Luisivan Vellar Strelow
Dois Irmãos, RS
Pentecostes: semear e colher o trigo
Pentecostes ocupa um lugar especial no calendário cristão. Recorda-se a descida do Espírito Santo sobre os seguidores de Jesus — cerca de 120 pessoas reunidas em Jerusalém (At 1.15; 2.1-4). Peregrinos e peregrinas que tinham vindo para a festa ouviram o anúncio da ressurreição de Jesus, cada um em sua própria língua materna, e cerca de três mil pessoas foram batizadas naquele dia (At 2.5-11, 37-41). Todos retornaram às suas casas cheios de alegria, dando testemunho do cumprimento das antigas promessas e anunciando o nome de Cristo como Salvador do mundo (At 2.14-36; cf. Jo 4.42). Pentecostes inaugurou a missão da igreja no mundo, a pregação do evangelho a todos os povos (At 1.8; Mt 28.18-20).
Pentecostes: festa da colheita e entrega da Lei (aliança no Sinai)
O dia de Pentecostes tem sua origem na festa da colheita do trigo (Êx 23.16; 34.22) e, também, na tradição que relaciona essa celebração à aliança de Deus no Sinai (Êx 19–24). A festa acontecia cinquenta dias depois da Páscoa, marcando o tempo entre o início da colheita da cevada, no período pascal, e o encerramento da colheita do trigo, sete semanas depois (Lv 23.15-21; Dt 16.9-12).
Os textos bíblicos mais antigos apresentam essa celebração como festa agrícola: em Êxodo 23.16, ela é chamada de “festa da colheita”; Levítico 23.15-21 descreve a contagem das sete semanas e a apresentação das primícias da nova colheita; Deuteronômio 16.9-12 reforça seu caráter comunitário, conclamando o povo a alegrar-se diante de Deus com filhos, filhas, servos, estrangeiros, órfãos e viúvas.
Em razão da contagem feita a partir da Páscoa, a celebração recebeu o nome de Festa das Semanas (Shavuot, em hebraico) e também o nome grego Pentecostes, isto é, “quinquagésimo” (Tb 2.1; 2Mc 12.32; At 2.1). A igreja manteve o nome grego da festa, como registra Lucas: “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes” (At 2.1).
A tradição judaica passou também a associar esse tempo à memória da aliança e da dádiva da Lei no Sinai. Assim, a festa reúne colheita e revelação, pão e Palavra, terra e promessa. Surgem, nesse horizonte, referências aos frutos principais da terra — trigo, vinho e azeite — tão presentes na linguagem bíblica (Dt 7.13; 11.14; Jl 2.19). Os salmos também testemunham essa abundância como dom de Deus: ele prepara a terra, coroa o ano com bondade e faz brotar pão, vinho e azeite para o sustento e a alegria da vida (Sl 65.9-13; 104.14-15).
Mais importante que o nome, porém, eram os motivos da festa: ação de graças pelo pão da vida. Por um lado, pela colheita da cevada e do trigo, lembrando também o maná que sustentou o povo no deserto (Êx 16; Dt 8.3). Por outro lado, pelo dom maior da palavra e da presença de Deus. E, à luz do evangelho, reconhecemos em Cristo o verdadeiro pão do céu, aquele que alimenta para a vida eterna (Jo 6.32-35, 48-51).
Pentecostes: nova vida e comunhão em Cristo
Pentecostes é o derramamento do Espírito Santo, dom da nova aliança anunciada pelos profetas (Is 32.15; 44.3; 59.21; Jr 31.31-34; Ez 36.26-27; 37.14; Jl 2.28-29 [3.1-2]). É também o sopro vivificante do Criador, que deu vida ao ser humano e continua renovando a criação (Gn 2.7; Sl 104.30; Rm 8.2,11; 1Co 15.45).
Pentecostes é dom de Deus para a missão, para a pregação do evangelho a toda criatura (Mc 16.15; At 1.8). É o Espírito da renovação e do novo nascimento (Jo 3.5-8; Tt 3.5-6), da reconciliação com Deus (2Co 5.18-20; Rm 5.5-11). É o Consolador e Advogado, prometido por Jesus e enviado pelo Ressuscitado (Jo 14.16-17,26; 15.26; 16.7-15), aquele que confirma em nossos corações o perdão, a vida e a salvação (Jo 20.22-23; Rm 8.15-16).
É ele quem distribui os dons do Senhor glorificado para a edificação da igreja (1Co 12.4-11; Ef 4.7-13). É a unção de Deus para cumprirmos, em fé, esperança e amor, os dois grandes mandamentos: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos (Dt 6.5; Lv 19.18; Mt 22.37-40; Rm 5.5; Gl 5.22). Pelo batismo e pela ação do Espírito, Deus nos introduz em sua família e nos faz viver como seu povo em paz, justiça e alegria (Jo 3.5; At 1.5; 2.38-39; Rm 14.17; 1Co 12.13).
É também o Espírito que nos conduz ao arrependimento diário, à morte do velho ser humano e ao surgimento da vida nova em Cristo (Rm 6.3-11; Ef 4.22-24; Cl 3.9-10). Pentecostes é, portanto, o envio da igreja para anunciar a salvação a todos os povos, tribos e nações, em todas as línguas, proclamando a toda criatura que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16; cf. At 2.5-11; Ap 7.9).
Pentecostes: testemunho e missão (buscar e acolher)
Pentecostes é semeadura e colheita, anúncio e acolhimento, abertura a judeus e gregos, a romanos e bárbaros, a justos e pecadores, a homens e mulheres, a adultos e crianças, sem distinção (At 2.17-18; Gl 3.28; Cl 3.11). É semear no mundo dos gentios a mensagem da reconciliação (2Co 5.19-20). É ir até os confins da terra (At 1.8) e reunir em um só rebanho as ovelhas dispersas (Jo 10.16; 11.51-52). É viver como sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-16), buscando em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.33), e dando testemunho do amor fraterno pelo qual o mundo reconhece os discípulos de Jesus (Jo 13.34-35).
Pentecostes é a celebração da vida e dos dons da terra e do céu. É semear a cevada e o trigo para colher o pão; plantar a videira para produzir o vinho; cultivar a oliveira para verter o azeite (Dt 7.13; Jl 2.19,24). O pão que desce do céu alimenta os famintos no corpo e na alma (Jo 6.33-35). O vinho alegra o coração (Sl 104.15), e o Espírito traz a verdadeira alegria, não a embriaguez do pecado, mas a plenitude da vida em Deus (Ef 5.18). O azeite evoca cuidado, consolo e cura (Lc 10.34; Tg 5.14; Is 61.1-3).
Jesus, ao ver os samaritanos confessarem que ele é o “Salvador do mundo”, falou da semeadura e da colheita (Jo 4.35-42). E, quando os gregos quiseram vê-lo, falou do grão de trigo que cai na terra e morre para produzir muito fruto, anunciando assim sua morte redentora e o poder de atrair todos a si (Jo 12.20-24,32). Também o sinal de Jonas aponta para a descida ao abismo e o retorno à vida como chamado ao arrependimento das nações (Jn 1.17–2.10; 3.1-10; Mt 12.39-41).
O bom samaritano derramou vinho e azeite sobre as feridas do homem caído à beira do caminho (Lc 10.34). A tradição cristã frequentemente reconheceu nessa imagem um reflexo do próprio Cristo, que traz paz, justiça e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). Ele é o bom pastor que vai em busca das ovelhas perdidas (Jo 10.11-16; Lc 15.4-7), a videira verdadeira (Jo 15.1-5), o pão da vida (Jo 6.35), a água viva (Jo 4.10-14; 7.37-39), a luz do mundo (Jo 8.12) e o Salvador do mundo (Jo 4.42). Ele é também o semeador fiel da boa semente, a palavra de Deus (Mt 13.3-9,18-23), e o grão de trigo que entrega sua vida para a grande colheita da salvação (Jo 12.24).
No Espírito Santo, semeamos o evangelho de Cristo no mundo, colhendo a todos os que creem para a família e reino de Deus, nesta vida e na eternidade. Pentecostes é paz, justiça e alegria no Espírito Santo. Pentecostes é a igreja que busca e acolhe os aflitos, pecadores entristecidos deste mundo. É o quinquagésimo dia, em que o evangelho é anunciado até o dia do Senhor – a vinda de Cristo, quando, então, a semeadura e a colheita terão terminado. É tempo, hoje, da igreja semear e colher, buscar e acolher, pois o campo da missão já está pronto, mas os trabalhadores são poucos.


