Lugar seguro

Não importa o caminho que trilhamos; o meu alvo e o seu alvo são idênticos: o encontro “face a face” (1Co 13.12) com o nosso Bom Pastor em um local/estado onde não haverá choro ou angústia

Lilian Flor
Psicóloga

Há momentos na vida em que nos sentimos muito angustiados. Tão angustiados, que não conseguimos sequer falar sobre o que sentimos ou identificar a origem dessa sensação. Na psicologia, algumas terapias que empregam a dessensibilização sistemática para tratar medos e fobias (como a Terapia Cognitivo-Comportamental) ou o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (como o EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing), utilizam exercícios dirigidos de relaxamento como procedimentos de segurança contra eventual emergência de perturbação emocional intensa durante as sessões ou em momentos posteriores. Um desses exercícios é a criação mental de um “Lugar seguro” (Shapiro, 2007), que é muito eficaz também em momentos de angústia e incapacidade de relaxar. A técnica baseia-se em levar o paciente a criar uma imagem associada ao sentimento de calma e segurança e focar-se nas emoções que emergem.

Foi em um desses momentos de muita angústia, quando qualquer pensamento se tornava gerador de novas ansiedades, que comecei a recitar o salmo 23, decorado lá na infância, e percebi que essa mensagem é uma forma maravilhosa e divina de Deus nos ajudar a mentalizar um “oásis emocional” completamente eficaz, porque está fundamentado no ponto de vista divino da nossa situação e tem poder real, porque é a Palavra de Deus. Se seguirmos as palavras do salmista, frase a frase, veremos que ele vai construindo, aos poucos, uma imagem que sintetiza tudo o que precisamos evocar no momento da crise. 

Já iniciando no primeiro versículo, o salmista salienta: “O Senhor é o meu pastor”. Não estamos sozinhos nem desamparados. Somos parte de um rebanho; inúmeras ovelhinhas vulneráveis e imprudentes, cuidadas por um pastor amoroso, atencioso, comprometido e competente: “Nada me faltará”.

E o texto segue, acrescentando detalhes a essa paisagem: “Ele me faz descansar em pastos verdejantes”. Imagino um campo, com uma grama macia e fresquinha, onde me deito bem próxima ao Bom Pastor, que está vigilante, mas tranquilo. Gosto de colocar meus filhos, também, pulando ao redor. E logo no texto aparece um rio claro e límpido ao lado: “Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma”. A água traz um sentimento de paz, de fluidez e de calma emocional. É fonte de vida, de frescor.

E então, a certeza de que não estamos desorientados. Temos um guia, que sabe por onde nos conduzir: “Guia-me pelas veredas da justiça”. Sim! É bem por ali que decidi andar quando entreguei a minha vida ao Senhor.

Talvez não seja um caminho fácil, mas certamente não estaremos desacompanhados. Temos a Luz ao nosso lado para nos dar certeza e precisão no caminho, mesmo nos momentos mais obscuros. E a promessa: “por amor do seu nome”. Tudo o que pedimos é em nome de Jesus. Porque ele nos ensinou assim.

Nesse caminho, haverá obstáculos que verei como extremamente ameaçadores, mesmo que, na minha angústia, eu esteja majorando o risco. O salmista abrange todas as situações possíveis, mesmo as mais graves: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte”. Até nesse momento tão crucial, “não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam”. Com a sua vara, o Bom Pastor me defende dos perigos externos, como os inimigos, e me resgata dos perigos nos quais eu mesma, de forma descuidada e imprudente, costumo me colocar.

Mesmo diante do inimigo, o diabo, que “anda por aí como um leão que ruge, procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8), o Bom Pastor não perde o sossego, porque sabe que nos manterá seguros e providos de todas as nossas necessidades; não de forma mínima, mas abundante: “Preparas -me uma mesa na presença dos meus adversários, unges a minha cabeça com óleo; o meu cálice transborda”. 

E, não contente em nos socorrer nos momentos das crises, o salmista ainda nos tranquiliza nos momentos em que finalmente nos levantamos para continuar a jornada: “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida”. Embora possa haver perseguidores cruéis e perigosos no nosso encalço, estaremos abraçados pela presença maravilhosa do nosso Senhor, tratando-nos com bondade e misericórdia a cada passo, mesmo sem o merecermos.

Finalmente, o salmista nos brinda com uma chave de ouro: ele nos lembra de que a nossa jornada neste mundo tem um objetivo único e glorioso. Não importa o caminho que trilhamos; o meu alvo e o seu alvo são idênticos: o encontro “face a face” (1Co 13.12) com o nosso Bom Pastor em um local/estado onde não haverá choro ou angústia: “Habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”.

Que Deus seja louvado!

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

SHAPIRO, F. EMDR – Dessensibilização e reprocessamento através de movimentos oculares, 2ª ed. Brasília: Nova Temática, 2007.

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