Uma educação para o amor




É
pela boa formação dos homens em todos os tempos que se ergue a verdadeira educação.
Educa melhor o educador que sustenta uma confiança básica no ser humano; que
sente prazer em estar vivo e atua positivamente no cotidiano, cultivando a
vitalidade; que lembra que é criação divina e propõe uma ação pedagógica de
abertura para o todo (Offenheit für das
Ganze
) – para a totalidade do ser; que adota uma pedagogia do amor cuja
expressão mais profunda é aquele wie gut:
“Que bom que existas!” ou “Que maravilha que estejas no mundo!”); educa melhor
o educador cuja alma em festa se abre para o saber, cuja dilatação intelectual
é, ao mesmo tempo, “deleitação” (alegria) do coração; que concebe uma ideia
universal de homem fundamentada numa ética de essência e na certeza de alcance
da felicidade; que é coerente e vive o que pensa, estabelecendo um vínculo de
educador afetivo e exemplar com quem nele se inspira; que ensina a coragem e o
entusiasmo pelo novo, pelas coisas que estão além de si mesmo, pelo atrevimento
de experimentar o diferente; educa melhor o educador em quem o medo de errar é suplantado
pela coragem de acertar; educa melhor o educador emocionalmente sensível, que
sente paixão pela vida, se preocupa com seus alunos e, interessando-se por seus
problemas reais, acolhe-os; educa melhor o educador que desperta o desejo pela
autonomia do pensamento, ciente de que o aluno é sujeito do seu agir e é livre
para decidir seus atos e caminhos.

Muitas coisas na vida humana se alimentam do amor para
sobreviver. “A flor do amor tem muitos nomes”, escreveu Guimarães Rosa. Os
fundamentos filosóficos que sustentam uma ampla visão de mundo – sempre de
forma provisória e em permanente estado de incompletude – são como portas pelas
quais o amor se expressa. A visão educacional cristã que sustenta uma profunda
unidade de visão de mundo e de homem (Weltbild
und Menschenbild
) é aquela que tem ciência de permanentemente “estar a
caminho”, pois a condição do homem é a de viandante, num caminho no qual está
sempre a caminho, em estrutura de esperança (Hoffnungsstruktur), a estrutura básica do ser humano.

A filosofia educacional cristã não sustenta ter
conseguido, com sucesso, elaborar uma visão-de-mundo perfeitamente acabada, mas
se empenha por manter viva a questão
sobre o significado da razão última da totalidade do real
– uma questão
para a qual poderá certamente encontrar uma série de respostas provisórias,
contudo, nunca a resposta. Qualquer esforço por apreender the complete fact (a característica da questão filosófica na feliz
formulação de A. N. Whitehead), permanece necessariamente um empreendimento inacabável.
A posição da filosofia educacional cristã está, nesse sentido, perfeitamente
alinhada à descrição paulina de que “por enquanto vemos como em espelho”. E é
esta a tarefa da filosofia: manter aberta a atenção para o inapreensível “fato
total” e, assim, despertar suspeita contra qualquer pretensão à descoberta da
“fórmula do mundo” como se fosse possível segurá-lo nas mãos e analisá-lo desde
fora.

Sempre que estabelecemos um
paralelo entre amar e educar, ensinar e aprender, não podemos esquecer de uma
profunda e essencial intuição d
o velho e bom Platão, que afirmava
que aprender pressupõe que haja um mestre, um mestre real, de carne e osso.
Para aprender, o aluno não precisará de imediato apresentar um espírito crítico
que examina, reexamina e depois aceita ou recusa o que lhe é apresentado. Tanto
Aristóteles como Platão, dizem que quem quiser aprender deve crer; quem
quiser experimentar, quem quiser se relacionar com o que é decisivo, com os
fundamentos últimos, com “Deus e o mundo”, deve, com confiança, ou seja, em
certo sentido acriticamente, e em atitude de disponibilidade para a silenciosa
escuta, voltar-se para um homem: o mestre. Nesse sentido, parece-nos que
perdemos muito com o advento do princípio de Descartes, que remete o indivíduo
a sua própria subjetividade isolada, que impediu o acesso à sabedoria
platônica. Curiosamente, esse princípio nunca se perdeu no Extremo Oriente,
onde sem mestre pessoal não há sabedoria. 

Porém, não era apenas o crer/confiar que ligava os
discípulos a seu mestre. Também era o amor. Em uma importante passagem de
Fausto, a famosa obra de Goethe, lemos que “só se aprende, acima de tudo, de
quem se ama”. Porém, não se trata do amor eros
quando se diz que o pressuposto do aprender é – em determinado sentido – o amor,
a identificação amorosa com o discípulo. O que os antigos, e também JP,
entendem é que o discípulo, mediante tal identificação, é colocado na
possibilidade de ver o objeto como que com os olhos do mestre. Então,
ele passa a ter acesso a realidades que – do ponto de vista puramente
intelectual – de modo algum poderia apreender, mas que lhe são dadas, no
entanto, justamente em virtude daquela afirmação acrítica de discípulo, em
virtude de sua identificação com o mestre. Portanto, o aprender acontece, em sua
forma mais intensa, não por conta do interesse pelo assunto, mas por causa da
ligação do discípulo com o mestre.

Também o ensinar está profundamente ligado ao amor.
Afinal, o amor, a suprema de todas as virtudes, ilumina todas as outras.  No verdadeiro professor há algo que escapa ao
âmbito puramente técnico, procedimental, e não pode ser propriamente aprendido.

A firme convicção de que existe um significado mais
profundo para a existência é a certeza da qual a filosofia educacional cristã
se alimenta. Ela torna a vida mais interessante e faz toda a diferença. Quando
vejo o outro, o próximo, como alguém amado exatamente como também eu sou,
abre-se, a partir dessa perspectiva, um novo horizonte para a vida; a vida
entra em foco e o olhar passa a ser de límpida esperança, a Esperança fundada
em Deus, a que se alicerça na convicção de que “tudo vai terminar bem, tudo
terá um final feliz” (es wird gut
ausgehen, es wird ein gutes Ende nehmen
).

 

Enio Starosky

Téologo e educador

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