Uma reflexão sobre a juventude na Bíblia

“Fui moço e agora sou velho”: assim começa o texto bíblico do salmo 37.25. Continua assim: “Porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão”. Sempre se destaca a parte final do versículo: “jamais vi o justo desamparado”. Faz sentido. Mas alguém poderia perguntar: O que o salmista entende por “fui moço”? E qual teria sido a idade dele, ao dizer que já era “velho”? Instigado pelo Dia Internacional da Juventude, celebrado no dia 12 de agosto, faço uma reflexão sobre as diferentes fases da vida, na Bíblia, com destaque para a juventude.

Antes disso, alguns dados sobre a situação atual. O Brasil já foi um país de jovens. Hoje, é grande o número de “gerontolescentes”, isto é, pessoas com mais de sessenta anos que optaram por investir em qualidade de vida, ignorando as limitações naturais dessa idade. A população do Brasil cresce a uma taxa de pouco mais de 1% ao ano, mas os idosos aumentam mais de 3% ao ano. Já somos, nós, os idosos, 11% da população brasileira. A projeção é que, em 2050, serão 30% da população! Esses idosos do futuro são os jovens de hoje.

A juventude na Bíblia

Discute-se quando termina a juventude e começa a fase adulta. Maior ainda é a discussão em torno do começo da velhice. Quem é jovem e quando passamos a ser “velhos”? Shakespeare teria dito que velhos são sempre aqueles que estão 20 à nossa frente.

Em se tratando da Bíblia, quem é jovem? Quem entra nessa categoria? Seria possível, por exemplo, definir de forma mais exata a idade de Absalão, a respeito de quem o pai Davi perguntou, em 2Samuel 18.29: “Vai bem o jovem Absalão”? E quando Paulo escreve – mais para os outros do que propriamente para Timóteo – “ninguém o despreze por você ser jovem” (1Tm 4.12), que idade tinha Timóteo? E que idade tinha aquele Êutico (At 20.9), que pegou no sono e caiu da janela, interrompendo uma, por assim dizer, interminável pregação de Paulo? Os textos em si não definem isso. Os dicionários das línguas bíblicas (hebraico e grego) nem sempre ajudam. É possível que não tenha maior importância. Mas fica a curiosidade mesmo assim.

“Jovens e velhos” no Antigo Testamento

De forma bem rápida pode-se dizer que, em muitos momentos, na Bíblia, jovem é a pessoa que não é velha, e velha é a pessoa que não é mais jovem. Parece bastante óbvio. Mas fica claro que são duas fases da vida (além da fase de criança). “Jovens e velhos” é uma expressão usada para, com ênfase nos extremos, designar totalidade. Assim, em Isaías 20.4, “tanto moços como velhos” significa “todo mundo”. Em outras palavras, todos os egípcios e etíopes seriam levados ao cativeiro pelos assírios. É fácil perceber que, num caso assim, moço ou jovem é algo bem genérico. Trata-se de uma maneira de falar da vida, que usamos ainda hoje. Muitos podem dizer com o salmista: “Fui moço e agora sou velho, mas jamais vi o justo desamparado…” (Sl 37.25). Mas a partir de que momento alguém poderia começar a dizer isso?

“Jovens” no Antigo Testamento

Será que é possível ser mais específico, em termos de Antigo Testamento? Como os antigos viam essa questão das diferentes idades, incluindo a juventude? A palavra mais usada para “jovem”, no texto hebraico do Antigo Testamento, é naar, que aparece umas 240 vezes. A forma feminina naarah (“a jovem”) ocorre perto de 40 vezes. Não existe, porém, no Antigo Testamento, uma divisão entre várias fases de desenvolvimento com base em idade. Parece que naar (“jovem”) é um termo que designa o período que fica entre a infância e a maturidade, sem maior delimitação de idade. Às vezes, significa “não velho”, pois pode ser aplicado também a bebês. Em Êxodo 2.6, por exemplo, o bebê Moisés, com três meses de vida, é chamado de naar, termo que, naquele contexto, é traduzido por “menino”. Em Isaías 8.4, o mesmo termo é usado para um menino que ainda não fala. A “criança” de Provérbios 22.6, que ainda na velhice não se desviará do caminho aprendido, é naar. Assim, algumas traduções trazem “jovem” em vez de criança. Entretanto, naar costuma referir-se a pessoas já crescidas, que ainda não são velhas. Em 1Samuel 17.33, o “adolescente” Davi é chamado de naar. Absalão é naar, embora dificilmente alguém se arriscaria a dar a idade exata que ele tinha quando se rebelou contra o seu pai, o rei Davi (2Sm 15).

Mais ou menos como acontece em português, jovem, no Antigo Testamento, pode ter um sentido conotativo de imaturo e dependente. A passagem de Provérbios 1.4 dá a entender que o jovem precisa de “conhecimento e discernimento”. É provável que Salomão (1Rs 3.7) e Jeremias (Jr 1.6) tinham exatamente isso em vista quando disseram que não passavam de uma “criança”. Em outras palavras, o uso do termo criança nada diz a respeito da idade de Salomão e Jeremias. (Na verdade, Salomão diz de si que é “naar pequeno”, que a NTLH traduz por “muito jovem”. Jeremias diz apenas que é naar, que pode ser traduzido também por “moço” ou “jovem”.)

As sete fases da vida e o tempo do Novo Testamento

Sete fases da vida? Não seriam apenas três? Não dizemos “terceira idade” (embora já se fale também sobre uma “quarta idade”)? Sim, falamos sobre três fases ou idades, embora não se saiba quem exatamente deu origem a essa forma de falar. Podemos apontar para o filósofo grego Aristóteles (em sua obra Retórica), que fala sobre os jovens, os velhos e os maduros (que estão a meio caminho entre juventude e velhice). Mas, no tempo do Novo Testamento, havia em torno de “sete idades”. (Lembrando que não existe um texto único ou específico que fale sobre o assunto. Trata-se de uma construção feita a partir da existência e do uso de diferentes termos.)

A primeira fase era a da “criança” (em grego, paidíon), que ia do nascimento até mais ou menos sete anos. No entanto, esse termo podia ser usado também num sentido afetivo ou carinhoso. A filha de Jairo tinha doze anos (Lc 8.42), mas é chamada de “menina” (paidíon).

A segunda fase era a do “menino” ou da “menina”, entre sete e 14 anos. (Em grego, o termo é páis, de onde nos vem o termo “pedagogia”.) Jesus, com doze anos, é chamado de páis (“menino”), em Lucas 2.43.

A terceira fase era a do “garoto” ou da “garota” (em grego, meikárion), que corresponde mais ou menos ao nosso adolescente (entre 14 e 21 anos). Este termo não aparece no Novo Testamento.

A quarta fase é a da juventude, que será tratada com mais detalhes adiante.

A quinta idade era a do “homem adulto” (em grego, anér), o homem no auge da vida, entre os 30 e 50 anos.

A sexta idade era a do “idoso” (em grego, presbítes), o homem entre 50 e 60 anos. Zacarias, que se declara presbítes (Lc 1.18), deve ter tido seus 50 anos. O apóstolo Paulo se apresenta como presbítes (traduzido por “velho”), mas é possível que não tivesse mais do que 60 anos.

A última fase da vida era a do “velho” (em grego, géron, de onde nos vem “gerontologia”). A velhice começava por volta dos 60 anos e ia até o final da vida. Em João 3.4, Nicodemos pergunta se um homem, “sendo velho” (géron), pode nascer uma segunda vez. No texto de 1Timóteo 5.9, Paulo indica que só poderia ser colocada na lista das viúvas a mulher que tivesse mais de 60 anos. Entre os romanos, a velhice começava em geral aos 60 anos e a expecativa de vida era bem inferior à nossa. Calcula-se que, no Império Romano, os velhos não passavam de 7% da população.

O jovem no Novo Testamento

A quarta fase ou “quarta idade”, no tempo do Novo Testamento, era a juventude, que se estendia dos 20 aos 30 anos. Em grego, eram usados principalmente dois termos para pessoas nessa faixa etária: neanískos e neanías.

Várias pessoas do Novo Testamento são descritas como neanískos: o jovem rico (Mt 19.20,22), o jovem que fugiu nu quando Jesus foi preso (Mc 14.51), o filho da viúva da cidade de Naim (Lc 7.14), aqueles que sepultaram Safira (At 5.10), o sobrinho de Paulo (At 23.18), e os jovens aos quais João se dirige em sua carta (1Jo 2.13-14).

Um caso interessante é Êutico (At 20.12), que é chamado de páis (literalmente, “menino”), embora em Atos 20.9 se diga que era um neanías (“jovem”). É possível que “menino” seja uma forma carinhosa de falar, assim como hoje um pai pode se referir ao filho de 30 anos como “meu menino”. Há quem sugira que Êutico tinha em torno de 20 anos. Não sabemos. Saulo, em Atos 7.58, no episódio da morte de Estêvão, deve ter tido os mesmos 20 anos, pois é apresentado como neanías.

Paulo refere-se à “mocidade” (em grego, neótes) de Timóteo. No entanto, qual era a idade dele? Não sabemos ao certo. Ao ser mencionado pela primeira vez, no Novo Testamento (em At 16.1), diz-se apenas que ele era um discípulo. Aquele tipo de tutoria que Paulo exerceu em relação a Timóteo começava quando o jovem tinha em torno de 13 anos. Paulo foi instruído “aos pés de Gamaliel” (At 22.3), e esse tipo de educação junto a um rabino também começava com a mesma idade, a saber, quando o rapaz tinha 13 anos.

Como os jovens de todas as idades sabem, a juventude é a fase do barulho. Num documento secular do segundo século da era cristã, mais especificamente um papiro encontrado no Egito (em Oxirrinco), o autor do comunicado orienta para que determinada casa não seja alugada a jovens (neanískois), “para que não tenhamos incômodo e irritação”. O apóstolo João, por sua vez, se dirige aos jovens, em 1João 2.14, dizendo: “Escrevi a vocês, porque são fortes, e a palavra de Deus permanece em vocês, e vocês já venceram o Maligno”. Os jovens são fortes. Mas, para vencer o Maligno, a Palavra de Deus precisa permanecer neles. Em última análise, a verdadeira força vem de Cristo.

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