Viver confinado e residir no poder

Steven Pinker, psicólogo canadense radicado nos Estados Unidos, professor na Universidade de Harvard, investigador do comportamento humano, é taxativo: “Pensamento é computação”. Informação e computação residem em dados e relações lógicas, independem do meio físico que os conduz. Quando você telefona para sua mãe – argumenta o psicólogo – a mensagem, mesmo que fisicamente modificada por vibrações do ar ou pela eletricidade, permanece a mesma, transitará inalterada na transmissão de sua mãe a seu pai. Pinker devolve-nos ao racionalismo setecentista renovado, a experiência vivida lhe é indiferente, falar pessoalmente com a mãe ou comunicar-se com ela ao telefone é o mesmo. Ora, quem está longe da mãe, sente-se confortado se a vê de tempos em tempos. A presença pessoal transmite sentimentos que aparelho nenhum nos dá. A presença transmite segredos que palavras não traduzem, vibra no silêncio. Há poderes que a máquina não produz nem transmite, prejudica-se quem deliberadamente os ignora.

Lucas relata o episódio de uma senhora que padecia de hemorragias há doze anos (Luc, 8.43-46). A enferma viu o poder atuar em Cristo, o Profeta proferia palavras poderosas, abalava resistências, abria inesperadas possibilidades de viver. Distante de familiares, de profissionais da saúde, de amigos, a sofredora separa-se da multidão, aproxima-se, toca a barra da capa de Jesus, sente o calor do poder penetrar-lhe nas entranhas, o sofrimento cessa.

Cristo, a Palavra que se fez carne, sente o poder fluir, poder que vem do Pai, poder infinito, poder que supera todos os poderes, poder que vence distâncias, poder mais forte que doença, morte. O poder divino não se esgota, flui de corpo a corpo, não se propaga magicamente, não inflama a multidão aglomerada, o poder vai do Redentor à suplicante. Cristo pede a presença pessoal, rosto a rosto. Sabendo que já não podia ocultar-se, a beneficiada aparece; trêmula, relata padecimentos, esperanças e restauração. Cristo sublinha a confiança, a fé não está no fazer, está no receber, fé não é entusiasmo momentâneo, é vínculo que dura, o poder vincula a beneficiada ao doador. Este é só o princípio, o processo é de vida inteira, o poder criador se renova nas ocupações de todos os dias, nos projetos, nas realizações, permite estabelecer nova relação consigo mesmo, com os outros, com o mundo; em lugar da perda, o ganho.

A hemorrágica se lança trêmula aos pés de Jesus e se levanta na plena alegria de viver, ela não se apropriou indevidamente do poder que vive nela, vida é dádiva, dádiva que lhe confere alegria de viver, de ser mulher.

Dos tempos de Jesus até agora, a medicina evoluiu muito, deixemos a doença aos cuidados de centros de saúde. O poder que toca a suplicante abre possibilidades imprevistas. O Redentor se ausenta, o corpo de Cristo permanece, os que estão em Cristo constituem o corpo de Cristo, centro de difusão, residimos no poder, o poder flui em nós, não é privilégio de alguns, alenta todos os que o buscam. O fluir não é retardado pela distância; mais forte do que tempo e espaço, o poder vincula o passado ao futuro no lugar em que atuamos. O poder flui da eternidade ao momento que passa, atua em gestos, em palavras, em desejos, ampara desprotegidos, restaura a esperança, robustece vínculos fraternos. No corpo de Cristo, o infinito anima o finito, ergue do nada ao existir significativo. O poder que se fez carne silencia computadores, contorna robôs, fortalece vínculos, irmana, fundamenta o que pensamos, fazemos e somos.

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