O bê-á-bá da fofoca

Ela é como um incêndio em uma floresta, que se alastra rapidamente e deixa muitos estragos pelo caminho, alguns irreversíveis

Artur Charczuk
Pastor e psicanalista
[email protected]
(51)992357187

Falaram de você? De repente você ficou triste? Quem sabe, decepcionado? Ou até pensando assim: “Quem é que falou de mim?” Pior é quando você sabe quem é, não é? Dá uma raiva, não é? Sim, ficamos como as frases escritas anteriormente, isto é, com muitas interrogações. Uma coisa é certa: ninguém gosta de ser julgado por terceiros, dá uma sensação não muito boa no peito. Embora muitos digam assim: “Nem dou bola para quem fala de mim”, muitas vezes, é uma defesa da pessoa afirmar isso. A pessoa “dá bola”, com certeza. Pois bem, este texto é um convite a uma reflexão sobre a fofoca. Vamos, leitor, antes de qualquer julgamento, procurar compreender o porquê de uma atitude assim. E, certamente, quando você terminar de ler este artigo, você olhará para a pessoa sob outro viés. Então vamos para o bê-á-bá.

VEM CÁ, DEIXA EU TE CONTAR

Sim, a fofoca sempre vem com uma introdução. São várias: “Viu o que aconteceu com o fulano?” “O cicrano fez uma coisa, vou falar pra você”; “Mas como que ele tomou uma atitude tão drástica?” e muitos outros exemplos. Depois, é iniciada uma das coisas mais daninhas da humanidade, a fofoca. O dicionário de português on-line apresenta a palavra fofoca: “comentário que tem como objetivo de causar algum tipo de intriga, falar os segredos da outra pessoa”. Não se sabe ao certo quando tal forma de comunicação surgiu, entretanto, ela é um fenômeno social, ocorre a partir do convívio das pessoas. As suas primeiras utilizações podem ser percebidas na criança, em seu desenvolvimento infantil. É no tempo em que ela começa a se socializar. A criança fala tudo o que percebe, ouve, etc. A diferença é que não existe malícia ou interesses particulares. Por outro lado, existem pais que, digamos assim, dão recompensas para as crianças falarem tudo o que viram ou escutaram em situações específicas. E isso não é nada bom, leitor, porque a criança, futuro adulto, irá registrar em seu psiquismo que falar dos outros é adquirir benefícios. Ainda mais: a criança, além de aprender que falar é ganhar, ela vai querer adquirir as coisas de qualquer forma, mesmo que prejudique terceiros. Sendo adulta, ela vai continuar reproduzindo o que aprendeu na infância: ela poderá manipular informações; inventar “verdades”, tornar palavras negativas e assim por diante.

Também existem situações em que a pessoa não quer ser responsável pela fofoca que está fazendo: “Vou lhe contar uma situação, mas é para o seu bem”; “O fulano criou uma situação, por isso, acho importante você saber”, entre outros. É tipo assim: eu falei, mas não fui eu. O indivíduo quer manter uma moral impecável, não quer admitir o erro que construiu com a fofoca, portanto, conselho e fofoca viram sinônimos na cabeça do sujeito. Enfim, fofocar, além de outras tantas definições, é transmitir informações sem responsabilidade. Tal ato pode prejudicar pessoas, estragar relacionamentos, arruinar planos. Ela é como um incêndio em uma floresta, que se alastra rapidamente e deixa muitos estragos pelo caminho, alguns irreversíveis. A fofoca é uma corrente destrutiva.

FOFOCAR É DIZER NAS ENTRELINHAS: EU QUERIA TER O QUE ELE TEM

Começo este parágrafo assim: falar do outro é falar de si. Verdade, leitor, comentar sobre o outro é tornar o outro uma espécie de altar da confissão: ele é assim, ele é desse jeito e eu não sou como ele é, mas queria ser. E como a pessoa vai lidar com tal sentimento? Falando do outro, óbvio. É uma maneira do indivíduo, digamos assim, preencher o que falta em si. É reflexo da ausência, é o desejo de potência diante do outro. Fora que a pessoa que faz fofoca, ela realiza um desgaste para si mesma, porque o tempo em que poderia investir em si, com projetos e planos, ela fica focada no outro. A pessoa ignora sua vida e prefere a vida alheia. A partir do momento em que o sujeito encontra o sentido no outro, ele se anula; em outras palavras, fofoca é fuga da realidade, uma falível tentativa de se afastar dos problemas. E o combustível da permanência dos problemas é fugir deles.

A fofoca é um grito de socorro. De alguém que busca ajuda no outro, em suas fantasias, etc. Na verdade, a pessoa que fala da vida alheia, precisa ser ouvida, ou seja, suas angústias gritam nas entrelinhas dos assuntos alheios. Sim, leitor, ali está um ser humano que necessita de acolhimento, de atenção, de reconhecimento, etc. Verdade, o bê-á-bá da fofoca é complexo, entretanto, por detrás do muro dos apontamentos, está alguém frágil e que pede por auxílio. Dores que podem ser preenchidas com o amor e a misericórdia de Jesus Cristo.

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