A inteligência artificial e a inteligência divina

Um dos pedidos que fazemos na Oração Geral do culto é de que as ciências e artes úteis floresçam entre nós. Deus tem atendido essa oração e permitido o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais complexas e poderosas.

Mas até onde poderemos evoluir de forma realmente benéfica? Existe um limite? De que forma a tecnologia pode ser útil à nossa relação com a criação de Deus e com sua igreja?

Quando Deus colocou um freio na humanidade, ao confundir as línguas na Torre de Babel (Gn 11), ele deixou claro que sem a sua atuação “não haveria limites” aos planos humanos (Gn 11.6) e que, pelo desejo de “ter seu nome conhecido”, o ser humano facilmente se afastaria do mandamento e da Palavra de Deus (Gn 11.4).

A Torre de Babel evidencia, portanto, dois aspectos do ser humano: seu grande potencial, como coroa da criação, e a sua infeliz pecaminosidade e negação de Deus.

Com esses dois aspectos em mente, podemos auxiliar a sociedade na discussão a respeito das suas conquistas científicas, reconhecendo que Deus quer nos abençoar através delas e, ao mesmo tempo, alertando para que elas não sejam colocadas contra os princípios divinos, perdendo sua utilidade e potencializando a maldade e o sofrimento.

Nos últimos tempos, temos ouvido cada vez mais sobre o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA). Uma tecnologia com potencial para revolucionar a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.

Recentemente, a Inteligência Artificial aproximou-se ainda mais das pessoas através dos módulos de linguagem, como o ChatGPT (OpenAI) e o Bard (Google). Eles estão presentes em nossos smartphones e computadores, e podem nos ajudar de muitas formas, tais como pesquisas, organização de tarefas e produção de textos.

Mesmo o estudo da Bíblia pode ser auxiliado por essas ferramentas. O ChatGPT, por exemplo, é capaz de sistematizar textos bíblicos, responder perguntas, resumir a interpretação de autores, e até mesmo auxiliar na criação de devocionais, hinos e orações.

Diante de tudo isso, ficamos encantados com o potencial da ciência humana. Mas, como cristãos e cristãs, não ignoramos os desafios e as reflexões necessárias.

Um dos grandes temores dos desenvolvedores da IA é que, no futuro, possamos perder o controle sobre essas tecnologias e acabar dominados por elas. Nesse caso, a própria máquina tomará decisões e controlará como a vida humana acontece. Tal possibilidade nos remete à criação do homem, quando Deus estabelece o domínio humano sobre a criação (Gn 1.28). O domínio da máquina, portanto, por mais eficiente e eficaz que possa parecer, é uma perversão da ordem divina e certamente traria consequências desastrosas.

Outro ponto polêmico e um tanto mais complexo diz respeito à perda do protagonismo humano no trabalho. A máquina fará quase tudo que um ser humano é capaz de fazer, de forma mais eficiente e produtiva. Com a evolução da IA, a máquina será capaz de programar, alimentar, manter, evoluir e replicar a si mesma, o que resultará em desemprego generalizado. É possível que a riqueza gerada seja suficiente para sustentar a população, que não dependerá do trabalho para ter sua renda. Novamente nos deparamos com desafios em relação à ordem de Deus que relacionou a sobrevivência humana ao trabalho (Gn 3.19) e continuou abençoando a criação, apesar da queda em pecado, através das vocações humanas.

Por outro lado, precisamos reconhecer que a predominância da máquina na produção dos bens de consumo não tira necessariamente o espaço do ser humano de servir em suas vocações. Por exemplo, mesmo que haja tecnologia suficiente para que seu filho seja educado por um robô, você, como pai ou mãe, poderia afirmar a sua vocação e assumir essa responsabilidade.

Embora essas questões pareçam distantes e incertas, a tecnologia recebida sem reflexão já afeta a fé de muitas pessoas. Há um aumento no cristianismo superficial e individualista, alimentado por conteúdos duvidosos disseminados nas redes sociais.

A popularização dos módulos de linguagem, como o ChatGPT, pode amplificar esse problema. Como esses módulos foram treinados com base em dados disponíveis na internet, o conhecimento bíblico e as respostas fornecidas são geralmente centradas no ser humano. Elas reproduzem a opinião legalista da maioria, que aponta para o que devemos fazer e não para o que Cristo fez por nós.

Martinho Lutero certa vez afirmou que o título de doutor em teologia deveria ser dado para aquele que soubesse distinguir lei e evangelho corretamente. Neste caso, o ChatGPT e o Bard definitivamente não mereceriam esse título. Encarar essas tecnologias como “pastores” modernos trará consequências terríveis para a formação de uma pessoa na fé cristã.

Deus definiu a maneira como quer se relacionar conosco. Em Jesus, Deus se tornou um ser humano e habitou entre nós. Assim, demonstrou que a Palavra divina não é um ajuntamento de letras, mas é a força viva e eficaz, que fala, age, coloca-se ao lado, enfim, é Deus conosco, presente na pregação e nos sacramentos que recebemos pelo ministério pastoral. Em outras palavras, nada substitui a presença de Deus e suas dádivas que recebemos no culto.

Diante de tudo isso, como igreja, precisamos continuar em oração, para que as ciências e artes úteis floresçam entre nós. E ao perceber que estão florescendo, iremos participar das discussões e não deixar que o deslumbramento nos impeça de refletir adequadamente sobre elas. Abençoados com a grande capacidade que Deus deu ao ser humano, e com o discernimento que o Espírito Santo nos concede, façamos como ensinou o apóstolo Paulo: examinem todas as coisas, retenham o que é bom (1Ts 5.21).

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