Não nos falta templo quando vivemos o amor

Esta reflexão surgiu a partir de um verso da música One, da banda irlandesa U2. “Love is a temple” – canta Bono Vox. Eu já havia escutado essas palavras diversas vezes. Mas, ao escutá-las quando a igreja não podia se reunir em seus templos, por restrições do contexto da pandemia de 2020/2021, eu me perguntei: Será que o amor pode mesmo ser como um templo nestes tempos tão atípicos?

Sabemos que Cristo é o verdadeiro Templo! Templo, sacerdote e sacrifício. E sabemos, também, que nós somos templo do Espírito Santo! O verso da música não é trazido para concorrer com as afirmações do Novo Testamento. O amor de que aqui se trata só é possível, na verdade, pela ação do Espírito em nós. Só pode haver amor como templo, de alguma forma, se somos templo do Espírito. Da mesma forma, só pode acontecer tudo isso, porque o Filho se encarnou. Façamos assim nossa pergunta: O amor é uma forma de liturgia acontecendo em qualquer lugar, como se, no amor, percebêssemos um templo portátil, com culto a todo tempo, em todo e qualquer contexto?

Antes de seguir, consideremos aquele leitor que já pensa em abandonar o texto questionando: “E por que importaria pensar nisso?”. Em primeiro lugar, porque, se os templos de tijolos e cimento tiverem que estar fechados por um tempo, o amor pode ser um outro lugar de culto disponível! “Mas templos fechados de novo? Como poderia acontecer isso?”. Há pouco tempo, de fato, só imaginaríamos uma situação assim no caso de perseguição religiosa severa. Mas descobrimos a duras penas que algo inesperado, como um pequeno vírus, pode exigir uma suspensão das reuniões em geral, fechando restaurantes, shoppings, templos religiosos… Além disso, em segundo lugar, ter isso melhor refletido pode nos ajudar a aproveitarmos bem o tempo fora do templo, mesmo em tempos normais, quando participamos de celebrações da congregação.

Então, sigamos na reflexão. Precisamos saber o que acontece em um culto no templo de pedra, para que possamos procurar na vivência do amor um paralelo que justifique falar do amor como templo.

O Templo, nos velhos tempos do Antigo Testamento, era como um lugar de intercessão entre o divino e o humano. Ali, Deus se aproximava do povo. Por outro lado, não se realizava somente um movimento de Deus em direção às pessoas. Também havia uma resposta do ser humano direcionada a Deus. O próprio canto, quando introduzido no culto do Templo, era profético (a mensagem de Deus chegando ao povo reunido) e, também, para o louvor (o povo reagindo à grandeza e à bondade de Deus). Esse duplo movimento permanece no culto cristão até hoje. Mas a restrição geográfica, com um lugar especial de intercessão entre o humano e o divino, o grande Templo em Jerusalém, perdeu sua relevância com a encarnação do Filho. Ele mesmo o assinala conversando com aquela samaritana junto ao poço de Jacó, em João 4. Nós vivemos essa nova realidade!

Então, será que encontramos esse duplo movimento (de Deus para as pessoas e das pessoas para Deus) na vivência do amor ou só mesmo nas reuniões das congregações?

Nós louvamos a Deus quando agimos em amor. Desde muito cedo, está dito que Deus quer que amemos o próximo (Lv 19.18). Quando agimos em amor, cumprimos a vontade de Deus. Mas Jesus nos faz saber mais. Não apenas orienta e aprova a ação de amor. O próprio Cristo recebe essa obra de amor, como sendo realizada para si mesmo pela pessoa cristã, como lemos em Mateus 25.31-46. Se faz falta lembrar: “Porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; eu era forasteiro, e vocês me hospedaram; eu estava nu, e vocês me vestiram; enfermo, e me visitaram; preso, e foram me ver”. Quando você socorre alguém em necessidade por amor, é como se o fizesse ao próprio Cristo! Não podemos nos esquecer disso!

Mas alguém pode se incomodar: Será que essa conversa está de acordo com a doutrina luterana, que enfatiza a salvação por graça mediante a fé somente?

Realmente, em alguns de nossos discursos, a ênfase no fato de que todo o mérito para nossa salvação é o mérito de Cristo pode fazer parecer que não fazemos nada que agrade a Deus. Fica parecendo que, mesmo batizados e mesmo ouvindo a Palavra e querendo vivê-la, continuamos fazendo somente coisas perversas e que desagradam o nosso Senhor. Parece que toda a reação de Deus a nós é exclusivamente a de nos perdoar. Isso não é bem verdade ou, pelo menos, não toda a verdade. É certo que nossas ações continuam manchadas pela contradição, pelo pecado, sendo aceitas somente pela fé. Mas há mais história para contar.

Em seu tratado Da Liberdade Cristã, Lutero diz que a pessoa que já recebeu o perdão de Cristo, e já vive a justificação pela fé, “faz tudo por mera liberdade, gratuitamente, qualquer coisa que faça, não buscando seu proveito ou salvação uma vez que já está satisfeita e salva pela graça de Deus a partir de sua fé mas somente o beneplácito de Deus”. Nós cremos, de fato, que devemos fazer tudo “para a glória de Deus”, como afirma o reformador. E essa percepção não é algo pessoal de Lutero somente. Melanchthon afirma o mesmo na Apologia da Confissão de Augsburgo (XII, 139). É bom frisar: as obras que praticamos em amor não visam somente o bem do próximo, das pessoas que estão ao lado, mas apontam para cima!

Certamente, não se trata de obras que nos façam ter a salvação, mas, sim, de obras que fluem da fé salvadora. E essas obras são mesmo agradáveis a Deus, como aprendemos na Fórmula de Concórdia (DS IV, 9).

E tem mais. Além de considerar agradáveis essas obras de amor, Deus quer nos recompensar por elas. Isso mesmo! Deus nos recompensa pelas boas obras! Vale a pena ler o seguinte trecho da Apologia da Confissão de Augsburgo:

“Também confessamos isto, o que frequentemente foi testemunhado por nós: ainda que a justificação e a vida eterna pertencem à fé, boas obras merecem, contudo, outros prêmios corporais e espirituais, bem como graus de recompensa, conforme o texto: ‘Cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho’ [1Co 3.8]. Pois a justiça do evangelho, que gira em torno da promessa da graça, recebe, gratuitamente, a justificação e a vivificação. Mas o cumprimento da lei, que se segue à fé, tem que ver com a lei, na qual um galardão é oferecido e devido, não gratuitamente, senão por nossas obras” (Apol. IV, 366).

Pois então, você já deve ter percebido que o amor vivido entre nós não é algo que fica somente entre nós, como se Deus tivesse dado a ordem e deixado que nos virássemos, sem interesse no que aconteceria em um plano diferente do dele. Ele se importa! Quando fazemos o bem em amor a um semelhante, é a ele que o fazemos! E ele não fica inerte, mas se agrada e recompensa!

Pode parecer que esse “culto” vivido no amor diário só tem um movimento de nossa parte em direção a Deus, pelo que vimos até aqui, sem que sejamos edificados também. Isso seria um problema, porque, quando falávamos do templo no Antigo Testamento, vislumbramos um duplo movimento.

Está claro que nós agradamos a Deus amando ao próximo! Mas há um aspecto ainda mais esquecido: quem age em amor diante do próximo tem em suas obras um sinal e testemunho da ação do Deus perdoador em sua vida, em seu favor. Não é que a boa obra conquiste perdão, mas, realizada na fé, ela testemunha sobre a ação de Deus. Não é algo mecânico, assim como não é algo mecânico que acontece na Ceia do Senhor. Melanchthon, por sinal, compara as boas obras aos sacramentos! Praticar o bem é um movimento a partir da fé e em favor da fé nas promessas de Deus! “E os que não praticam o bem, não se movem a crer, mas desprezam aquelas promessas”  (cf. Apol. IV, 275-276).

Recuperando tudo o que foi conversado até aqui, eu resumo: O templo do amor vivido, como o Templo de Israel com seus cânticos, é orientado por Deus; nele, testemunha-se sobre Deus (“para a glória de Deus!”); há ali algo feito para ser agradável a Deus e isso é atentamente considerado por Deus; ali, também, o ser humano é fortalecido na fé ao saber da ação de Deus.

Vale a pena lembrar de uma frase muito dita entre nós: “Deus não precisa das nossas obras, mas o nosso próximo sim”. Gustaf Wingren, que a escreve a partir do pensamento de Lutero, completa: “É a fé que Deus quer”. Eu lembro dessa frase para complementá-la. Falta algo! Melhor seria dizer: Deus não precisa das nossas obras, mas o próximo sim. Além disso, Deus as quer! Ele não ignora a necessidade do próximo, e, por isso, quer que as nossas boas obras sejam realizadas.

Deus quer a fé! Mas ele quer e faz existir uma fé viva, que nunca vem sem a companhia da esperança e do amor! Não nos iludamos: as boas obras não são coisa alheia a Deus! Ele as quer, sim, mesmo sem delas precisar!

Ora, mas, se Deus valoriza de tal forma nosso dia a dia vivido em amor, se o podemos considerar como um culto sem paredes, por que valorizamos o culto da comunidade reunida? Por que não consideramos como algo dispensável a congregação? Não, não há uma competição aqui.

Convém lembrar do início da reflexão. Eu dizia que o que me moveu a essa conversa foi a música escutada durante o tempo da impossibilidade da reunião. Em situação normal, é especialmente na reunião que somos edificados para vivermos a fé em amor no dia a dia. É na Santa Ceia que recebemos fortalecimento da fé, e, com isso, “ardente caridade para com o nosso próximo”. É junto com os irmãos que confessamos nosso pecado e recebemos o perdão, para servirmos em liberdade. É ali, também, que escutamos a proclamação do evangelho, que nos move! Tudo isso, em vez de competir com o culto diário, o sustenta e viabiliza! O que se revela, então, é que precisamos ser fortalecidos no tempo de normalidade, para que não nos sintamos afastados de Deus em um período de anormalidade. Poderemos reconhecer o culto que é realizado nos mais simples gestos da vida, nos relacionamentos interpessoais que vivenciamos cotidianamente.

Se por vírus, terremoto ou qualquer coisa inesperada, você não puder participar de uma reunião, participar da santa liturgia em uma capela, comece cada santa manhã em um verdadeiro culto a Deus, dizendo bom dia de forma carinhosa a quem está com você, fazendo um esforço pelo bem do próximo em todos os seus passos!

Você está aqui para ser servir a Cristo em cada relacionamento. Para isso, também, você recebe forças junto da congregação. Para isso, também, você tem comunhão com Cristo junto à mesa do Senhor: para poder encontrá-lo, pelos caminhos da vida, no semelhante necessitado.

Cesar Motta Rios

Pastor

Miguel Pereira, RJ

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