo. Hoje não é muito diferente, sinal de que a velha natureza também vai para o culto. No entanto, o momento do batismo, além de ser um momento de alegria diante da graça de Deus, poderia ser também um momento de reflexão, de lembrança do fato de que também eu sou batizado (Há pastores que até convidam as crianças a virem à frente, para presenciarem o batismo mais de perto, lembrando-as que, do mesmo modo, elas também foram batizadas. Acho uma boa ideia).

Em minha igreja, o pastor costuma realizar o batismo próximo ao momento da confissão da fé (o Credo Apostólico). A rubrica que aparece no início da liturgia do batismo, no livro do pastor, indica que o batismo pode acontecer no começo do culto, após a Invocação, podendo também ser realizado após a oração geral da Igreja. Isso, por si só, já revela que o batismo não tem uma localização fixa dentro do culto.

Sei que isto pode render uma longa discussão, mas cabe a pergunta: o batismo poderia ser realizado fora do horário de culto? Lembro-me de um colega pastor, muito irritado, reclamando que, não longe do Seminário Concórdia (como se coubesse ao Seminário fiscalizar tudo!), uma congregação realizava o batismo antes do culto ou depois, supostamente para não deixar o culto “muito comprido”. Continuo achando que não há por que não realizar o batismo durante o culto. No entanto, Lutero certamente não foi batizado durante uma missa, um dia depois de seu nascimento. Hermann Sasse, que escreveu extensamente sobre os sacramentos (mais sobre a Santa Ceia do que sobre o Batismo), informa que, antes de Calvino e da Igreja Reformada, o batismo não era realizado diante da congregação reunida em culto. Na Igreja Antiga, o batismo era administrado fora da sala de culto. Em muitos templos, a pia ou fonte batismal ficava (e ainda fica) na entrada, o que com certeza impedia a realização do batismo durante o culto. Faz mais sentido batizar diante da congregação quando se entende o batismo como um testemunho de fé. Quando se vê o batismo como ação de Deus, como sacramento, não haveria por que batizar na presença da congregação. Mas temos a liberdade de realizar o batismo dentro do culto. E, em muitos casos, é a única ocasião que se tem para realizá-lo.

Indiquei, no início, que o momento de realização de um batismo é uma boa hora para a gente se lembrar de que também foi batizado. Fui batizado. Melhor, sou batizado. Esta é uma dimensão do batismo que aprendemos com Lutero. O batismo não é um ato que ficou no passado; ele se renova diariamente. Ao perguntar sobre o significado do batismo, no Catecismo Menor, Lutero nos ensina a responder, com base em Romanos 6, que o batismo “significa que o velho homem em nós, por contrição e arrependimento diários, deve ser afogado e morrer com todos os pecados e maus desejos, e, por sua vez, sair e ressurgir diariamente novo homem, que viva em justiça e pureza diante de Deus eternamente”.

O hino 251 do Hinário Luterano, com texto de Rodolfo Hasse, expressa isso muito bem. Começa com a confissão: “Sou crente, batizado em nome de meu Deus”. Depois, ele me ensina a confessar que fui juntado aos santos, revestido do Salvador Jesus, remido, renascido por graça. E então seguem duas estrofes muito importantes: “Inquieta-me o pecado? Não devo mais temer. De todo perdoado, não posso perecer. Fugindo mesmo os montes, meu Deus será fiel, não secarão as fontes da graça de Israel”. Sou batizado. Isso é grande consolo! Que seja assim sempre.


*Texto publicado na edição de setembro do Mensageiro Luterano.

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