Nos passos do pai

Um acontecimento nunca é um momento isolado, ele é o resultado de uma história e vem acompanhado de lembranças e sentimentos entrelaçados numa vida inteira de convivência. As emoções e o orgulho de uma formatura, de uma ordenação ao santo ministério e a instalação de um filho como pastor é o resultado de uma história que começou quando fomos abençoados por Deus para sermos pais.

Quando falamos da relação de pais e filhos é difícil colocar tudo isso em palavras. Alguém já disse que ter filhos é receber de Deus um curso de como amar incondicionalmente, de como sair de você mesmo e olhar para o outro por amor. Não são poucas as vezes que esse outro se torna o centro de sua vida, não são poucas as vezes em que você, como pai ou mãe, tomaria as dores dos seus filhos para que eles não sofressem. É difícil entender como a gente fica assim, a não ser dizendo que Deus colocou esse dom nos corações de cada pai e mãe.

O impacto da boa notícia

A notícia de que você vai ser pai e mãe causa em cada um uma profusão de sentimentos. Num primeiro momento, o espanto, o medo, a alegria; e depois os cuidados, os planejamentos. Uma pessoa está sendo formada, e Deus elegeu você para cuidar dela, isso não é pouca coisa! Num instante, você vislumbra o que vai ser da sua vida, da sua casa, da sua família e do seu casamento com esse filho, já amado, fazendo parte de tudo isso.

Os exames e ultrassons nos enchem de medo, surpresa e alegria. São os primeiros contatos com o seu filho. Bate a ansiedade de saber se está tudo bem, ouve-se pela primeira vez um coraçãozinho que pulsa numa rapidez incrível; você percebe, espantado, os primeiros movimentos de braços e pernas, se emociona e respira aliviado, abraça e se alegra com a sua esposa e em oração os coloca nas mãos de Deus, com a consciência de que Deus já o conhece. Ele cresce, você agradece, fala, canta e acaricia uma barriga. Lá de dentro, cotovelos, pés e joelhos começam a despontar, com o tempo o espaço fica apertado, nosso coração também, pois se aproxima o dia em que ele sairá dessa casa.

Chega o dia em que metade, ou mais da metade da sua família, que você tanto ama, está numa sala de parto. As orações são constantes, você tenta se distrair com outras coisas, mas a sua ansiedade o puxa de volta para o momento. Você sabe que Deus já ouviu a sua oração, mas ora de novo. Alguém bate na porta do quarto e lhe apresenta o seu filho. O amor e a gratidão não cabem no coração por ele estar ali bem e com saúde, mas a mãe, sua esposa, ainda demora, ela está bem? São longos minutos que duram horas, você ora mais um pouco, e, com a graça de Deus, ela vem para o quarto. Cheio de cuidados e gentilezas, levamos nossa família para casa.

Os primeiros passos do “ser pai e mãe”

Quando os meninos nasceram, estávamos longe de nossas famílias, portanto eu e a Tânia cuidamos sozinhos dos bebês. Os primeiros banhos, fraldas, colo, vacinas, um cordão umbilical se soltando, as febres, choros, dores de barriga, noites sem dormir, foram por nossa conta. E também cada conquista, progresso, passo, sorriso, aconchego, brincadeira e cada primeiro feito, tudo isso foi colocado num lindo e enorme banco de memórias e emoções.

Levar o seu filho à água maravilhosa do batismo, que o torna um filho de Deus e opera nele a fé salvadora, não tem preço, que milagre fantástico o nascimento para Deus!

O primeiro passo – lembra o primeiro passo? Às vezes a mãe de um lado e o pai do outro, então um menino gargalhando, estranhamente feliz e inexplicavelmente confiante, se joga em seus braços, que vitória! Este é o primeiro de muitos passos que marcam o processo de independência dos filhos, difícil de lidar e aceitar; frustrados, concluímos: “Eles precisam cada vez menos de nós!”. Segue-se uma vida de bilhetes, desenhos, apresentações na escola, provas de amor, brincadeiras e lutas, desejo de apoio e segurança. E a vida, com suas artes e aventuras, vai seguindo o seu curso. Um dia um adolescente corajoso confessa a fé que recebeu no batismo e diz: “Eu confio em Jesus como meu Senhor e Salvador!”. E mais uma vez nos admiramos com a fantástica ação de Deus Espírito Santo na nossa vida. Mais alguns dias, um jovem, adolescente ainda, que gostava de pedras, decide e anuncia: “Mãe e pai, vou estudar Teologia, vou ser um pastor!”. Surpresa! Como assim? A preocupação com pessoas que iriam se perder e com colegas que não criam o fez aceitar o chamado de Deus.

E agora, nosso filho quer ser pastor…

Um sentimento duplo tomou conta de mim. Por um lado um orgulho muito grande por um filho que foi chamado por Deus para ser pastor e que acolheu com alegria esse chamado. Por outro, sabendo dos desafios do Ministério, das nossas próprias fraquezas e limitações, das tentações e armadilhas do inimigo, a preocupação e a oração por essa decisão.

Como pastores, muitas vezes nos vemos diante de muitos desafios. Surpresos, temos que lidar com a nossa própria natureza, repleta de maus desejos e vontades. O diabo, com as suas tentações, não dá trégua a ninguém, ele é o cicerone do mundo convidando você para uma bebida… é o nosso adversário e acusador, que muitas vezes cochicha no nosso ouvido: “Você tem coragem de se chamar pastor?”.

Em muitas situações nos sentimos sozinhos, em outras, angustiados, duvidamos e perguntamos, onde está o resultado desse trabalho? Você se sente tentado e pensa: “Vou parar com isso, chega, não está dando certo!”. Frustração, tristeza, decepção com os outros e com você mesmo o fazem questionar o seu ministério.

Aí Deus nos diz: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza!” (2Co 12). E o Espírito Santo, nos constrangendo, diz: “Insta quer seja oportuno quer não!” (2Tm 4) Alguns vão achar o seu discurso duro, mas nossa fidelidade em primeiro lugar é com Deus, com a sua Palavra e com a sã doutrina, somos chamados para fazer um serviço de excelência. Você batiza uma criança, e nela é operado o milagre da fé. Você ouve crianças cantando, louvando a Deus e colocando as suas vidas em suas mãos e fica maravilhado. Você presencia pecadores tendo as suas vidas transformadas pelo poder da graça, do amor e do perdão de Deus e se emociona. Você é usado como instrumento para levar consolo e orientação, ou simplesmente apoiar o sofredor, e então entende o seu propósito, e Deus fortalece a sua vocação. Por isso ter um filho pastor veio com esses sentimentos, preocupação e oração por ele e pelo ministério pastoral, e alegria e satisfação por essa vocação.

Entendo que fui vocacionado por Deus para ser marido, pai e para ser pastor e aceitei com alegria e temor esses chamados. Servimos a Deus de uma forma belíssima quando cuidamos bem de nossa esposa, de nossos filhos e de nossa família. Quando se fala em amor ao próximo, devemos olhar para esses mais próximos de nós e estender a cada um deles cuidado e amor e servi-los com a nossa própria vida. Em relação ao ministério pastoral, Deus colocou em meu coração o amor pelo ensino de sua Palavra. Considerei que esse trabalho caríssimo daria sentido à minha vida. Ser usado como instrumento de Deus para cuidar de pessoas, aconselhar, admoestar e presenciar o poder transformador do Espírito Santo na vida de tantas, é algo que não tem preço, pois esses são valores eternos.

Nunca forçamos os nossos filhos a estudarem Teologia para serem pastores. Entendo que todas as vocações para trabalhos dignos são importantes e abençoadas por Deus, mas a decisão de um filho pelo Ministério Pastoral foi um momento especial para mim e a minha família. Fazer Teologia, ir para o Seminário, de certa forma é o começo do fim e o começo de uma série de outras coisas. Quando um filho sai de casa, nos vem à recordação a criança correndo para os nossos braços e depois para longe, e isso marca um processo natural da vida. O ano de estágio foi um ensaio dessa despedida, e a volta foi marcada por um prazo, mais um ano. Grandes emoções numa formatura belíssima nos gramados do campus do Seminário. Uma mãe, um irmão – um pai/pastor emocionado entrega o diploma de Especialista em Ministério Pastoral ao filho – o chamado para um lugar distante – a autorização para ordenar o filho como pastor da IELB – a participação na instalação do filho… e então aquele balde cheio de emoções e memórias transborda. Não consigo falar e chorar ao mesmo tempo, por isso, quando participei da instalação do pastor Kenny Ogg, as palavras de bênção saíram entre lágrimas para um filho que, sem olhar para trás, põe a mão no arado e vai trabalhar nos campos do Senhor.

Na minha arrogância achei que carregava meu filho e minha família pelos caminhos que o Senhor nos colocou. Porém não é assim, todos somos sustentados pelo Senhor, que nos carrega, que nos mantém de pé e que através de nós, como seus instrumentos, faz o seu trabalho. Deus seja louvado! Amém!

Como é ser filho de um pai que é pastor?

Até que ponto esse fato influenciou na decisão de também ser pastor?

Ser filho de pastor é fazer parte de uma família que muitas vezes não tem nome. Quem é filho de pastor vai entender muito bem o que eu quero dizer (e isso vale para as esposas também). Na minha infância, eu nunca era somente o Kenny, eu era também o filho mais novo do pastor Rubens, assim como meu irmão era o filho mais velho e a minha mãe, a esposa do pastor. Não é tão simples assim ter mais de uma “identidade”, você não é somente você, você é o filho de um pastor de uma congregação de pessoas, congregação que faz parte de um distrito, distrito que está dentro de um sínodo, é bastante gente! Você é você, mas você também é uma extensão do seu pai. Suas ações são suas, mas também são as ações da família pastoral daquela congregação. E as pessoas são pessoas, elas comentam tudo, quer seja para o bem ou para o mal, é assim que as pessoas são. Mas ser filho de pastor é uma honra, honra de ter como pai aquela pessoa que todos veem como um líder espiritual. Só que antes do meu pai ser pastor, ele é o meu pai e é assim que eu vi ele a minha vida toda. Para mim não é apenas o pastor Rubens. É o cara que é o meu maior exemplo de homem, de esposo, de pai, de cristão e sempre será assim (Tu és o cara, meu “véio”!).

A minha vida toda eu tive a honra e o privilégio de crescer com pais que me apoiavam em qualquer decisão que eu tomasse para a minha vida. Nunca me forçaram a escolher um caminho. Eu mesmo, nunca tinha almejado o ministério pastoral, foi uma decisão “do nada”, foi de um dia para o outro, foi como um despertar de sentidos. Num dia você quer uma coisa, no outro parece que só aquela coisa faz sentido para você. Assim foi a minha decisão de servir a igreja como pastor. E naquela época eu não era o tipo de cara que você espera que diga: “Vou ser pastor!” (Até hoje alguns não acreditam! Vê se pode, isso!). Foi uma surpresa para todos, para mim, para os meus amigos, para os nossos conhecidos e, principalmente, para a minha família. Mas para quem você acha que eu fui perguntar se eu servia para isso? Exatamente, foi para o meu pai, Rubens, ou como alguns de vocês o conhecem, “pastor Rubens”. O homem que sempre foi o meu maior exemplo de vida tomou um susto quando eu contei para ele sobre a ideia. Mas o susto rapidamente se tornou no maior apoio que eu tive durante esses últimos sete anos da minha vida. Eu tive a honra de durante a minha preparação no Seminário Concórdia ter um pai que é pastor e que estava junto comigo em quase toda a parte do tempo (poucos tem esse privilégio). Durante todo o processo do Seminário eu aprendi muito com os meus professores, mas eu aprendi ainda mais com o meu professor que estava em casa me esperando para tomar café e falar sobre a vida. O universo inteiro já foi comentado por nós na varanda lá de casa, meus amigos sabem muito bem disso (A gurizada sabe do que eu estou falando!).

Hoje, eu sou pastor da nossa amada igreja. Ainda estou no início do meu ministério e tenho muita coisa para aprender durante toda a minha vida. Hoje, eu e meu pai “trocamos figurinhas” sobre o ministério pastoral. Mas, para mim, se eu for um terço do que meu pai foi e é como pastor, já é o bastante. Eu não preciso de mais nada. Ele sempre foi e sempre será o meu maior exemplo de tudo.

Kenny Ogg

Pastor

Santana do Livramento, RS

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