Um querer chamado saudade

Artur Charczuk
Pastor e psicanalista

Não existe uma pessoa no mundo que não tenha sentido saudade. Na verdade, esse sentimento dá um ar de mistério, dado que ele é circunstancial, mas que almeja pela eternidade. Por exemplo: “Como seria bom se o fulano ainda estivesse por aqui”.

E quando a saudade vem, leitor, é um sentimento intenso. A pessoa sente a saudade até no corpo – a garganta parece apertar, os olhos marejam, o peito se esvazia… sim, é saudade! A saudade cria corpo, cria forma sobre o ser humano. O passado é como uma caixinha repleta de momentos, de saudades: do cheiro da comida da mãe, das corridas pelas ruas do bairro com os amigos, do bichinho de estimação, da voz do pai e assim por diante. Saudade, simplesmente saudade.

Por detrás da saudade existe o querer, um querer que nem sempre é possível de realização. Resta a ausência, com isso, sua energia é direcionada para o passado, lá nas lembranças. O sentimento de ausência abastece memórias e lembranças. Lá no palco do passado, as memórias são reavivadas, gerando sentimentos de dor e felicidade. Você até fica feliz, mas é algo breve, pois você volta para o presente, você percebe que o ente querido ainda está lá, no passado, nas memórias, na saudade.

Enquanto escrevo, lembro de Manuel Bandeira que assim escreveu: “Choras sem compreender que a saudade/ É um bem maior que a felicidade/ Porque é a felicidade que ficou”. Em outras palavras, a saudade revela o quanto amamos e fomos amados. O indivíduo quer transformar o passado em seu mais genuíno presente. Sim, o amor atravessa o tempo, querendo rimar com a eternidade – o amor quer ser eterno. O sentimento de perda é a prova cabal do amor, isto é, o esposo(a) que sente a ausência do cônjuge – ali houve amor.

A saudade reflete o amor. Se existe saudade no presente, houve amor no passado. E assim o ser humano vai… diante da finitude, para tentar driblar o que se foi, ele vai entrelaçando-a com a saudade – onde a frágil linha da finitude parece tremer, ela é reforçada com o refúgio da saudade.

Sim, saudade é algo intrínseco no ser humano. Ela é a testemunha das vivências do sujeito. Se você sente saudade, leitor, você viveu. Você traz sentimentos que foram vibrantes, que fizeram sentido. Recordar é viver e a saudade te permite reviver certos sentimentos. É algo tão humano, tão nosso, mas não podemos inverter “o recordar é viver”, isto é, “viver é recordar”. É bom visitar o passado, mas a pessoa não pode ficar lá; o presente chama para voltar e continuar. Convida para novas experiências, acontecimentos, amizades e, no final, novas saudades. Na verdade, a saudade circunda o ser humano diariamente – o que é uma amizade hoje, amanhã se tornará uma saudade.

Por fim, a saudade e seus tantos caminhos buscam um único: a exaltação do amor. Quando a saudade apertar, ore a Deus, converse com Cristo. Pois ele sempre tem saudade de seus filhos(as).

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