O bom samaritano em tempos de coronavirus

O que supera o valor de uma vida? Quem é meu próximo? Quem é meu vizinho? Quem são os necessitados? Quem são os violentos? Por que Deus permite que o mal aconteça? O que eu, em Cristo, declarado justo por Deus, faço para promover a justiça, para diminuir a dor, para remover o mal? “Que devo fazer para herdar a vida eterna?”

No caminho de Jerusalém a Jericó alguém foi assaltado; o nome não importa, era um infeliz como tantos. Os malfeitores abandonaram o saqueado à beira da estrada, despido, ferido – quase à morte. Um sacerdote, embora percebesse a situação deplorável, afastando-se, não interrompeu a marcha, compromissos urgentes o chamavam. A atitude de um homem da lei não foi mais cordial. Veio um samaritano, aproximou-se do molestado, tratou-lhe as feridas e o levou a uma estalagem. Pagando as despesas e responsabilizando-se por gastos futuros até o restabelecimento do injustiçado, o samaritano continuou viagem. O episódio foi narrado por Jesus.

Embora conheçam o dever de auxiliar os necessitados, o sacerdote e o homem da lei movem-se atrelados a mais elevadas obrigações; profissionais responsáveis, nada os desvia das tarefas previstas, nem mesmo uma pessoa à beira da morte. Ainda que as relações entre israelitas e habitantes de Samaria não fossem fraternas, o samaritano não se preocupou em apurar a identidade do necessitado; acima de hipotéticas diferenças, constatar que se tratava de uma pessoa em estado deplorável bastou para levá-lo a agir; não lhe passou pela cabeça calcular gastos. O que supera o valor de uma vida?

Como nos relacionamos com os demais? Pela fala, pelo mercado, pela música, pelas artes, por competições esportivas… Reuniões presenciais estão temporariamente proibidas. O aperfeiçoamento da comunicação traz imagens e vozes de quaisquer partes do mundo aos ambientes em que vivemos confinados. Quem é meu próximo? Quem é meu vizinho? Tenho familiaridade maior com entes do outro lado do globo do que com pessoas das quais só a parede me separa. Vencemos grandes distâncias em instantes, vizinhança não garante proximidade.

Quem são os necessitados? Desempregados, famintos, sem teto, migrantes, feridos, doentes. Temores nos distanciam dos que nos abordam, evitamos contaminação. Imagens de matança, de fome, de acidentes, de violência entram em minha casa. Mas sem risco! Grades de ferro me afastam de carentes, portas fechadas diminuem o risco de contaminação, acompanho triunfante em imagens televisivas a detenção de malfeitores, progressos no combate ao mal. Acompanho com tranquila objetividade estatísticas de enfermos e mortos, mãos amigas me alcançam o necessário, respeitado o afastamento prescrito. Aplaudo o trabalho de profissionais da saúde.

Quem são os violentos? O violento dos violentos é agora a pandemia universal.

A Escritura faz diferença entre adormecidos e despertos; concentrado em meus interesses, posso fechar os olhos a tudo, a todos. Se ressuscitamos para a vida eterna, não se justifica que vivamos anestesiados para os males de agora. A vida cristã não tolera exclusões. Paulo é enfático, não se faça diferença entre naturais e estrangeiros, homens e mulheres, escravos e livres – o Redentor congrega, todos somos um em Cristo. O dia de Pentecostes aproxima muitos idiomas, os discípulos de Cristo santificaram a língua grega, o Espírito Santo sacraliza todas as maneiras de falar.

Cristo veio para trazer justiça a um mundo injusto. A justiça que nos foi dada não é inoperante, compreende o conjunto de ações para o bem de todos. A pluralidade conjuga habilidades, excluídos como o samaritano nos dão lições de convivência. Frente à injustiça, soa com frequência a pergunta: por que Deus permite que o mal aconteça? Urge perguntar o que eu, justificado, faço para promover a justiça, para diminuir a dor, para remover o mal? Deus age em mim, age no samaritano que não era sacerdote nem homem da lei.

“Que devo fazer para herdar a vida eterna?” – pergunta o homem da lei a quem Jesus conta o que aconteceu longe de Jerusalém. Quem herda a vida eterna, mora na vida eterna. Tem sentido que herdeiros da vida tolerem a morte? Posso ser indiferente ao fato de a assistência médica beneficiar alguns e desamparar milhões? Que retribuição posso esperar de alguém a quem foi negada a oportunidade de se alimentar, de se instruir, de se locomover, de se resguardar, de se curar, de esperar? O mercado é global, não é justo que exclua bilhões. Como permitir que indiferença – notória no homem da lei e no sacerdote – moleste os que nos cercam? No mundo globalizado, a responsabilidade é global.

Aparelhos que apontávamos como causa de isolamento são agora instrumentos com que nos aproximamos. A pandemia que nos assola mostra-nos que, feitos à semelhança do Criador, temos o privilégio de levar conforto a muitos.

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