Permanecer na Palavra e a instabilidade

Em outros tempos havia projetos, a deliberação familiar determinava carreiras, previa resultados. A incerteza tomou o lugar da segurança. O risco de perder o emprego acompanha os que trabalham, ofertas aparecem longe do lugar em que estamos, oportunidades determinam onde havemos de morar, vínculos rompem, distâncias multiplicam solidões. A instabilidade sabe fascinar: migrar de uma atividade a outra, de um lugar a outro, variar amplia a visão, a compreensão, desenvolve habilidades. O choque de costumes, de opiniões abala. Competimos no esporte e no trabalho, a refrega demanda forças que excedem capacidades. Lutamos para sobreviver. Vivemos no mundo do espetáculo, a imagem é comprada e vendida: automóvel, vestimenta, residência… Em risco está o ambiente privado, a vida interior. Vivemos exaustos, consumimos e somos consumidos.

A Palavra acolhe sem anular diferenças, sem tolher movimentos. Paulo, mensageiro da Palavra, fez-se tudo para todos. Na Palavra reside o Deus vivo, a Palavra é criadora, renova, redime. A Palavra reside na primeira palavra, a palavra que gerou o universo, fundamento de todas: haja luz. Quem permanece na Palavra, vive na Palavra, experimenta a vida da palavra, vive na Luz.

A verdade se opõe à aparência, ao palpite. Guiados pelo Espírito, conhecemo-nos a nós mesmos no mundo em que vivemos, em relação a outros, em relação a Deus, a verdade brilha contra o sem sentido, contra o nada. Quem sou eu? A verdade se revela no caminho. O que sou para os outros? O que sou para Deus? Quando falo de Deus não emito uma opinião, declaro o que Deus é em mim, para mim, para os meus semelhantes, para o mundo. Ao conhecer minhas limitações, percebo o infinito das possibilidades que Deus põe à minha disposição. Cada momento é de revelação. Só Deus conhece a todo momento tudo.

A Palavra oferece liberdade a homens que se consideram livres embora não o sejam. Quem se atola na droga, recusa a liberdade, vegeta como escravo da droga, quem busca o bem-estar no consumo é oprimido pelo produto. A Palavra liberta de paixões, de limitações, de deficiências, de insuficiências, da observação de dias festivos, do passado, de ritos, da morte, dos pavores da morte. É incorreto declarar que não há solução para isso ou para aquilo, para a Palavra não existem impossíveis, A Palavra quebra algemas, fortalece braços para novas ações, para inesperadas decisões. A Palavra liberta para a reinvenção da vida. A esperança sorri ao que vive na Palavra.

Discípulos de ontem e de hoje andam num mundo que se move. O discípulo penetra num mundo instável, a Palavra ampara, conforta, acolhe. Ser discípulo é cultivar a palavra criativa. Permanecer é um modo de ser, de pensar, de viver. Quando entramos na Palavra, os horizontes se alargam, descobrimos sentido em acontecimentos que nos pareciam sem sentido. A Palavra congrega num mundo que se estilhaçou.

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