Mãe é tudo igual?

Quem nunca ouvir falar que mãe é um pouco de tudo? Professora, cozinheira, médica, psicóloga, e por aí vai… Sobretudo para a criança, a mãe é idealizada como uma grande heroína, a pessoa que sabe tudo e resolve toda e qualquer situação.

E isso não é de agora, apesar de parecer que as funcionalidades e responsabilidade se multiplicaram… assim como as formas de parentalidade atuais. Afinal, quando falamos em maternidade, hoje, nos deparamos com o grande dilema da mulher moderna: “Parar de trabalhar para cuidar dos filhos pequenos em casa ou não?” É claro que, para algumas mulheres, essa não é uma opção. O trabalho feminino, na maioria dos lares brasileiros, é parte importante do orçamento da casa. Muitas mães fazem malabarismos para conciliar as demandas dos filhos, as horas de trabalho fora de casa e o trabalho doméstico.

Dados de 2020, divulgados pelo IBGE, mostram que as mulheres cada vez mais estão adiando a maternidade. Em 2000, os registros de nascimentos cujas mães tinham menos de 30 anos eram 76,1% do total, caindo para 62,1% em 2020. Já os registros de nascimentos cujas mães têm de 30 a 39 anos, que em 2000 eram 22,0%, chegaram a 34,2% em 2020.

Há também aquelas mulheres que não podem ou não querem ter filhos. Sim, é crescente o número de jovens e adultos que não desejam ser pais. No Brasil, 37% das mulheres não querem ter filhos, segundo uma pesquisa global realizada pela farmacêutica Bayer, com apoio da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e do Think about Needs in Contraception (TANCO). O estudo também indica que, no mundo, o índice chega a 72%. **

Falando em parentalidade, a adoção também é um formato, e pode se estabelecer de diversas formas e por diversos motivos. E, claro, o modelo tradicional de família nunca sai de moda!

Todos nós convivemos com esses modelos de parentalidade (e muitos outros ainda) na sociedade e na igreja também. E como lidamos com essas diferenças e pluralidades?

Para exemplificar alguns modelos de família, conversamos com quatro mulheres cristãs a fim de compreender suas escolhas, suas vivências e seus relacionamentos familiares e com os irmãos na fé!

A ARTE DE EQUILIBRAR PRATOS
Daniela Fischer Buss Weiss (advogada, mãe de Davi, 10 anos, e Martin, 5 anos)

Me chamo Daniela, tenho 39 anos, sou casada com o pastor Martinho Lutero Weiss Santos, e tenho dois filhos: Davi (10 anos) e Martin (5 anos). Sou advogada – atualmente coordenadora da Comissão Jurídica da IELB – e estou cursando o segundo semestre de Teologia na Ulbra. Nas horas vagas, “brinco” de escrever.

Se me perguntarem como faço para equilibrar a maternidade e a vida profissional, posso responder que me vejo como um artista de circo tentando equilibrar vários pratos ao mesmo tempo, e, algumas vezes, derrubei alguns deles.

Nem sempre tive a intenção de ter filhos ou até mesmo de me casar. Nascida na década de 1980 e influenciada pela cultura pós-feminista, aprendi que a valorização da mulher estava em ser uma profissional de sucesso. Foi esse o meu investimento. A maternidade “atrapalha” a vida profissional da mulher. É necessário no mínimo uma pausa para o parto.

De outro lado, eu também sabia da importância da presença dos pais, e especialmente da mãe, na primeira infância. A criança irá confiar e se apegar àqueles que atenderem suas necessidades físicas e emocionais. Eu queria que meus filhos tivessem essa referência na família. Nos pais. Então, decidi dar uma pausa no trabalho (fora de casa) quando o Davi nasceu.

Ao mesmo tempo em que era gratificante estar com meu bebê todos os minutos do dia (e da noite), existia aquela pontinha de inveja dos colegas que estavam bem na profissão, enquanto eu estava coberta de fraldas sujas e vômitos de leite e há meses sem dormir oito horas. Nós nunca estamos satisfeitos.

Pensei que, talvez, conseguiria harmonizar a maternidade com o trabalho quando o mais novo entrasse na escola. Comecei a trabalhar meio período em um escritório enquanto eles estavam estudando. Me parecia o ideal: de manhã estaria com eles e, à tarde, trabalhando.

Contudo, em 2020, iniciou a pandemia: em março eu passei a trabalhar home office por algumas horas do dia, com os guris em casa, e eles também com atividades da escola de forma remota. Claro, não posso deixar de falar que meu marido foi apoio e suporte durante todo esse tempo; sem ele, muitos outros pratos teriam caído.

Veio 2021, e eles retornaram à escola. Foi possível então um horário de trabalho mais consistente. Ainda era preciso faltar alguns dias por febre e viroses. As demandas emocionais deles e a minha, pós-pandemia, ainda exigiram muito a minha presença.

Por fim, foi preciso deixar o trabalho no escritório para conseguir equilibrar os pratos novamente.

Continuo trabalhando de casa: seja advogando, seja com as demandas da Comissão Jurídica, seja com os trabalhos da igreja como esposa de pastor, seja escrevendo; e podendo acompanhar meus filhos nas suas tarefas diárias, descobrindo e aprendendo com eles ao mesmo tempo.

A maternidade me ensinou a ser flexível na minha vida e na minha profissão. Não há uma fórmula pronta. Precisamos nos adequar às nossas realidades, sem perder de vista o mais importante da vida dos nossos filhos: ensiná-los sobre Cristo, para que possamos reencontrá-los na eternidade.


QUE MÃE SOU EU?

Lígia Madalena Albrecht, 74 anos, assistente Social, 9 filhos e 21 netos

Quando eu e meu esposo nos casamos, no início dos anos 1970, sonhávamos, sim, em ter nossos filhos. Não falávamos em quantidade, mas que queríamos receber de Deus a bênção de ter filhos. Não falávamos em quantidade porque não queríamos limitar Deus em nos abençoar. Planejamos, sim, a construção da nossa família, e cada filho foi desejado e esperado com muito amor e carinho.

Juntos, nós educamos nossos filhos na disciplina e na admoestação do Senhor. Essa era a nossa principal preocupação em relação a eles. Deus sempre esteve em primeiro lugar, e nossos filhos aprenderam a temer e a amar a Deus acima de todas as coisas. Construímos uma família tradicional e cristã, na qual a Palavra de Deus foi sempre levada a sério.

Que mãe sou eu? Tradicional? Não, eu não me defino como mãe tradicional. Eu me defino como mãe cristã, temente a Deus e muito abençoada. Deus confiou a mim nove vidas, e isso foi e é maravilhoso em minha maternidade. Também Deus nos deu todas as condições de educá-los, tanto na disciplina e admoestação do Senhor, quanto na cultura secular.

Não olho para meus filhos sob o aspecto da quantidade – eu os vejo na singularidade: cada um deles é especial para mim. Fui e continuo sendo uma mãe muito dedicada. Quando eles dependiam de mim, eu renunciava a tudo em favor do bem-estar deles. Agora que já são adultos e independentes, que já têm suas famílias, eu me sinto ainda mais feliz e grata a Deus pelos filhos que ele me deu.

Quanto aos netos, sou uma vovó muito feliz pela bênção de poder vê-los crescer em estatura e no conhecimento da Palavra de Deus. Conviver com eles é muito bom, me faz muito feliz.

Meu esposo já está com Cristo, aguardando a ressurreição do último dia, mas deixou um grande legado em relação aos filhos. Sempre foi um pai presente e, junto comigo, sempre teve a preocupação em educá-los para o Senhor.

Quanto à mudança de padrões familiares, prefiro dizer que nosso padrão familiar foi aquele que a Palavra de Deus nos ensinou. Vejo as mudanças de padrões familiares com muita preocupação.

Encerro esta reflexão com este pensamento de Ruth Graham, que achei muito verdadeiro e reflete como eu vejo a maternidade: “Ser mãe é a função mais bela e mais gratificante do mundo, que não é superada, nem mesmo pela pregação. Talvez a maternidade seja uma pregação”.


PLANO A

Luise Lüdke Dolny, 39 anos, psicóloga, mãe do Vagner (15 anos) e do Israel (9 anos)

Eu tinha quase 36 anos quando meus filhos chegaram. Para a sociedade, talvez eu tenha demorado para decidir me tornar mãe, mas sei que esse foi um processo guiado por Deus. Sempre gostei muito de estudar, estava cursando o doutorado, que ocupava muito meu tempo, quando o assunto “filhos” começou a bater mais forte.

O mais engraçado de tudo é que nunca me imaginei mãe de um bebezinho, mas me imaginava maternando crianças mais velhas. Conversando com meu marido sobre isso, fomos nos aproximando da ideia da adoção, conhecendo experiências e vivências de outras famílias, participando de grupos de apoio à adoção… E, assim, a parentalidade por adoção se tornou o nosso “plano A”, e a gravidez, uma possibilidade para mais tarde.

Quando saí do fórum depois de concluir o curso de habilitação para a adoção, lembro de conversar e me emocionar com o meu marido, sabendo que nossos filhos estavam em algum lugar desse “Brasilzão”, e tendo a certeza de que Deus estava à frente, cuidando de tudo para que nossos caminhos se cruzassem no tempo certo. E não levou duas semanas para isso acontecer! Como o nosso perfil era de duas crianças de até 8 anos, o processo foi bem rápido.

Maio é um mês importante para nossa família. Este ano completará 5 anos desde o dia em que nos conhecemos. Quantas coisas aprendemos com eles. Os desafios são grandes, assim como com filhos biológicos, apesar de alguns serem bem diferentes. No nosso caso, lidar com as inseguranças (nossas e deles), com as lacunas escolares, flexibilizar nossas rotinas/jeitos de fazer as coisas e lidar com a construção desse relacionamento são os mais marcantes.

Tornar-se família por adoção é um processo lento, que exige muita paciência e perseverança, que mexe com a gente lá no fundo, que torna o olhar para si mesma e lidar com sua própria história um imperativo. Hoje, 5 anos depois, muitas conquistas me alegram! Ver os dois integrados às nossas famílias, se sentindo pertencentes, se desenvolvendo e conquistando novas habilidades é a prova de que os laços de afeto vão muito além dos laços de sangue.

Para mim, como mulher, é um desafio grande conciliar os diversos papéis que me cabem: esposa, filha, mãe, profissional, amiga, membro de uma congregação… Me seguro na certeza de que, além desses papéis, sou principalmente filha amada do Pai. Me asseguro na certeza de que busco dar o melhor de mim em todos estes papéis, ao mesmo tempo que tenho consciência de que é impossível ser perfeita e dar 100% de mim em cada um deles.

Meu 100% precisa ser dividido entre os diversos papéis que desempenho. Às vezes, a maior porcentagem vai para a maternidade, outras vezes vai para o trabalho, outras vezes ainda para o autocuidado, amizades, descanso… Para saber priorizar e fazer essa divisão dos meus 100% com sabedoria, conto com o carinho e o cuidado de Jesus, que se preocupa comigo a cada dia, a cada passo e decisão que preciso tomar, inclusive colocando ao nosso lado pessoas dispostas a nos ajudar e apoiar nessa jornada. Podemos e devemos pedir ajuda quando precisamos.

Independente de como nos tornamos mães, que possamos nos unir em oração por nossos filhos e famílias, que possamos nos olhar com carinho e cuidado, que possamos ser apoio umas para as outras!

“EU NÃO QUERO SER MÃE”
Gabriele Linden Furst, 28 anos, pós-graduada em Teologia e Bíblia, casada com o pastor Alan Fürst

Cada vez mais mulheres estão tomando a decisão de não serem mães (e homens, de não serem pais), mas este é, ainda, um assunto que causa muita controvérsia. Algumas reações comuns são: “Como que você não quer formar uma família?”; “Quem vai cuidar de você quando for mais velha?”; “Só quem é mãe sabe o que é amor de verdade!”; “Uma mulher é mulher de verdade só quando tem filhos. Isso é o que dá sentido à vida!”; “Que egoísmo!”; e por aí vai.

Tendo em mente todos estes possíveis questionamentos vindos de pessoas que ouvem essa frase, eu devo confessar que receber o convite para escrever sobre a escolha de não ter filhos, justo em uma reportagem sobre o dia das mães, me gerou uma certa ansiedade, mas dado o fato de que esta já é uma realidade dentro das nossas igrejas, acho importante falarmos sobre isso.

Sim, eu não quero ser mãe. Existem vários motivos para que alguém tome essa decisão. A minha decisão levou anos para ser tomada. Foi com muita conversa, pesquisa, reflexão e oração que eu cheguei a essa conclusão: eu acredito que não tenho a vocação para ser mãe.

Essa afirmação, por si só, já causa muita polêmica no meio cristão, já que algumas pessoas acreditam que a maternidade e a paternidade são vocações ou chamados universais. Isto é, que todas as pessoas que são férteis consequentemente são chamadas a terem filhos.

De qualquer forma, quero deixar claro que eu acredito que o chamado de gerar, educar e preparar futuros cidadãos é extremamente importante para o bom funcionamento da sociedade e, por isso, é um chamado que deve ser levado muito a sério e que deve ser conduzido com muita dedicação. Infelizmente, muitas pessoas que não têm a vocação para serem pais ou mães acabam sendo por acharem que é algo que elas devem fazer, e os resultados acabam sendo desastrosos.

A maternidade, então, é uma vocação belíssima que o Criador dá a algumas mulheres e, talvez um dia, ele me dê essa vocação. Mas hoje eu vejo que não é algo que ele tenha me chamado a fazer.

Agora, voltando aos questionamentos iniciais, eu entendo que eles vêm de um desejo de enaltecer a maternidade, e as pessoas não os fazem por mal, mas eu acho que eles nos convidam a refletir sobre algumas coisas. Primeiramente, a maternidade não é a única vocação que uma mulher pode ter. Uma mulher pode servir o seu próximo em diversas outras vocações, de acordo com os dons que o Criador lhe deu. Seja em sua profissão (como médica, advogada, etc.), em seus relacionamentos (como tia, amiga, etc.), e/ou na igreja (como música, ensinando, etc.). Muitas mulheres não podem ter filhos, então me entristece ouvir que “uma mulher só é mulher de verdade quando tem filhos”, principalmente quando isso vem de cristãos, já que a nossa maior identidade se encontra em Cristo e em sermos filhos de Deus, e não em nossas profissões ou demais vocações.
Da mesma forma, a frase, “Só quem é mãe conhece o que é amor de verdade”, não deveria fazer sentido para nós, cristãos, já que nós conhecemos o maior amor do mundo, e isso nada tem a ver com termos filhos ou não.

Quanto a formar ou não uma família, eu devo dizer duas coisas: primeiramente, eu vejo o casamento em si como a formação de uma família, então não acho que casais tenham que ter filhos para serem considerados uma família. Em segundo lugar, nem todo mundo tem o chamado para se casar, e está tudo bem. É claro que isso normalmente leva à pergunta sobre “Quem vai cuidar de quem não tem filhos na velhice?”, o que já mostra que a decisão de ter filhos é, muitas vezes, feita pelos motivos errados, pois, assim como pessoas podem escolher não ter filhos por motivos egoístas, outras também podem escolher ter filhos por motivos egoístas. Ninguém deveria ter filhos com o objetivo de ter cuidadores quando forem mais velhos. Até mesmo porque filhos não são garantia de cuidados no futuro.

Eu acredito que a igreja tem um chamado especial de cuidar de todas as pessoas. Sejam elas jovens ou idosas, aquelas que foram solteiras a vida toda e as que se veem sozinhas ao final de sua vida, as que nunca tiveram filhos e as que não tem mais filhos presentes em sua vida. E que a igreja esteja alerta para cuidar das pessoas ao seu redor, em amor, hoje e sempre.

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