Trabalho e descanso sob a ótica bíblica

Quanto tempo você dispõe para descansar daquilo que está fazendo? Nos esportes, por exemplo, existem os intervalos para que os atletas possam descansar e reiniciar os jogos. Depois de um ano de trabalho, os trabalhadores têm direito a um período de férias. Os alunos têm férias escolares. Os motoristas precisam parar de dirigir para um descanso, durante a viagem. E assim poderíamos elencar diversas situações em que o descanso das atividades ou do trabalho se faz necessário para o indivíduo.

Em seu amor e plenitude, até nisso Deus orienta as pessoas. Em Gênesis, por exemplo, lemos que ele fez todas as coisas e descansou no sétimo dia. Quando ordenou os mandamentos, também dispôs um deles para ser observado como sendo o dia do descanso. Em Êxodo 20.8-11, está escrito: “– Lembre-se do dia de sábado, para o santificar. Seis dias você trabalhará e fará toda a sua obra, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, seu Deus. Não faça nenhum trabalho nesse dia, nem você, nem o seu filho, nem a sua filha, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu animal, nem o estrangeiro das suas portas para dentro. Porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou”. Aqui se percebe a necessidade de descanso para o corpo e a mente, inclusive para os animais.

Vivemos numa sociedade do trabalho. O mercado de trabalho é cada vez mais exigente e parece que tem sufocado as pessoas. O preparo, a capacitação, tudo isso é muito necessário para o indivíduo que precisa trabalhar. Isso significa que o trabalhador, além de cumprir com as demandas de sua função, para não perder a oportunidade de trabalho, precisa também estudar, capacitar-se, para não ser ultrapassado por outros ou ficar desempregado. Há ainda uma pressão psicológica, muitas vezes, ou por estar num ambiente hostil, ou por não se relacionar bem com o chefe ou, ainda, porque o rendimento foi aquém do esperado. De certa forma, isso tem trazido problemas de qualidade de tempo também com a família. Como a família tem pouco tempo para descansar e, no caso de pessoas fiéis às suas igrejas e que gostam de participar de suas atividades, nem mesmo de tempo para cultuar a Deus elas dispõem. Esse é o contexto social em que nós nos encontramos. Até onde podemos ir ou até onde isso é possível, é a pergunta que fazemos.

Então precisamos encontrar caminhos para trilhar na modernidade. A família, cada vez mais, precisa estar estruturada nessa dimensão. Porém, mesmo assim a pressão familiar também é grande. Quem nunca trabalhou preocupado com o que estava passando em casa? Crises conjugais, filhos doentes ou que trazem problemas, etc.? Muitos não conseguem separar trabalho e família. Até mesmo ao chegar em casa, muitas vezes, levam as tensões da jornada profissional para dentro de casa, criando ambientes difíceis com o cônjuge ou com os filhos.

Aliada a isso, ainda há a formação exigida para o trabalho. Cada um deve procurar estar o mais qualificado possível. O momento é propício para se buscar por uma qualificação melhor, uma graduação ou pós. Mas cada um deveria pensar no que isso significa para a sua vida. Por que estudo? Onde e por que quero chegar lá?

É bom não esquecer que estamos procurando pelos melhores caminhos dentro da modernidade que está aí, mas esse buscar não pode estar “descasado” do projeto de Deus para as nossas vidas. Pense no que Deus espera de cada um de nós. Nessa direção, há um texto que merece reflexão: Eclesiastes 4.7,8 – “Então considerei outra vaidade debaixo do sol: um homem sem ninguém, que não tem filhos nem irmãos, mas que não cessa de trabalhar e cujos olhos não se fartam de riquezas. E ele não pergunta: ‘Para quem estou trabalhando, se não aproveito as coisas boas da vida?’ Também, isto é, vaidade e enfadonho trabalho”. Este texto indica a importância do trabalho para a nossa vida, mas dentro de uma visão equilibrada, pois os abusos ou os excessos são prejudiciais ao ser humano.

Há dois textos bíblicos específicos sobre a necessidade e a finalidade do descanso, em Êxodo e Deuteronômio. O texto de Êxodo, mencionado acima, argumenta que Deus fez todas as coisas em seis dias e descansou no sétimo, numa alusão à criação de tudo. Já o texto de Deuteronômio traz outro detalhe a respeito do dia do descanso. Nele está escrito: “Guarde o dia de sábado, para o santificar, como o Senhor, seu Deus, lhe ordenou. Seis dias você trabalhará e fará toda a sua obra, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, seu Deus; não faça nenhum trabalho nesse dia, nem você, nem o seu filho, nem a sua filha, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento ou qualquer outro dos seus animais, nem o estrangeiro das suas portas para dentro, para que o seu servo e a sua serva descansem como você. Lembre-se de que você foi escravo na terra do Egito e que o Senhor, seu Deus, o tirou de lá com mão poderosa e braço estendido. Por isso o Senhor, seu Deus, ordenou que você guardasse o dia de sábado (Dt 5.12-15). Aqui percebemos que devemos cessar de trabalhar para lembrar da libertação da escravidão.

Assim, quando olhamos a ordem de Deus sobre o descanso, entendemos algo além de descansar o corpo. O mandamento diz “Santificarás o dia do descanso”, e significa que devemos temer e amar a Deus e, portanto, não desprezar a pregação e a sua Palavra, mas considerá-la santa, gostar de ouvi-la e aprendê-la. Resumindo, precisamos cessar de trabalhar (intervalo) para descansar e:

a) para contemplar as obras de Deus (nossos passeios também têm esta finalidade);
b) para ouvir a pregação da sua Palavra (ensino);
c) para lembrar de Jesus, que nos deu a Salvação eterna;
d) para reparar o corpo e a alma, renovar nossa disposição e continuar servindo ao Se-nhor, tendo em vista a nossa jornada de trabalho diária.

Por essas razões nós nos reunimos como família. Nós nos reunimos na igreja. Nós nos alimentamos dos meios da graça (Palavra e sacramentos) e preservamos a nossa identidade cristã. Assim também podemos fazer diferente neste dia do descanso, para depois voltar à rotina de trabalho. Sair do trabalho, reunir as nossas forças, estar na presença do Senhor, é buscar por qualidade de vida, saúde e espiritual e equilíbrio de nossas emoções. Queremos ter prazer e alegria em continuar servindo a Deus, também com o nosso trabalho.

Deus tem abençoado o trabalho, e se não estamos fazendo as coisas adequadamente, este é o momento de realinharmos novamente a nossa vida. O perdão também nos é concedido, e acreditamos plenamente que o temos da parte de Cristo. “Nem 8 nem 80”, é um jargão popular. Busquemos, então, com equilíbrio, pelos melhores caminhos, na certeza de que Deus também está observando e nos acompanhando.

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