Maio de 2024 ficará para sempre marcado na memória dos gaúchos como um dos períodos mais difíceis de sua história. A enchente que assolou o estado trouxe destruição em larga escala, deixando marcas profundas na infraestrutura, bem como na vida emocional, social e econômica da população. Hoje, dois anos após a tragédia, o cenário nas congregações da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) revela uma jornada dupla: a dor persistente das perdas e a força da solidariedade cristã.
Assim como o povo de Israel, liderado por Neemias, encontrou os muros de Jerusalém em ruínas e precisou de união, fé e ferramentas nas mãos para reconstruir a cidade (Neemias 2.17-18), a igreja luterana no Rio Grande do Sul tem trabalhado incansavelmente entre os escombros.
Veja aqui as notícias sobre a enchente de 2024.
UMA NOVA NORMALIDADE
O vice-presidente de Ação Social e coordenador do Fundo de Resposta a Desastres da IELB, pastor Airton Schroeder, avalia o cenário atual nas regiões afetadas como estável. Contudo, as feridas ainda são sentidas. Conforme ele, não é possível afirmar que as perdas foram totalmente superadas, mas sim que estão sendo contornadas. “Há um novo modo de vida que incorporou as perdas, seguindo em frente com uma ‘nova normalidade’ repleta de garra, alegria e esperança”, pontua.
Pastor Airton observa que, neste período, a lógica tradicional de ofertas inverteu-se: pessoas que a vida toda ofertaram seus bens à igreja sentiram uma indescritível gratidão ao receberem doações e recursos oriundos da própria igreja na hora de sua maior necessidade. “A instituição atuou de forma mediadora, recebendo e compartilhando donativos de diferentes origens e marcando presença constante onde as pessoas precisavam”, detalha.
Diante do tamanho da tragédia, que poderia ter ceifado muito mais vidas, o sentimento que prevalece entre o povo cristão não é de questionamento a Deus, mas de gratidão pela proteção divina.
A experiência vivida reflete o relato bíblico da igreja primitiva em Atos 4.32-34, onde não havia necessitados entre eles, pois todos compartilhavam o que tinham. Caminhões com alimentos, roupas e móveis chegaram de diversas partes do Brasil, provando que Deus cuida de seus filhos através da compaixão humana.
RETRATOS DA RECONSTRUÇÃO
Todas as congregações da IELB retomaram suas atividades poucos meses após o desastre. No entanto, a realidade de cada paróquia ilustra os desafios singulares desta reconstrução.
Estrela:
O Vale do Taquari sofreu rupturas na alma de suas comunidades. Nos bairros ribeirinhos de Estrela, onde o lodo e uma vegetação oportunista cobriram antigos lares, impera um silêncio cortante. Famílias perderam não apenas bens, mas documentos e fotos, gerando uma crise de identidade comunitária.
Em meio à destruição, um paradoxo visual ocorreu: durante o pico da cheia, o templo da Congregação Trindade desapareceu sob as águas, restando apenas a ponta do telhado visível. Enquanto casas vizinhas foram arrancadas, a estrutura do templo permaneceu de pé. Após limpezas pesadas, o local hoje assemelha-se a um farol na escuridão, sendo um testemunho da glória de Deus e a “pedra que o rio não levou”.
O pastor Jonas Roberto Schultz ressalta que, apesar da resistência do prédio, a comunidade sofreu uma dispersão dolorosa, com membros traumatizados pelo medo do rio migrando para bairros distantes e outras cidades. O grande desafio pastoral é manter unida essa comunidade fragmentada.
Economicamente, a congregação busca adquirir um novo terreno seguro, mas esbarra em um mercado imobiliário cruel, onde a escassez de terras altas fez os preços dispararem. Ainda assim, os cultos continuam firmes no templo atual.




Três Coroas:
Praticamente todos os moradores de Três Coroas sentiram os impactos diretos ou indiretos da elevação do Rio Paranhana. Empresas e comércios sofreram prejuízos que ainda geram reflexos na economia local.
Na Congregação Cristo, o patrimônio foi bastante atingido. O pastor Airton Schünke relata que um prédio da Igreja cedido ao município para o funcionamento de uma Escola Infantil sofreu grandes danos. A recuperação foi longa e exigiu grande esforço, permitindo que os alunos retornassem às salas de aula somente um ano após a enchente.
A casa pastoral também teve danos parciais significativos e precisou ser demolida recentemente, obrigando o pastor e sua família a residirem de aluguel. Atualmente, o grande desafio é construir uma nova residência pastoral. Esse projeto, contudo, é feito com cautela, pois muitas famílias da comunidade ainda enfrentam consequências financeiras e insegurança.










Canoas:
Na Congregação São João, em Canoas, a enchente atingiu mais de 90% das famílias. O pastor Vitor Valadão conta que, no início, os esforços e recursos foram direcionados inteiramente às pessoas, garantindo moradia mínima e móveis, pois “a igreja são as pessoas”.
Neste ano, a congregação iniciou a reforma do templo, optando por elevar o nível do piso para evitar que futuras chuvas intensas invadam o local como antes. É uma obra pensada para o futuro. Enquanto aguardam a conclusão do templo, os membros cultuam no salão da igreja. Este salão precisou ser recuperado de forma dupla, pois além da enchente, foi atingido por um incêndio pós-inundação que destruiu praticamente metade do edifício.









IMPACTOS SILENCIOSOS
O vice-presidente de Ação Social observa ainda que a recuperação da sociedade gaúcha esbarra em obstáculos complexos em áreas diversificadas, tais como:
Agricultores e pecuaristas: Um público muitas vezes invisível nas notícias, que perdeu seu potencial produtivo, cadeias produtivas (animais e safras) e solo fértil. Apesar das perdas incalculáveis, demonstram imensa resiliência, continuando a trabalhar com a fé de que a natureza criada por Deus voltará a produzir.
Habitação: O ponto mais dispendioso e desafiador. O cenário se divide entre famílias de baixa renda e do Cadastro Único receberam casas ou recursos de até R$ 200.000,00 (mediante doação do terreno antigo) e famílias com casas de melhor condição, que não foram contempladas por programas governamentais, dependendo muitas vezes de iniciativas voluntárias.
Abandono e reagrupamento: Muitos imóveis comerciais e casas simples de aluguel foram abandonados pelos proprietários. Famílias inteiras mudaram-se sem deixar notícias. Ao mesmo tempo, famílias que se reagruparam (avós, pais e netos na mesma casa) para economizar começam agora a buscar sua autonomia novamente.
Comércio de veículos: Carros velhos e sem seguro foram recuperados pelos donos, gerando hoje um descrédito no comércio regional, onde há o temor constante de se adquirir um “carro de enchente”.
Diante desse cenário prolongado, a IELB compreendeu que a ajuda humanitária tende a desaparecer rapidamente após os primeiros dias de caos, mas o sofrimento das pessoas permanece. O pastor Airton reforça que a igreja necessita estar presente e planejar a reconstrução a longo prazo. Para estruturar essa assistência, a liderança luterana apoia-se em volumes técnicos de treinamento, como o “Guia para Pastores em meio a Desastres” e a “Equipe Luterana de Resposta a Desastres”, além de todo o conteúdo bíblico e teológico para a atuação nas ações de misericórdia e ação social, em especial na obra com artigos sobre “A Teologia da cruz e a misericórdia de Deus”.
A firmeza dessas comunidades encontra eco nas promessas divinas. Como declaram as famílias de Três Coroas e Estrela, Deus é “refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (Salmo 46.1). Há a convicção absoluta de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8.28), transformando até mesmo a lama em um novo solo fértil para crescimento espiritual.
“E é essa a mensagem que procuramos levar: mesmo no meio da dificuldade, não calamos. Seguimos pregando, celebrando, acolhendo. A reforma que vivemos é física, mas também espiritual, nos lembra que o que permanece não são as estruturas, mas a Palavra de Deus”, conclui o pastor Vitor Valadão.


