Vamos brincar?

A adultização infantil é um processo que desvaloriza os processos cognitivos, as relações afetivas, habilidades motoras e de linguagem

Artur Charczuk
pastor e psicanalista
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Quem nunca ouviu tal pergunta: vamos brincar? Quem vê de fora, é apenas um encontro lúdico de crianças, uma descontração infantil, uma recreação e assim por diante. Ao mesmo tempo, quando vemos crianças brincando, vem uma doce sensação de um mundo idealizado, em outros termos, uma realidade sem os rancores do universo adulto, sem os insensíveis e tecnocratas boletos, sem as asperezas de uma sociedade mecânica e assim por diante. E a palavra brincar? Sua derivação é de origem latina, vem da palavra “vinculum”, significando laço. Vem do verbo “vincere”, quer dizer, encantar, também enlaçar. Para o português, o termo “vinculum” virou vínculo e brinco, ocasionando o verbo brincar.

O ato de brincar teve sua criação na Alemanha. Não existia, digamos assim, uma cultura do brincar. Ela apareceu em locais que não eram apropriados, isto é, nas fundições de estanho e por entre os entalhadores de madeira. A partir do século 18, os brinquedos passaram a ter presença e competitividade nos comércios especializados. Os primeiros brinquedos eram tidos como minúsculos, com uma certa discrição, eram uma arte em tamanho menor. Em compensação, com o alcance de um espaço social mais amplo, o brinquedo foi adquirindo significação e proporção maior.

No princípio de tudo, o brinquedo era feito de restos de outros materiais, não existia uma criatividade no quesito brinquedo, eram séries de contínua repetição. Com sua expansão, ele começou a alcançar o conteúdo imaginário da criança, suas fantasias, sua autoexpressão. Quando ocorre o relacionamento entre o brinquedo e o brincar, acontece o vínculo entre o que é simbólico e a realidade imediata da criança. Brincar é uma atividade essencial para o infante, dado que suas potencialidades e capacidades são desenvolvidas. O brinquedo é como uma espécie de estímulo, onde a criança tem seu imaginário fluído nas camadas de um plástico ou outro material multiforme. O brincar ultrapassa o limite físico, não é simplesmente uma criança correndo com um dado brinquedo para lá e para cá, mas é todo um trabalho cognitivo, de sociabilidade, dialógico, recreativo, etc. O brinquedo reproduz o mundo da criança, ele é a origem de um universo à parte, universo alimentado por heróis, quadrinhos, seriados, alguma história infantil e outros.

Destarte, o brinquedo não é apenas uma forma atrativa, um objeto de entretenimento. Ele estimula a memória da criança e rememora o adulto. Qual adulto, ao ver um grupo de crianças, nunca lembrou de seu tempo? Porquanto, são as primeiras felicidades experienciadas e que ficam registradas no foro íntimo do sujeito. De fato, o brincar nunca sai da vivência humana.

ADULTIZAÇÃO INFANTIL: CUIDADO

Roupas que estão na moda, salão de beleza, uma agenda cheia de atividades, cuidado. Tais experiências destoam o natural processo da criança, digo, sua infância é acelerada. A adultização infantil é a criança que realiza comportamentos que não condizem com sua idade, queimando etapas psicológicas importantes e que serão basilares para sua vida inteira. O que eu quero dizer é o seguinte: a personalidade da criança é feita de uma forma forçada, ou seja, ausente de ludicidade e brinquedos, tendo apenas esquemas de cunho adulto. A adultização infantil é um processo que desvaloriza os processos cognitivos, as relações afetivas, habilidades motoras e de linguagem.

A criança fica à mercê da baixa autoestima, precocidade em determinados assuntos, consumos inapropriados, sintomas depressivos e outras situações. Os pais precisam estar atentos, embora aconteçam contextos em que os pais se perdem em suas próprias vontades e desejos, que acabam se sobrepondo as verdadeiras necessidades dos filhos: qual roupa usar? Qual esporte praticar? Qual escola estudar? Os pais dão superproteção para seus filhos, uma vez que eles não tiveram. A criança precisa brincar, correr, extravasar seu psíquico que busca por significação. Por fim, os pais precisavam estar presentes, acompanhando e orientando, mas permitindo o que é essencial, assim dizendo, brincar.

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