Hinário Luterano

A letra dos hinos do nosso hinário é rica em conteúdo. Se o caro leitor do Mensageiro Luterano vai aos cultos, já deve ter cantado palavras como: grei; júbilo; contemplai; lei; advogado; presépio e comei. Saiba a origem destas palavras que os poetas escreveram:

Grei

Grupo de indivíduos de mesma categoria. Aparece 25 vezes no Hinário Luterano. Do latim grex, gregio, rebanho (de ovelhas). Da mesma raiz temos: agregar, congregar, egrégio e segregar. Quem não se lembra do regime de segregação racial da África do Sul, pré-Mandela! Nada mais era que a exclusão de indesejados em um rebanho – algo como congregar ao contrário.

Júbilo

Do latim jubilaeus, i, jubileu. Era uma comemoração judaica, celebrada uma vez a cada cinquenta anos. Mas a origem está lá no hebraico yovel, chifre de carneiro no qual se tocava para anunciar a festa. Levíticos 25.9 fala em trombeta (buccina, em latim). Note que o jubileu não era uma festa qualquer, mas pela qual se esperava cinquenta anos.

Contemplar

Observar atentamente. “Contemplai na cruz pregado”, diz o hino. Houaiss vê a origem em templo, que era o espaço aberto, na Roma Antiga, em que os agoureiros (daí bom ou mau agouro e inaugurar) observavam o voo das aves para fazerem suas previsões. Embora Cícero tenha chamado o templo de “lugar consagrado ao culto”, não necessariamente religioso, havia o fanum, i, (daí profano, fanático), templo, sítio consagrado.

Lei

Aparece 34 vezes no HL. Do latim lex, legis, norma, regra, prescrição. Da mesma raiz vem o verbo legere, ler, colher, recolher, escolher os grãos de cereal; que lê “colhe” as letras, as palavras. Os romanos não publicavam suas leis no Diário Oficial e, para que uma lei fosse sancionada, era necessário lê-la em público. Inteligente (interlegere) é o que vai além das letras. O ano letivo é do tempo em que o professor (o lente, leitor) fazia a leitura das aulas.

Advogado

“Advogado onisciente” diz o hino 279 do HL. O termo vem do latim: ad, junto de, +vocare, chamar, convocar; aquele a quem se chama para defesa. Na Idade Média,era mais usado na acepção de defensor das comunidades religiosas ou abadias, segundo o frei Santa Rosa de Viterbo. No Novo Testamento há o termo grego paráklito, isto é, alguém chamado para o lado de, para ajudar, consolar. A Bíblia foi traduzida na Idade Média, e o tradutor (Almeida) optou por “Advogado junto ao Pai” – advocatumhabemus, em latim (1João 2.1). Lutero usou Fürsprecher, o que fala por, defensor.

Presépio

Era lugar de prostituição, lupanar (Cícero 106 – 43 a. C.), mas, antes disso, era sala de jantar. Quando Jesus nasceu era curral, estrebaria, do latim praesepe, is, lugar de animais. A palavra presepada permanece até hoje como lugar de confusão, já que as encrencas aconteciam nos tais lupanares. Lupanar vem de lupa, ae, loba em latim, mas era também a prostituta, pejorativamente.

Comer

No latim há dois verbos para definir o nosso comer: edere, mais no sentido de consumir, devorar, gastar (daí edaz, glutão), que resultou nas línguas inglesa e alemã: toeate essen; e comedere, comer junto, comer compartilhando – o português derivou deste. Covarrúbias diz que animais que comem sozinhos não comem tão bem quantos os que comem em conjunto. A Santa Ceia é no plural: “Tomai e comei”. A versão latina, tanto de Gênesis 2.16 e 17, “dela comerás…”, e Mateus 15.37, “Todos comeram e se fartaram…”, usa o verbo comedere, que dá a ideia de que não era para “encher a barriga”, mas saciar-se em conjunto.

Neldo Karnopp

Bacharel em Letras, membro da Comunidade Da Cruz de Porto Alegre, RS

[email protected]

*Texto publicado no Mensageiro Luterano, na edição de agosto de 2014.

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Matérias Relacionadas

Pastor é instalado em Sinop, MT

Mauro Scheibler irá atuar na Paróquia Emanuel

Veja também

Pastor é instalado em Sinop, MT

Mauro Scheibler irá atuar na Paróquia Emanuel

Você já reclamou de um presente dado por Deus?

“Quem vem aí?”, me perguntou uma senhora na saída do culto. Ao responder que era mais um menino, ela disse: “Ah, não!! Tinha que ser uma menina!” Quase sem acreditar no que ouvi, questionei: “Por quê? Não mesmo! Quando Deus envia o presente, a gente aceita com gratidão”.

Dores que fazem crescer

“Feliz é aquele que nas aflições continua fiel! Porque, depois de sair aprovado dessas aflições, receberá como prêmio a vida que Deus promete aos que o amam” (Tg 1.12).