Uma consideração cristã

Como cristãos, somos estimulados a tratar bem a todos, com humildade no coração, sem fazer, em hipótese alguma, acepção de pessoas. Algumas, entretanto, tratamos com uma reverência devida, por respeito as suas posições, como autoridades na igreja: o pastor, o presidente da congregação, etc. Respeito adicionado à consideração. Pessoas que batalharam para alcançar o cargo que conquistaram, muitas vezes, a duras penas.

Compositor e arranjador. Uma profissão rara, principalmente no âmbito religioso. Antigamente, pessoas de boa índole e algum conhecimento doavam seu tempo para compor canções que são entoadas até hoje pelos fiéis. Pessoas abençoadas com este dom, mas que exerciam outras atividades econômicas para sobreviver.

Atualmente, a participação musical tem exigido um refinamento maior por parte dos executantes, e as facilidades da globalização trouxeram ao nível da classe média a aquisição de instrumentos que há trinta anos residiam apenas no sonho de quem aspirava tê-los. Com o uso de outros instrumentos, além do tradicional órgão, fazer arranjos passou a ser quase uma necessidade básica para o embelezamento do louvor na igreja. E para isto, haja tempo.

Sou compositor e arranjador. Muito lápis já gastei com intermináveis exercícios de melodia e harmonia, em que o prêmio maior era ver o professor torcer a boca e não falar nada. Isto significava que não havíamos alcançado o ideal, mas que ele não podia reclamar do serviço feito. Quando alunos, sofremos humilhações que fazem com que o bullying praticado por crianças seja comparado a um elogio. Quando formados, somos “jogados aos leões” e penamos anos a fio até conquistar um lugar ao sol.

Compor e arranjar não são trabalhos simples, e requerem tempo de dedicação muito além do conhecido “horário comercial”. Dependem de inspiração, insights, tranquilidade e determinação. Afinal, como compositores, vivemos dando “a cara a tapa”.

Findo o trabalho de arranjos, como por exemplo, num livro de partituras para violão clássico de hinos do Hinário Luterano e do cancioneiro Todos os Povos o Louvem, há todo um roteiro que deve ser seguido até se chegar à impressão final e ao livro propriamente dito. Mesmo uma publicação digital teve seu “suor do rosto” e, por sua vez, merece a mesma consideração que qualquer outra publicação impressa. São revisões sobre revisões, projeto de lançamento, composição do “boneco” (exemplo de como ficará a obra), planejamento e confecção da capa, autorização e novamente revisão até que tudo vá para a gráfica e se transforme no livro que teremos em mãos, em nossas casas, em nossos computadores, tablets, etc. Trabalho não só do compositor, mas de todos que se dedicam ao segmento musical.

Mas o que seria honesto fazer? Comprar a publicação e estimular a todos que façam o mesmo. Faz-se este tipo de coisa? Não, em geral. Compra-se um livro (ou o arquivo digital) e copia-se o que interessa para usar conforme a necessidade. Erro? Em termos de praticidade, não. Mas, no mínimo, é uma desconsideração com aquele grupo de pessoas que está por detrás de toda a publicação e deu duro para que se chegasse ali. Há como fiscalizar? Creio que há condições técnicas para isso. Mas pergunto: É preciso? Já que todos nós sabemos que atrás de cada produção tem autores e, logo, há direitos autorais a serem respeitados? O que precisamos é respeitar, valorizar mais aqueles compositores, sejam eles cristãos ou não, que fazem suas obras à custa de muito trabalho. O que precisamos é ter consciência do abnegado trabalho que é feito até que um livro impresso ou um arquivo digital chegue as nossas mãos.

Em contexto religioso, se auxiliarmos estes arranjadores e compositores que, junto comigo, entregam profissionalmente seu caminho ao Senhor para louvá-lo da melhor forma possível, teremos mais e mais canções eternas que atingirão nossos corações, elevando louvores a Deus com o que temos de melhor. Copiar e compartilhar sem valorizar, sem considerar o trabalho dos autores, auxilia o adversário para que a inércia crie a insatisfação, e a mesmice tire pessoas dos bancos de nossas igrejas. Enquanto agimos assim, facilitamos a vida do nosso inimigo, que como o leão, anda em derredor…

Não advogo em causa própria, mas por aqueles que já publicaram e que ainda publicarão seus trabalhos para o engrandecimento do Reino de Deus. Advogo pelos que precisam de tempo remunerado para compor e arranjar. E para que o consumidor final possa deliciar-se com belos arranjos e composições que o ajudarão a atenuar a cruz que carregamos todos os dias. É bom cantar novos e antigos cânticos a Deus, com arranjos diferentes. Mas, para isso, precisamos de compositores e arranjadores que o façam da melhor maneira possível.

Consideração e respeito são as palavras–chave para o que reivindico neste artigo. Que pastores e membros, antes de copiarem obras que custaram horas, reflitam sobre este texto e vejam se realmente não seria melhor adquirir o livro (ou o arquivo digital), pois este tem uma durabilidade bem maior que meras folhas xerografadas (ou impressas em nossas impressoras) tiradas a esmo por este ou aquele motivo. Que Deus abençoe aqueles que investem um pouco mais de seus recursos para adquirir a obra, ao invés de apenas reproduzirem em fotocopiadoras.

Agradeço a Deus por todos aqueles que já têm e praticam esta consideração. Respeitemos igualmente os que dão seu tempo valioso às coisas de Deus e que empenham sua profissão ao fazê-lo. Amém.

Moisés Dornelles

Músico, regente, compositor e arranjador

Porto Alegre, RS

*Texto publicado na edição de dezembro de 2014.

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