Atos dos Apóstolos nos domingos de Páscoa?

Qual é a conexão entre Atos dos Apóstolos e Páscoa? Ela já aparece no versículo-tema do livro, que é Atos 1.8. Quando Jesus disse aos seus discípulos, “vocês serão minhas testemunhas”, isso significava que seriam testemunhas da ressurreição

Sim, nos sete domingos de Páscoa (que são os domingos entre Páscoa propriamente e a festa de Pentecostes), faz-se a leitura de textos tirados do livro de Atos dos Apóstolos. Isso é assim nas igrejas que adotaram a Série Trienal de leituras bíblicas para o culto, incluindo a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Essas leituras do livro de Atos dos Apóstolos entram em lugar das leituras do Antigo Testamento. Por isso, dizemos “primeira leitura” e não “leitura do AT”. Atos, um livro do Novo Testamento, não é evangelho nem epístola. Então, ele como que “pede licença” ao Antigo Testamento para “dar seu recado” nesses domingos de Páscoa.

Mas será que Atos dos Apóstolos tem relevância para a Páscoa? É claro que tem. Esse livro é uma das respostas à pergunta: “Depois da ressurreição de Jesus, o quê?” Em outras palavras, o que Cristo faz após a ressurreição e a ascensão? Uma resposta se encontra no livro do Apocalipse: Cristo é o Cordeiro/Leão da tribo de Judá, Senhor dos senhores, segurando as chaves da morte e do inferno (Ap 1.18). A outra resposta vem do livro de Atos: “Cristo está continuando sua obra (At 1.1) aqui na terra por meio de suas testemunhas que atuam no poder do Espírito Santo (At 1.8)”.

Diante disso, uma das coisas que talvez tenhamos de fazer é rever nosso conceito quanto ao livro de Atos. Dizemos que Atos, mais do que Atos dos Apóstolos, é Atos do Espírito Santo. No entanto, no livro de Atos, o nome “Jesus” aparece mais vezes (69, no texto grego) do que a palavra “Espírito”, em referência ao Espírito Santo (52 vezes, no texto grego). Assim, Atos dos Apóstolos é também, ou especialmente, um livro que trata de Jesus Cristo!

Mas qual é a conexão entre Atos dos Apóstolos e Páscoa? Ela já aparece no versículo-tema do livro, que é Atos 1.8. Quando Jesus disse aos seus discípulos, “vocês serão minhas testemunhas”, isso significava que seriam testemunhas da ressurreição.

Essa conexão entre Atos e Páscoa se confirma nos textos escolhidos para os sete domingos de Páscoa. Os textos não são lidos na ordem dos capítulos. Ou seja, por algum motivo ficamos “pulando” de lá para cá (Atos 10, Atos 5, Atos 2, etc.). Mas o que importa mesmo é saber se esses textos se conectam com a Páscoa, isto é, com a ressurreição de Cristo. Para responder, precisamos examinar os textos.

 No Domingo de Páscoa, a “primeira leitura” é Atos dos Apóstolos 10.34-43. Esse texto é a pregação do apóstolo Pedro na casa de Cornélio. Ao mencionar Jesus Cristo, o apóstolo logo o identifica como “Senhor de todos” (At 10.36). Ele é Senhor porque ressuscitou. Pedro então passa a contar a história de Jesus. O ponto alto é este: Jesus foi morto, “mas Deus o ressuscitou no terceiro dia” (At 10.40). A mensagem que Jesus mandou pregar é que “ele foi constituído por Deus como Juiz de vivos e mortos” (At 10.42) e que “todo o que nele crê recebe remissão dos pecados” (At 10.43). O referente de “ele” é Jesus.

No domingo seguinte, o Segundo de Páscoa, retrocedemos no tempo e ouvimos o que Pedro e os outros apóstolos disseram aos membros do Sinédrio, em Jerusalém (Atos 5.29-42). Depois de anunciar que “é mais importante obedecer a Deus do que aos homens”, os apóstolos pregam a ressurreição. Eles a mencionam antes mesmo da crucificação: “O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vocês mataram, pendurando-o no madeiro” (At 5.30). Deus exaltou Jesus “a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados”. Testemunhas desses fatos são os apóstolos e o Espírito Santo (At 5.32).

No Terceiro Domingo de Páscoa, retrocedemos ainda mais e ouvimos a parte final da pregação de Pedro no dia de Pentecostes (At 2.14a, 36-41). A leitura começa assim: “Então Pedro se levantou, junto com os onze, e, erguendo a voz, dirigiu-se à multidão nestes termos: […] Toda a casa de Israel esteja absolutamente certa de que a este Jesus, que vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.14a,36). Mais uma vez, a proclamação de que Jesus é Senhor pressupõe a ressurreição.

O Quarto Domingo de Páscoa é o Domingo do Bom Pastor, porque a leitura do evangelho é João 10.1-10. A “primeira leitura” é a continuação da leitura do domingo anterior: Atos dos Apóstolos 2.42-47. O título de seção é “Como viviam os convertidos”. Não há uma referência direta à ressurreição de Jesus, mas também é verdade que no texto de Atos 2 aparece o rebanho do bom Pastor Jesus. Temos uma descrição da igreja que resulta da ressurreição. No entanto, se examinarmos a segunda descrição da “comunidade cristã” em Atos 4.32-35 (um texto bem semelhante a Atos 2.42-47), veremos que, em meio à descrição de como viviam os primeiros cristãos, aparece isto: “Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus” (At 4.33).

Como “primeira leitura” no Quinto Domingo de Páscoa, temos a parte final da pregação de Estêvão, o primeiro mártir cristão. O texto é Atos 6.1-9; 7a, 51-60. Diante da fúria dos membros do Sinédrio, Estêvão olhou para o céu “e viu a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus” (At 7.55). E, ao morrer, Estêvão orou: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At 7.59). Nos dois versículos fica subentendida a ressurreição de Jesus.

No Sexto Domingo de Páscoa, ouvimos o “discurso de Paulo em Atenas” (At 17.16-31). Paulo apresenta a identidade do DEUS DESCONHECIDO que os atenienses adoravam “sem conhecer” (At 17.23). Paulo pregava “Jesus e a ressurreição” (At 17.18). Os atenienses pensavam que esse era um casal de deuses estranhos: Jesus e Anástasis (termo grego para “ressurreição”, do qual nos vem o nome Anastácia). Na verdade, Paulo anunciava a ressurreição de Jesus (At 17.31). A reação à mensagem foi mista: uns zombaram e outros se mostraram interessados em ouvir mais “em outra ocasião”.

Atos dos Apóstolos 1.12-26 é o texto lido no Sétimo Domingo de Páscoa. Voltamos ao início do livro de Atos e ouvimos a fala do apóstolo Pedro por ocasião da escolha de Matias, o substituto de Judas Iscariotes. (Um detalhe: Engana-se quem pensa que a igreja “faz aniversário” no dia de Pentecostes, quando supostamente teria sido fundada. Essa interpretação de Atos 2 esquece que já no primeiro capítulo de Atos um grupo de mais ou menos 120 pessoas – a igreja! – elege um apóstolo!) Por que era necessário escolher um apóstolo? Logo nos ocorre que o objetivo era completar o grupo dos doze, conforme indicado em Atos 1.26. Mas o principal motivo, segundo Pedro, era ter um homem que se tornasse “testemunha conosco da sua ressurreição” (At 1.22), a saber, da ressurreição de Jesus.

Há vários temas em cada um desses sete textos de Atos que são lidos nos assim chamados “Domingos de Páscoa”. Mas o que não se pode esquecer é que eles foram escolhidos porque se relacionam diretamente com o tema da Páscoa.

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